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05/08/2013

Leituras de Verão - Manuel Cintra

Nas férias, junto ao mar, os dias são maravilhosamente mais lentos...
Na praia... contemplando o mar e concentrando-me nas letras, palavras, poesia de escrita portuguesa. 

Em terra, longe do mar, após tarefas quotidianas: limpezas e afins, a lembrança de como a poesia nos pode deslumbrar.

Desenho de Mário Botas para o livro de poesia de Manuel Cintra, Dentada de Pássaro.



CAI-ME com estrondo na pele a solidão dos astros.
Estrondo completo, inteiro, sem entrelinhas.

Fico de corpo rebentado, recebendo o silêncio após colocar
pés sobre minas de guerra, minas de vida, esquecidas
por estes caminhos cerzidos no caminho abrupto do céu.
estão todas as veias escancaradas, feitas nascentes, e borbota
o sangue dirigindo-se em jorro ao traço que o céu
come na terra. Onde me encontro com o vazio redondo,
cheio de lágrimas, vento e mim.

Neste peito lento és uma gruta quente, perfurando-me do
coração ao sexo em marés regulares. Reconheço-te na
palma antiga da mesma mão, a tua agora atirada em fantasma
para esta praia de tempo onde vim saudar grãos,
um por um. Bebo, como um adolescente, o ar agonizante
do verão, carregando-me o peito de outono e de carne.

E espalmo-te com minúcia no rebordo dos meus lábios.
De todos os meus lábios.

Até me tornar boca.

Manuel Cintra, Dentada de Pássaro. Lisboa: edição do autor, distribuição etc, com vinheta da capa e "hors-texte" de Mário Botas (700 exemplares), p. 5.

18/03/2011

"O futuro do homem é o homem",

Nas minhas divagações sobre a essência da humanidade: Quem somos? Para onde vamos? O que queremos?, cheguei a este trecho de Eugénio de Andrade.
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Mário Botas, Eugénio de Andrade, 1980.

Tinta da china

Poética
Texto ou Antologia para Prosa

"O futuro do homem é o homem", estamos de acordo. Mas o homem do nosso futuro não nos interessa desfigurado. Este animal triste que nos habita há milhares de anos, cujas possibilidades estamos tão longe de conhecer, é o fruto de uma desfiguração - acção de uma cultura mais interessada em ocultar ao homem o seu rosto do que em trazê-lo, belo e tenebroso, à luz limpa do dia. É contra a ausência do homem no homem que a palavra do poeta se insurge, é contra esta amputação no corpo vivo da vida que o poeta se rebela. E se ousa "cantar no suplício" é porque não quer morrer sem se olhar nos seus próprios olhos, e reconhecer-se, e detestar-se, ou amar-se, se for caso disso, no que não creio. De Homero a S. João da Cruz, de Virgílio a Alexandre Blok, de Li Bay a William Blake, de Bashô a Kavafis, a ambição maior do fazer poético foi sempre a mesma: Ecce Homo, parece dizer cada poema.
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Eugénio de Andrade,in " Afluentes do Silêncio", Editorial Inova Limitada, Dezembro 1970, trecho retirado da Fundação Eugénio de Andrade


26/04/2009

Mário Botas: "Histórias do Condado Portucalense"

Gosto imenso desta aguarela de Mário Botas porque ela povoa todos os sonhos que se têm de lugares "longe da multidão", de histórias de princesas e príncipes da infância.
Gosto do lugar que ocupa o sol e dos dois ciprestes do lado direito que abanam com o vento mas estão bem assentes na terra-mãe. Aprecio a melancolia que emana das cores pasteis. Esta aguarela foi pintada 2 anos antes de Mário Botas falecer, já bastante doente.
“Histórias do Condado Portucalense (2)”,
Mário Botas, 1981; Tinta-da-china e aguarela s/papel, Dimensões Desconhecidas
Mário Botas nasceu na Nazaré em 1952 e foi, em 1970, para Lisboa para tirar o curso de medicina. Em 1973 conheceu, na Galeria de S. Mamede, o surrealista Cruzeiro Seixas e, por intermédio dele, o poeta Mário Cesariny e outros pintores, como Paula Rego e Raúl Perez. Mais tarde, apesar de reconhecer a importância que teve para ele o surrealismo, justifica a sua posterior desilusão:
Há precisamente treze anos (1970) lia eu, encantado, Le Pás perdus de André Breton. Seguiram-se-lhe Éluard, Artaud, Prévert, Lautréamont, Rimbaud… durante esse ano e os que lhe seguiram fui lendo e relendo o arsenal surrealista. Por outro lado conheci alguns velhos surrealistas portugueses que me iam demonstrando, através de infindáveis intrigas de salão, que um movimento intelectual tem um tempo e uma dinâmica próprios e inclui no seu interior a autodesintegração, matéria afinal da mais elementar higiene… Querer ressuscitar nos anos 70 um surrealismo em terceiras núpcias é acenar a bandeira da conquista nas ruínas de um castelo”.
Mário Botas faleceu em 1983, com uma leucemia que lhe fora diagnosticada em 1977.
Bibliografia / Catálogos:
Mário Botas – Visões Inquietantes, Lisboa, Quetzal, 1999 (catálogo da exposição retrospectiva organizada pelo Centro Cultural de Belém em 1999).
Mário Botas – O Pintor e o Mito, Lisboa, Sá da Costa, 2002 (edição bilingue em português e castelhano).

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