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19/05/2017

Silêncio - Um olhar sobre a montanha

Ao fundo a montanha.

Silêncio

Folhas de acanto, banco de namorados, nostalgia soalheira...
canto primeiro donde reconheceu a cegueira  
dando lugar ao arrependimento.

Pedra  simbólica, conta a história
pelas mãos da arquitecta,
incauta pensadora.

Vertigens, desequilíbrios, 
um gosto atractivo pelo abismo.
Mergulho simbólico no vazio
à procura de uma resposta: silêncio secular.

ana



06/05/2017

Bizarro mas com harmonia

Como é possível tirar harmonia deste instrumento bizarro?



A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos.

A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis.
O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.
O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.
Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.
Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.

s.d.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Vol II."Fase confessional", segundo António Quadros (org.) Mem Martins: Europa-América, 1986.



27/02/2016

A união faz a força

A União faz a Força!

Esopo,  trecho da fábula O feixe de varas


Simbiose - as diferenças podem fundir-se.

20/06/2014

Aprazíveis Diálogos - IV

Localizada ainda no Centro do país, mais propriamente entre os rios Lis e Lena, houve um pássaro que me trouxe uma história da parte do Agostinho do blogue o Mundo é Grande.
A história foi recolhida em Guimarães e o Agostinho recriou-a notavelmente através da sua escrita. 
O retrato do que se vai ler bem podia passar-se no presente com a fome que, infelizmente, grassa no nosso país.
Muito obrigada.
Uma voltinha de avião

A ceia lá em casa era servida pela matriarca já a noite ia adiantada.
Essa hora tardia não tinha a ver com desleixo ou preguiça na preparação da refeição mas com a necessidade de acorrer a mil e um afazeres, que a ocupavam nas duas ou três horas depois do trabalho diário normal na fábrica, arrastando as lides culinárias para horas mais tardias.
Os salários do pai e da mãe juntos não eram nada que se visse e, para sustentar a vasta prole, era necessário usar engenho e arte para administrar e fazer durar o pouco dinheiro que entrava em casa. Por isso, era necessário complementar os proventos com mais trabalho esforçado no lameiro, para que houvesse batatas e couves na panela, apanhar ervas para os coelhos, engordar o porco, e um sem número de coisas pequenas mas indispensáveis à sobrevivência do clã. Depois da ceia, acomodados os meninos, ainda havia um ror de aconchegos domésticos a fazer mas, paciência, houvesse saúde e tudo se resolvia.
Enquanto a mãe ia preparando a refeição, os pequenos davam largas às traquinices próprias da idade, percorriam a casa num tropel constante. Na galhofa, por entre gritos e risos era uma festa. Também havia algumas zangas e choros pelo meio, ultrapassados rapidamente porque, na verdade, não havia tempo a perder. De nada adiantavam choraminguices ou queixas porque delas, muitas das vezes, não resultava nada mais senão um puxão de orelhas ou um tabefe subsequente ao julgamento sumário, inevitavelmente, quando havia recurso à instância mais elevada da hierarquia, a mãe ou o pai, nos conflitos mais bicudos de dirimir.
É claro que a ementa não era muito elaborada ou complicada, por via da falta de tempo e, sobretudo, pela escassez que havia na intendência, de modo que, umas papas de farinha de milho, cozidas com feijão vermelho, apareciam, em três tempos, a fumegar nos pratos na larga mesa da cozinha. À ordem “meninos para a mesa já”, as brincadeiras cessavam como se de uma ordem militar se tratasse, dada pelo comandante do batalhão no campo de batalha; os soldados, de pronto, respondiam precipitando-se para a mesa num ápice, cada um no seu devido lugar.
Apesar do exemplo do pai, que começava a comer de imediato, pois o apetite era mais que muito depois de tantas horas de trabalho, primeiro na fábrica e depois na courela que enchia o panelão familiar, havia sempre alguém, de entre os mais novos, que refilava e fungava recusando a paparoca, ou usando a manha de se fingir adormecido para conquistar a tolerância paterna. Não ganhava pela demora. Por mais refinada que fosse a estratégia, por mais elevada que fosse a representação empregue na rebelião, a decisão do pai não se fazia esperar.
- Comes ou vais dar uma volta de avião?
Perante a recusa de levar as papas à boca, o senhor Santos levantava-se do seu lugar, pegava no rebelde pelos braços, saía para o alpendre da casa, baixava-o até ao chão do pátio e, por mais que esperneasse, mergulhava o filhote no escuro da noite.
Perante isto, o petiz, cheio de miufa, tratava de subir logo pelo escadório, fugindo à escuridão da rua, sentava-se à mesa e começava de imediato a comer, sem mais delongas. A voltinha de avião abrira-lhe, como que por magia, o apetite.

Fim
2011
Agostinho

Dos Miseráveis a excelsa música dos oprimidos. 

27/09/2012

Música Italiana dos anos 60 II - Bobby Solo

Mais uma canção que se ouvia em casa dos meus pais: Una Lacrima sul viso. 
Bobby Solo (Roberto Satti) estreou-se no Festival de Sanremo com a canção Una Lacrima sul viso. Era conhecido como o Elvis italiano. Roberto Satti nasceu em Roma em 1945.

Bobby Solo daqui

Nunca vi o filme em que a canção é protagonista (1964), apenas sei que foi realizado por Ettore Maria Fizarrote, o mesmo realizador de "Non son degno de ti" (1965).


Letra retirada daqui

Da una lacrima sul viso
Ho capito molte cose
Dopo tanti, tanti mesi ora so
Cosa sono per te

Uno sguardo ed un sorriso
M'han svelato il tuo segreto
Che sei stata innamorata di me
Ed ancora lo sei

Non ho mai capito
Non sapevo che
Che tu, che tu
Tu mi amavi ma
Come me
Non trovavi mai
Il coraggio di dirlo, ma poi...

Quella lacrima sul viso
É un miracolo d'amore
Che si avvera in questo istante per me
E non amo che te

Non ho mai capito
Non sapevo che
Che tu, che tu
Tu mi amavi ma
Come me
Non trovavi mai
Il coraggio di dirlo, ma poi...

Quella lacrima sul viso
È un miracolo d'amore
Che si avvera in questo istante per me
E non amo che te che te che te.

25/08/2012

"A música é celeste..."

"A música é celeste, de natureza divina e de tal beleza que encanta a alma e a eleva acima da sua condição."
Aristóteles
(Retirado do Citador)

Na Casa da Música do Porto, obra do arquiteto Rem Koolhaas. 
Em companhia da Cláudia visitei este magnífico espaço. 
Trouxe livros e sorrisos amigos. Foi um dia em que apareceu a chuva mas não se sentiu. 
Obrigada Cláudia e Alexandra. :)
Casa da Música, Porto

Uma das perspetivas do poliedro de pedra, cimento, vidro, aço e madeira.


A sala Cor-de-Laranja

A Sala dos Azulejos, réplicas  (Viúva Lamego), destaque para o vidro duplo

A ex libris - sala com 1400 lugares, um open space com uma excelente acústica
Palco
Sala Roxa
Sala verde ou dos bicos

14/09/2011

Dádiva, um poema polaco!

Uma dádiva que chegou da Isabel do blog Palavras Daqui e Dali. Obrigada! :)

Dádiva

Um dia feliz.
O nevoeiro levantou cedo, eu trabalhava no jardim.
Os beija-flores pairavam sobre a madressilva.
Não havia na terra coisa que eu quisesse ter.
Não conhecia ninguém digno da minha inveja.
O que houvera de mal, já tinha esquecido.
Não tinha vergonha de me lembrar que tinha sido quem fôra.
No meu corpo nada doía.
Endireitando as costas, via as velas e o mar azul.

(Onde o sol nasce e onde se põe), 1974

Czeslaw Mitosz e Wiskawa Szymborska, Alguns Gostam de poesia, Antologia, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2004 (trad. do polaco e selecção de Elzbieta Milewska e Sérgio Neves) p. 69

Martin Johnson Heade, Flores da Paixão com beija-flores, 1875-85, Óleo sobre tela.

Wilco uma banda de Rock alternativo de Chicago, Illinois.

04/09/2011

Toledo a cidade das três culturas - 3, A comunhão entre três religiões

Para terminar este périplo pelas três culturas falta só falar na presença mourisca que é visível pela cidade na arquitectura e no artesanato.


Toledo foi conquistada pelos mouros que invadiram a Península Ibérica no século VIII. A cidade conheceu prosperidade sob o domínio do califado de Córdova, foi nesta época que foi construída a mesquita. Após o desmembramento do califado tornou-se a capital da taifa de Toledo (ou reino de Toledo), em 1035. Com profundas raízes mouriscas a cidade mostra-nos a riqueza deixada pelo povo, possivelmente de origem berbere, que atravessou o Estreito de Gibraltar e venceu os visigodos.


Pormenor do monumento Cristo de La Luz - Mesquita do século X,
posteriormente convertida em igreja




Fontanário no meio do jardim


outro ponto de água

Mesquita del Cristo de La Luz


Interior da mesquita





Perspectiva do tecto







Uma representação de Cristo, já em parte desaparecida, a mostrar a reconversão da mesquita em igreja.




Mezquita del Cristo de la Luz
«El edificio original es de planta casi cuadrada de época califal. Su estado de conservación es prácticamente íntegro y constituye, por su originalidad, la más importante muestra del arte islámico en Toledo.
Se levantó en el año 999 por el arquitecto Musa ibn Alí, según reza una inscripción en caracteres cúficos en la fachada principal. Interiormente las naves se compartimentan en nueve espacios cubiertos con bóvedas nervadas, todas diferentes, gracias a cuatro columnas exentas con capiteles visigóticos sobre las que voltean doce arcos de herradura.
En el siglo XII se le añadió una cabecera románico-mudéjar, formada por un ábside semicircular y presbiterio recto, y decorada interiormente con frescos románicos, para adaptarla al culto cristiano. Exteriormente se decora con arquerías ciegas de herradura, siendo el acceso compuesto de tres puertas con tres arcos diferentes: polilobulado, de medio punto y de herradura.» daqui (turismo espanhol)





Para que as religiões se unam e não se digladiem, leiam os seguidores os seus livros sagrados e não transformem as três religiões que encontrei nesta cidade católica, Toledo, em interesses económicos e em poder: Pido a Diós.



03/09/2011

Toledo a cidade das três culturas - 2, Selección de Perlas

Toledo é uma cidade peculiar por se vivenciar uma miscelânea cultural. Da cultura cristã passo para a cultura judaica /hebraica.
Se é histórico que os judeus foram perseguidos e expulsos também é que a sua presença na Península Ibérica, e em particular em Toledo, foi muito importante quer economicamente quer culturalmente. A visita à sinagoga que alberga um museu foi uma experiência gratificante.

Sinagoga Samuel Ha Leví o del Tránsito que após a expulsão dos judeus, em 1492, foi transformada em igreja.


Trecho fotografado do Guia de Toledo ... su Arte, ...su Historia, Toledo, p. 27

"Sinagoga Samuel Ha-Leví, construida en la segunda mitad del siglo XIV, de estilo gótico-mudéjar, por Samuel Ha-Leví, el tesorero del rey Pedro I, el Cruel.
Encierra hoy el Museo Sefardí, debajo del cual se encuentra uno de los baños del barrio de Hamanzeite". (Retirado do link indicado).

Vista do pátio interior do museu e Sinagoga

Livro com uma belíssima iluminura.

Escultura de Martina Lasry: Simbologia das las Letras Hebreas, século XX.



Peça do traje de casamento Sefardita.


Detalhe da escultura de Rosa Hidalgo, Samuel (Shmuel) Ben Meir Ha-Levi , Donado por Eprycon, S.L. a la ciudad de Toledo, 2002,

«Samuel ha-Leví Abulafia funcionario público, Oidor de la Audiencia y Tesorero Real del Rey Pedro I de Castilla.
La notable influencia y el rápido crecimiento de la riqueza de Samuel Levi, hicieron que el tesorero obtuviera el permiso del rey para construir otra sinagoga (a pesar de la prohibición de crear nuevas sinagogas), conocida hoy como "El Tránsito", y erigió así un magnífico monumento en el que no faltaban inscripciones en hebreo como agradecimiento al rey.
Samuel ha-Leví murió en 1360 tras perder a causa del propio rey la influencia que hasta entonces tenía».

Samuel Levi é representado com a Torah.



Local onde ficava guardada a Torah



Ponteiro para ler a Torah e rolo para pousar os braços.



Menorah, o castiçal de 7 braços.


Vista do tecto da Sinagoga
Na livraria do museu comprei um livro maravilhoso: S. Lomó Ibn Gabirol Selección de Perlas, Mibhar Ha-P. Nînîm (Máximas morales, sentencias e historietas) da Biblioteca Nueva Sefarad, Barcelona: Amelier Editor, 1977.

(p. 59)



Música Sefardita

31/08/2011

Toledo a cidade das três culturas -1

O caderninho com o roteiro da viagem foi feito por mim. O desenho é de MJ Falcão.


Mapa retirado da net do site do turismo de Toledo. Agradeço também a MR que me deu umas dicas para melhor aproveitar a cidade.



Toledo, a cidade das três culturas: cristã, judaica e muçulmana.


Neste périplo por terras de Espanha destaco primeiro o pintor que me levou até Toledo: Doménikos Theotokópoulos, El Greco como ficou mais conhecido. A sua origem é grega, nasceu em Fodele, Iráclio em 1541. Viveu em Veneza, em Roma e em Toledo, convidado por Filipe II, cidade onde viria a falecer.



Casa El Greco, Toledo, Espanha



«Documentalmente se sabe que El Greco residió en el abandonado palacio del Marquês de Villena, duque de Escalona, situado en lo que hoy es Paseo del Tránsito y casas colidantes.
Lo que románticamente llamamos Casa de El Greco, eran los palacios de Samuel Leví, tesorero del Rey D. Pedro y que passaran después a manos de la Duquesa "vieja" D. Aldonza
Mendonza, duquesa de Arjona.
A principio de siglo, el Marqués de la Vega-Inclán, con el sano proposito de retener la memoria del Greco, y admirar a sua obra acondiciona el viejo caserón para instalar sus cuadros, ideando una réplica de lo que podía haber sido la mansión del pintor, creando uma atmosfera fiel, con muebles de época.»



Toledo, ... su Arte, ... su Historia, texto de Rufino Miranda, Toledo, 2008 (Guia turístico).

Apesar de algumas incertezas, o espaço guarda memórias do pintor, poderá não ter sido a sua casa mas sente-se a sua presença através das telas expostas. Começo assim, a visita pela cultura cristã sob o olhar de El Greco.



No pátio observa-se um pote, um artefacto que gosto muito.


Detalhe do pátio.



Nesta sala estão expostas telas de El Greco que representam os Apóstolos. Também existem cópias de quadros feitas pelos púpilos do pintor.



Acesso a outra sala.
Num dos corredores da casa existe uma parede repleta com projecções de telas famosas de El Greco que vão surgindo e nos interpelam.


El Greco: afirmava:



"Acredito que a reprodução da cor é a maior dificuldade da arte."



El Greco (notas do pintor, num dos seus comentários)
Marias-Bustamante, Las Ideas Artísticas de El Greco, 80, wikipedia




Estou inteiramente de acordo com a ideia do pintor, a cor deve ser o problema mais desafiador.



Na Casa de El Greco há um quadro que reteve o meu interesse: o retrato de São Judas Tadeu por causa do seu olhar e da sua expressão. É um retrato com alma.
No meu entender este pintor estava um passo à frente dos seus contemporâneos. No entanto, há quem diga que o traço e a cor dele correspondiam a um pintor menor.


El Greco, São Judas Tadeo, c. 1608-1614




A suposta biblioteca de El Greco. Um espólio rico para a época.



29/08/2011

Recuerdos com cheiro a maresia

Para agradecer a todos trago o azul do mar pontuado por algumas nuvens.

Os ponteiros do relógio em férias andam mais lentamente... embora os dias teimem em passar. Regressamos à infância, às ondas do mar, aos mergulhos, à areia que foge dos dedos, ao som profundo do mar.

Alicante, Castelo de Santa Bárbara, Espanha
Há sempre um tesouro e um barco perdido com a vela desfraldada...


Procuramos o tesouro todos os dias, do primeiro ao último mergulho.


No fundo do mar não o encontramos.
Visitamos as memórias,
as muralhas.
Ao longe avista-se o mar. Lava-se a alma. O tesouro está na procura...

Abrem-se as ostras mas elas são estéreis. Então ficam os sonhos para o ano que vem!



Obrigada a todos pela companhia e pela partilha. :)))


Conheci Joaquín Pascual, um baladeiro, por andar por esta praia.

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