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07/10/2017

Sem palavras

Sem palavras, só assim posso dedicar esta postagem à Cláudia, da Livraria Lumière, uma amiga especial de quem me esqueci. Aquela, precisamente, que não queria esquecer. Será possível?

Cláudia é com um beijinho que lhe ofereço estas obras de arte fabulosas que gostaria de poder oferecer na realidade, não hoje mas no dia 6 de Outubro. A si, como é obvio e para selar a nossa amizade, agora com a ferida de um esquecimento imperdoável, teria que lhe dar o coração da amizade.

"Codex Rotundus", c. 1480, escrito em latim e francês,
diâmetro 9 cm, Biblioteca de Hildesheim, Alemanha



Livro de Horas de Amiens, século XV

Livro de Horas com cenas da Natividade e da Ressurreição de Cristo, 
último quartel do século XVI, Copenhaga,  6,1x6,1x2,2 cm,
Pinterest
Prayer-Book with Scenes of the Nativity of Christ and the Resurrection  Last quarter of the 16th century Copenhagen  gold, cut diamonds, rubies, emeralds, paper and gouache Technique: chased, enamelled and painted Dimension: 6,1x6,1x2,2 cm

Livro de horas, Livro das horas ou ainda Livro missal é um livro de devoção criado por devotos no final da Idade Média. Em geral, continha o calendário das festas e dos Santos, as Horas da  Virgem, da Cruz, do Espírito Santo e dos mortos (Liturgia das Horas), as orações comuns e os salmos penitenciais. Estes livros eram ricamente ilustrado com iluminuras.


17/01/2015

Correspondência muito especial

Fernando Pessoa
[Carta a Adolfo Rocha - Jun. 1930]

Meu prezado camarada:
Casa Miguel Torga, Coimbra
Recebi a sua carta que agradeço, e vou procurar expor em frases sem imagens o sentido daquilo que lhe havia escrito. Devo explicar, antes de mais nada, que, tendo tardado já uns dias em agradecer o seu livro, escrevi uma carta rápida, para não demorar mais. Sucede que, quando escrevo rapidamente, isto é, sem ter tempo de desdobrar em razões o que digo, e concisamente, por escrever rapidamente, o que escrevo assume naturalmente uma forma metafórica, e não lógica. Isto lhe explicará a confusão, ou a obscuridade, que necessariamente existiria na minha carta. O que não havia nela era o dogmatismo que parece supor que continha. Nunca sou dogmático, porque o não pode ser quem de dia para dia muda de opinião, e é, por temperamento, instável e flutuante. Vamos, que consigo o caso não foi grave: já me sucedeu pior, com um poeta espanhol — ainda que porventura um pouco por imperfeito conhecimento da língua — o ser o conciso tomado por seco, e o metafórico por irónico.
Em substância, e expondo discursivamente, o ponto de vista que lhe expus é o seguinte:
1) Toda a arte se baseia na sensibilidade, e essencialmente na sensibilidade;

2) A sensibilidade é pessoal e intransmissível;

3) Para se transmitir a outrem o que sentimos, e é isso que na arte buscamos fazer, temos que decompor a sensação, rejeitando nela o que é puramente pessoal, aproveitando nela o que, sem deixar de ser individual, é todavia susceptível de generalidade, portanto, compreensível, não direi já pela inteligência, mas ao menos pela sensibilidade dos outros.
Torga no jardim da casa de Coimbra
4) Este trabalho intelectual tem dois tempos: a) a intelectualização directa e instintiva da sensibilidade, pela qual ela se converte em transmissível (é isto que vulgarmente se chama “inspiração”, quer dizer, o encontrar por instinto as frases e os ritmos que reduzam a sensação à frase intelectual; b) a reflexão crítica sobre essa intelectualização, que sujeita o produto artístico elaborado pela “inspiração” a um processo inteiramente objectivo — construção, ou ordem lógica, ou simplesmente conceito de escola ou corrente.
5) Não há arte intelectual, a não ser, é claro, a arte de raciocinar. Simplesmente, do trabalho de intelectualização, em cuja operação consiste a obra de arte como coisa, não só pensada, mas feita, resultam dois tipos de artista: a) o inspirado ou espontâneo, em quem o reflexo crítico é fraco ou nulo, o que não quer dizer nada quanto ao valor da obra; b) o reflexivo e crítico, que elabora, por necessidade orgânica, o já elaborado.

Dir-lhe-ei, e estou certo que concordará comigo, que nada há mais raro neste mundo que um artista espontâneo — isto é, um homem que intelectualiza a sua sensibilidade só o bastante para ela ser aceitável pela sensibilidade alheia; que não critica o que faz, que não submete o que faz a um conceito exterior de escola ou de moda, ou de “maneira”, não de ser, mas de “dever ser”.

Na sua aplicação ao seu livro, estas considerações tomam para mim a forma seguinte: 1) a sua sensibilidade é boa, e, por natureza, de tipo intelectual; 2) pode, portanto, ser um poeta espontâneo, sem ter que sobreintelectualizar demais ou recorrer a uma atitude reflexiva ou crítica; 3) para isso, porém, convinha-lhe (a meu ver, bem entendido — mas era a minha opinião, que não a de outrem, que lhe dava), ou a) focar num ponto nítido e universalmente transmissível a intelectualização da sensação, ou b) distribuir mais igualmente a intelectualização pela extensão da sensação.

Isto não é, talvez, muito claro; não sei, porém, como o diga melhor. Servir-me-ei de exemplos. Um homem que era, e suponho (embora nada publique, nem talvez escreva) ainda é, o mais curioso espírito crítico português, Manuel António de Almeida, escreveu, em 1912, no “Inquérito Literário” de Boavida Portugal, esta definição da arte moderna: “Uma representação central nítida, em torno da qual bóia todo um nimbo de coisas evocadas.” Isto representa muito bem o que quero indicar como o primeiro processo que lhe sugeri. O segundo seria, servindo-me de uma expressão de igual tipo, “uma representação central vaga, em torno da qual brilham, nítidas, e para lhe destacar o vago, todas as representações secundárias.”

É este, meu Camarada, o desenvolvimento mais claro que, de momento, e para não tardar em responder-lhe, posso fazer do que na minha primeira carta lhe disse translatamente .

Peço-lhe que creia no verdadeiro apreço de ......
6-1930

Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria Literárias. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966, p. 69. Daqui

Obrigada. 

Miguel Torga, 20 anos após o desaparecimento do poeta.

23/09/2013

Outono...

Detalhe, Relógio Consola, Paris. c.1715-1730
Rijksmuseum



O ciclo fecha-se, 
as horas e os dias passam, 
ainda ontem tinha partido o outono 
e hoje eis que chega de novo. 
Os ponteiros ingratos laboram 
na sua rotatividade plena
é a sua razão de ser...
mas será a minha?





As cores de Van Gogh no seu museu, Museumplein, Amesterdão. As cores preparam o outono.



Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.


Miguel Torga, Antologia Poética. Casais de Mem Martins: Círculo de Leitores, 2001.

Bom Outono para todos!

01/06/2013

"Era uma grande estrela de papel"

O olhar rente ao chão: cardos, apesar de picarem podem ser belos



BRINQUEDO

Foi um sonho que eu tive: 
Era uma grande estrela de papel, 
Um cordel 
E um menino de bibe. 

O menino tinha lançado a estrela 
Com ar de quem semeia uma ilusão; 
E a estrela ia subindo, azul e amarela, 
Presa pelo cordel à sua mão. 

Mas tão alto subiu 
Que deixou de ser estrela de papel. 
E o menino, ao vê-la assim, sorriu 
E cortou-lhe o cordel.

 Miguel Torga in Diário, vol. II

16/01/2013

Horas


Livro de Horas

Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!

Miguel Torga, O Outro Livro de Job [cortesia do Google]

 

17/01/2012

Miguel Torga - "Oração"




Aguarela de Manuel Tavares, O Mártir da Cruz, 1958. Colecção Carlos do Carmo.



Retirado do livro de Fernando Tordo e Manuel de Sousa, As Cores da Crucificação, Lisboa: Oro Faber, 2005, p. 170.
Fotografia - Pedro Saraiva

Adolfo Correia da Rocha, Miguel Torga, faleceu a 17 de Janeiro de 1995. A minha homenagem a um homem que passou pelo mundo com a discrição de um gentleman.





Coimbra, 14 de Julho de 1974

ORAÇÃO

Peço-te lucidez, Senhor.
Rogo-te humildemente,
Em nome da terrena condição,
Que me não cegues neste labirinto
De paixões.
Que nele, aos tropeções,
Eu nunca chegue até onde, perdido,
O homem já não pode
Saber até que ponto é consentido
O jugo que sacode.

Miguel Torga, Diário XII, Coimbra, (2ª edição) p. 73.



Agradeço a Cláudia da Livraria Lumière que me recordou o poeta, escritor e ensaísta.

13/11/2011

Um poema

Espinho


UM POEMA

Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...

Miguel Torga, Diário XIII.

02/08/2011

A Palavra, Miguel Torga

Jorge Marinho perpetua Miguel Torga na sua pintura. Retirada daqui.


Adolfo Rocha (Miguel Torga) entre os bichos como o livro que escreveu e porque entendia a sua linguagem. Foi médico, escritor, poeta e ensaísta e sobretudo, uma pessoa humana.
Miguel Torga, desenho a carvão de Isolino Vaz


De Miguel Torga, A Palavra porque as palavras são o código mais importante de um povo.

A Torre da Universidade...


A PALAVRA

Falo da natureza.
E nas minhas palavras vou sentindo
A dureza das pedras,
A frescura das fontes,
O perfume das flores.
Digo, e tenho na voz
O mistério das coisas nomeadas.
Nem preciso de as ver.
Tanto as olhei,
Interroguei,
Analisei
E referi, outrora,
Que nos próprios sinais com que as marquei
As reconheço, agora.

Miguel Torga, S. Martinho da Anta, 13 de Abril de 1965,


Retirado da Casa Fernando Pessoa - Banco de Poesia.


Universidade de Coimbra
Faculdade de Direito



O 7 em especial para o Pedro Coimbra

(fotografia tirada de uma foto antiga do Formidável, exposta no Fórum de Coimbra)



Às memórias!





Ontem li que uma iraniana, Ameneh Bahrami, desfigurada e cega com ácido por recusar um pretendente perdoou o seu agressor da pena de talião que fora pedida por ela. A nobreza de sentimentos ressaltou e a palavra foi mais importante do que os actos. A isto chamo civilidade.


Não pude deixar de relacionar o poema de Miguel Torga com esta atitude. O mundo dos homens é feito com palavras, pena que às vezes elas sejam desprovidas de humanidade!


Este vídeo tem umas fotografias bonitas de Coimbra, de uma Coimbra que ainda existe e de outra que já não existe. Pedro enjoy.

12/06/2011

Se as pedras falassem...

Se as pedras falassem ouviriamos o canto das monjas de Santa Clara.

Um passeio entre a luz e a sombra.

Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, Coimbra


números e classificação


elos?




O arco ogival em frente às colunas



Bucólica

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga, (S. Martinho de Anta, 30 de Abril de 1937)


[retirado da net e perdido o link depois do post recuperado]

klaus Nomi

20/03/2010

Agora

AGORA

Abre-te, Primavera!
Tenho um poema à espera
Do teu sorriso.
Um poema indeciso
Entre a coragem e a covardia.
Um poema de lírica alegria
Refreada,
A temer ser tardia
E ser antecipada.

Dantes, nascias
Quando eu te anunciava.
Cantava,
E no meu canto acontecias
Como o tempo depois te confirmava.
Cada verso era a flor que prometias
No futuro sonhado…
Agora, a lei é outra: principias,
E só então eu canto confiado.

Miguel Torga, Diário X, Coimbra, 1995, p. 1030.



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