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14/10/2017

30/12/2016

Nuvens

A nuvem invólucro arquitectónico.
A Coluna de Nelson, Trafalgar Square

NUBES (I)

No habrá una sola cosa que no sea
una nube. Lo son las catedrales
de vasta piedra y bíblicos cristales
que el tiempo allanará. Lo es la Odisea,
que cambia como el mar. Algo hay distinto
cada vez que la abrimos. El reflejo
de tu cara ya es otro en el espejo
y el día es un dudoso laberinto.
Somos los que se van. La numerosa
nube que se deshace en el poniente
es nuestra imagen. Incesantemente
la rosa se convierte en otra rosa.
Eres nube, eres mar, eres olvido.
Eres también aquello que has perdido.


NUBES (II)

Por el aire andan plácidas montañas
o cordilleras trágicas de sombra
que oscurecen el día. Se las nombra
nubes. Las formas suelen ser extrañas.
Shakespeare observó una. Parecía
un dragón. Esa nube de una tarde
en su palabra resplandece y arde
y la seguimos viendo todavía.
Qué son las nubes? Una arquitetura
del azar? Quizá Dios las necesita
para la ejecución de Su infinita
obra y son hilos de la trama oscura.
Quizá la nube sea no menos vana
que el hombre que la mira en mañana.

Jorge Luís Borges, De Los Conjurados (daqui)

23/04/2016

O Livro

“De los diversos instrumentos inventados por el hombre, el más asombroso es el libro; todos los demás son extensiones de su cuerpo… Sólo el libro es una extensión de la imaginación y la memoria.”
Jorge Luis Borges

James Charles, Reading Book, Pinterest

James Charles:

400 anos  da morte de William Shakespeare
[investigações mais recentes do historiador João Alves Dias referem que a morte do escritor ocorreu a 3 de Maio e não a 23 de Abril de 1616]
 Ler aqui.  Acrescentado às 8: 30 horas do dia 4 de Maio de 2016.

Uma coisa bela persuade por si mesma, sem necessidade de um orador.

Shakespeare, O Estupro de Lucrécia 
(citador)

22/11/2014

Oito rostos ou o efeito espelho

Oito rostos ou o efeito espelho
Vermeer revisitado

AO ESPELHO

Por que persistes, incessante espelho?
Por que repetes, misterioso irmão,
O menor movimento de minha mão?
Por que na sombra o súbito reflexo?
És o outro eu sobre o qual fala o grego
E desde sempre espreitas. Na brunidura
Da água incerta ou do cristal que dura
Me buscas e é inútil estar cego.
O facto de não te ver e saber-te
Te agrega horror, coisa de magia que ousas
Multiplicar a cifra dessas coisas
Que somos e que abarcam nossa sorte.
Quando eu estiver morto, copiarás outro
e depois outro, e outro, e outro, e outro...

Jorge Luís Borges,  "O ouro dos tigres" in Obras Completas 1952-1972. Lisboa: Teorema, 1998, p. 517.


15/11/2014

A Biblioteca de Babel

A Biblioteca de Babel                                                            Rembrandt, Titus sentado à secretária, 1655, Museu Boijmans Van Beuningen, de Roterdão,
TitusO universo (a que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercados por parapeitos baixíssimos. De qualquer hexágono vêem-se  os pisos inferiores e superiores: interminavelmente. A distribuição das galerias é invariável. Vinte estantes, a cinco longas estantes por lado cobrem todos os lados menos dois; a sua altura, que é a dos pisos, mal excede  a de um bibliotecário normal. Uma das faces livres dá para um estreito saguão, que vai desembocar noutra galeria, idêntica à primeira de todas.  À esquerda e à direita do saguão há dois gabinetes minúsculos. Um permite dormir de pé; o outro satisfazer as necessidades fecais. Por aí passa a escada em espiral, que se afunda e se eleva a perder de vista. No saguão há um espelho, que fielmente duplica as aparências. Os homens costumam inferir desse espelho que a Biblioteca é infinita (se o fosse realmente, para que servira esta duplicação ilusória?); eu prefiro sonhar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito... A luz provém de umas frutas esféricas que têm o nome de lâmpadas. Há duas em cada hexágono: transversais. A luz que imitem é insuficiente, incessante.
Tal como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, se calhar o catálogo dos catálogos; agora que os meus olhos quase não conseguem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer a poucas léguas do hexágono em que nasci.
(...)

Jorge Luís Borges, "Ficções" in Obras Completas, 1923-1949, Vol. I. Lisboa: Teorema, 1998, p. 483.

Detalhe de Melancolia de Albrecht Dürer (aqui de novo) Imagem daqui

Tal como Titus olho embevecida,
as infinitas estantes contidas
em pequenos hexágonos.
Poliedros?
Vida 
em pequenos hexágonos
poligonais... 
procuro o livro sublime,
o Livro dos livros.

[Em diálogo com Jorge Luís Borges, notas do dia].


11/11/2014

a terra, a água, o fogo, o ar.

Em dia de S. Martinho, lume, castanhas e vinho. 
 [Em dia de S. Martinho poesia, castanhas e vinho.]
Salamanca

ANVERSO

Dormias. Eu acordo-te.
A manhã imensa oferece-nos a ilusão de um princípio.
Esqueceras-te de Virgílio. Aqui estão os hexâmetros.
Trago-te muitas coisas.
As quatro raízes dos Gregos: a terra, a água, o fogo, o ar.
Um só nome de mulher.
A amizade da lua.
As claras cores do atlas.
O esquecimento, que purifica.
A memória que escolhe e redescobre.
O hábito, que nos ajuda a sentir que somos imortais.
A esfera e as agulhas que dividem o intangível tempo.
A fragrância do sândalo.
As dúvidas a que chamamos, não sem alguma vaidade, metafísica.
A curva do bastão que a tua mão guarda.
O sabor das uvas e do mel.

Jorge Luís Borges, "A Cifra (1981) "in Obras Completas III1975-1985, Lisboa: Editorial Teorema, p.333

Mamma, quel vino è generoso...

18/09/2012

"A sombra que se alonga"

Caravaggio, Judite, detalhe, Judite (Judite e Holofornes), Galleria Nazionale d'Arte Antica at Palazzo Barberini, Rome


Sob a lua
a sombra que se alonga
é uma só.

Jorge Luis Borges (cortesia do google)

Una furtiva lagrima, último ato de Elisir d'Amore
 

28/11/2011

O caos nos livros

Cá em casa instalou-se o caos nos livros. Uns estão em pé, outros deitados, uns à vista, outros escondidos, não têm espaço para respirar!


Choram lamurientos porque não têm o lugar que merecem.

As estantes do outro lado sofrem do mesmo mal.


Alguns Tintins estão no chão a aguardar um espaço livre. Disse para mim que isto não pode continuar. Até 31 de Dezembro embora o tempo seja um dilema vou tratar dos meus/nossos livros. (A rolha é da minha gata)




O Livro


Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza.



Jorge Juís Borges, Obras Completas, 1975-1988, Vol. IV, "O Livro", Teorema, 1999, p. 171


Esta decisão foi tomada quando quis guardar um livrinho e encontrei outro com cinco peças Isabelinas: Five Elizabethan Tragedies, impresso em 1950 pela University Press, Oxford. Adquiri este livro num alfarrabista em Portobello Road quando visitei Londres. Estava perdido no meio de outros...

Uma imagem da obra impressa em 1560

09/11/2011

"Os meus Livros"

"Os meus livros (que não sabem que existo)" levaram-me até Roma, Álbum Artistico.


Um livro que adquiri na Livraria Lumière


Biblioteca do Vaticano, um lugar de sonho


Roma - Álbum artístico, Milano, Edizione e Stampa C. Capello, S/d. Magnificamente ilustrado com 132 tavole. In-oblongo.




Os Meus Livros

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

Jorge Luis Borges, Obras Completas 1975-1985 in "A Rosa Profunda" (1975), Lisboa, 1998, p.113.

08/11/2011

"Como todos os homens da Biblioteca..."

«Como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha
juventude, peregrinei à procura de um livro e talvez
mesmo em busca do catálogo dos catálogos. »*

Jorge Luís Borges
*Jacques Bonnet, bibliotecas cheias de fantasmas, Lisboa: Quetzal, 2010, p. 127



O silêncio... um bom local para ler um livro

Campus Universitário de Évora





10/09/2011

Congratulemo-nos! Jorge Luís Borges

Sandro Botticelli, detalhe de Flora do quadro Alegoria da Primavera,
c.1485-87.

Galleria degli Uffizi, Florença


O prémio Champalimaud visão 2011, no valor de um milhão de euros, atribuído ao Programa Africano de Controlo da Oncocercose (APOC), é o reconhecimento dado pelos notáveis resultados na prevenção e combate à cegueira dos rios. Esta doença afecta 18 milhões de pessoas.

Para desenvolver mais a notícia ver aqui

Associei esta boa novidade com Jorge Luís Borges que viveu na sombra e cegueira e foi um grande homem de letras e sabedoria.

ELOGIO DA SOMBRA

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.

Jorge Luis Borges, Elogio da sombra, 1969

Tenho os quatro volumes: Obra Completa de Jorge Luís Borges mas neste momento está inacessível por isso agradeço a gentileza do Google.

Gracías a la Vida de Joan Baez é uma canção que gosto mais de ouvir em espanhol. A versão mais actual é interessante. Em especial para a Isabel!

24/08/2010

Em memória de Jorge Luís Borges!

Jorge Luís Borges é um poeta que gosto muito. Nasceu em Buenos Aires a 24 de Agosto de 1899.
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Pintor holandês, século XVII, Vanitas Still life with Terrestrial Globe
Museu de Belas Artes, Budapeste, Hungria


Os Meus Livros

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda" (1981) Obras Completas III, 1975-1985, Lisboa: Teorema, 1989 (Tradução de Fernando Pinto do Amaral), p.113.

Astor Piazzolla y su Quinteto Tango Nuevo - Adios Nonino


06/08/2010

Vinheta 9 - Memorial do Holocausto

Os Justos não são vencedores mas a sua verdade é !

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O Memorial do Holocausto é uma belíssima escultura que encontrei em Budapeste. É composta por um salgueiro-chorão onde cada folha tem inscrito um nome. A beleza da peça é maior se pensarmos que o choro representa a desumanidade das políticas anti-semitas e do genocídio praticado.



Imre Varga, Memorial do Holcausto, 1991, Budapeste, Hungria.




A escultura foi criada por Imre Varga em memória dos 600 000 judeus húngaros mortos pelos nazis na II Guerra Mundial. Foi inaugurada em 1991 e foi subsidiada em parte pelo actor Tony Curtis.

A escultura encontra-se no pátio da Grande Sinagoga construída em estilo bizantino-mourisco pelo arquitecto vienense Ludwig Förster, entre 1854-1859.


Os Justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

Jorge Luis Borges, in "A Cifra" (1981) Obras Completas III, 1975-1985, Lisboa: Teorema, 1989 (Tradução de Fernando Pinto do Amaral), p.340.

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