Pintar a vida é o que todos fazemos desde a aurora até ao ocaso. A vida é como o fio de Ariadne vai-se desenrolando... só que o da princesa tinha um propósito de ordem. O fio que tecemos nem sempre obedece à nossa vontade, não é ordem - é acaso. A tela de Ferenczy levou-me até aos pincéis que estavam arrumadinhos, peguei num, follheei o Livro do Desassossego e parei no texto escolhido!
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Károly Ferenczy (nasceu na Áustria e morreu em Budapeste) , A pintora, 1903
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Óleo sobre tela , 136 x 129,5 cm, Galeria Nacional Hungara, Buda, Hungria
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A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.
Isto não vem a propósito de nada.
Isto não vem a propósito de nada.
27-6-1930
Bernardo Soares, Livro do Desassossego por .Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982, p. 132.