Nas férias, junto ao mar, os dias são maravilhosamente mais lentos...
Na praia... contemplando o mar e concentrando-me nas letras, palavras, poesia de escrita portuguesa.
Em terra, longe do mar, após tarefas quotidianas: limpezas e afins, a lembrança de como a poesia nos pode deslumbrar.
Desenho de Mário Botas para o livro de poesia de Manuel Cintra, Dentada de Pássaro.
CAI-ME com estrondo na pele a solidão dos astros.
Estrondo completo, inteiro, sem entrelinhas.
Fico de corpo rebentado, recebendo o silêncio após colocar
pés sobre minas de guerra, minas de vida, esquecidas
por estes caminhos cerzidos no caminho abrupto do céu.
estão todas as veias escancaradas, feitas nascentes, e borbota
o sangue dirigindo-se em jorro ao traço que o céu
come na terra. Onde me encontro com o vazio redondo,
cheio de lágrimas, vento e mim.
Neste peito lento és uma gruta quente, perfurando-me do
coração ao sexo em marés regulares. Reconheço-te na
palma antiga da mesma mão, a tua agora atirada em fantasma
para esta praia de tempo onde vim saudar grãos,
um por um. Bebo, como um adolescente, o ar agonizante
do verão, carregando-me o peito de outono e de carne.
E espalmo-te com minúcia no rebordo dos meus lábios.
De todos os meus lábios.
Até me tornar boca.
Manuel Cintra, Dentada de Pássaro. Lisboa: edição do autor, distribuição etc, com vinheta da capa e "hors-texte" de Mário Botas (700 exemplares), p. 5.

