Mostrar mensagens com a etiqueta Alberto Caeiro (1889 - 1915). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alberto Caeiro (1889 - 1915). Mostrar todas as mensagens

22/12/2022

Chove. É dia de Natal!

  Feliz Natal!

François Boucher - La Lumière du monde (Adoration des bergers), 1750
Museu do Louvre, Paris 
https://collections.louvre.fr/en/ark:/53355/cl010054819


Chove. É dia de Natal.

Chove. É dia de Natal.

Lá para o Norte é melhor:

Há a neve que faz mal.

E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente

Porque é dia de o ficar.

Chove no Natal presente.

Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse

O Natal da convenção,

Quando o corpo me arrefece

Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra

E o Natal a quem o fez,

Pois se escrevo ainda outra quadra

Fico gelado dos pés.

25-12-1930

Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). 

 - 127.

 


Maria Betânia, Alberto Caieiro -Guardador de Rebanhos 

VIII - Num meio-dia de fim de Primavera


31/12/2021

Feliz Ano Novo! Muita gratidão...



Feliz Ano Novo!

Graças mil
a quantos me fizeram chegar estes momentos de alegria.
E
a todos os que me visitam
um ano de 2022 cheio de vida, saúde, graças e beleza!


Aguarelas, presente criado pela minha tia Ivone Mendes

Presentes de amigas/o
MR, Isabel, E.I., Cláudia e Alexandra da Livraria Lumière


Virei mais tarde falar de cada um deles.

A primeira aguarela da minha tia intitulei-a: 
Para além da curva da estrada, o belíssimo poema de Alberto Caieiro que serve para um início de ano...


Para além da curva da estrada

Para além da curva da estrada

Talvez haja um poço, e talvez um castelo,

E talvez apenas a continuação da estrada.

Não sei nem pergunto.

Enquanto vou na estrada antes da curva

Só olho para a estrada antes da curva,

Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.

De nada me serviria estar olhando para outro lado

E para aquilo que não vejo.

Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.

Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.

Se há alguém para além da curva da estrada,

Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.

Essa é que é a estrada para eles.

Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.

Por ora só sabemos que lá não estamos.

Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva

Há a estrada sem curva nenhuma.

s.d.

“Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença,

 

1994.

  - 129.
Que este cenário mude em 2022!
Cortesia Youtube

29/06/2018

Claro/ escuro

Claro/escuro de dentro para fora

(...)

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

(...)



7-11-1915
“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). p. 83.



Larghetto & Andante Molto Ah, ch'infelice sempre Me vuol Dorilla ingrata, Ah sempre piú spietata, Mi stringe à lagrimar. Per me non v'è ristoro Per me non v'è speme. E il fier martoro e le mie pene Solo la morte può consolar. Counter-tenor: Andreas Scholl Ensemble 415 dir.: Chiara Banchini http://www.harmoniamundi.com/home?vie... Painting: Portrait of a Young Girl by Pietro Antonio Rotari

30/09/2017

Janela de vão de escada

Janela de vão de escada


Não basta abrir a janela


Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

4-1923


Alberto Caeiro, “Poemas Inconjuntos”. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993), p.75.

1ª publ. in “Poemas Inconjuntos”. In Athena, nº 5. Lisboa: Fev. 1925.


11/03/2017

Diálogo


Para além da curva da estrada                                                                    No caminho

Para além da curva da estrada                                                       Encontramos sempre uma barreira
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,                                    vislumbro uma torre contra a utopia,
E talvez apenas a continuação da estrada.                                   Na continuação do caminho.
Não sei nem pergunto.                                                                   Nele me embrenho.
Enquanto vou na estrada antes da curva                                      enquanto caminho, só olho em frente
Só olho para a estrada antes da curva,                                         para as árvores e o céu,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.                 Porque não adivinho o que há para lá
De nada me serviria estar olhando para outro lado                      do caminho e que não vejo.
E para aquilo que não vejo.                                                            Procuro não sentir mas sinto,
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.                            O passado/presente e não o futuro
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.                  Clepsidra tangível;
Se há alguém para além da curva da estrada,                                             não encontro quem caminhe
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.      Para lá da montanha,
Essa é que é a estrada para eles.                                                                  o caminho para o cume
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.               Chegarei lá?
Por ora só sabemos que lá não estamos.                                          Só sei e sinto o peso de estar aqui,
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva                  nesta encruzilhada do caminho onde
Há a estrada sem curva nenhuma.                                      as pedras magoam e o caminho desaparece.

Alberto Caeiro, s.d.                                                                                           11-03-17 ana


Alberto Caeiro, “Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994, p. 129.


23/12/2016

Feliz Natal!

A todos um Feliz Natal! 


Numa bola de sabão ...
uns flocos de neve pairam
sob um presépio
que tem uma base barroca: 
 uma caixa de música que canta alegria.


Em re-re-reposição porque gosto muito de ouvir este poema neste dia

18/04/2016

Um Monumento, um sítio a visitar

Homenagear os monumentos e preservar o património é responsabilidade de todos os cidadãos. 

Foco-me no Castelo de Ourém no Dia Internacional dos Monumentos e Sítios porque ele tem tido importância ao longo desta minha viagem.


(...) Se cada homem não é mais  que um complemento de todos os outros, e se torna mais útil e simpático quando assim se apresenta, essa verdade é mais válida ainda quando se trata de descrições de viagens e de viajantes.

Johann Wolfgang Goethe, Viagem a Itália, 1786-1788. ( Tradução, prefácio e notas de João Barrento) Lisboa: Bertrand Editora, 2016, p. 368.

A prosa de Goethe levou-me ao poema de Alberto Caeiro

Para além da curva da estrada

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

s.d.

Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994, p. 129.

Nota Histórico-Artística do site da Direcção Geral do Património Cultural - DGPC

«Localizado numa região correspondente na actualidade ao município de Ourém, o castelo do mesmo nome encontra-se estrategicamente situado no centro do país, na confluência de antigas vias, numa zona dotada de assinalável diversidade de recursos naturais essenciais à sobrevivência e fixação de comunidades humanas, a exemplo dos inúmeros testemunhos arqueológicos identificados até ao momento. 
Conquistada, em definitivo, aos mouros em 1136, Ourém foi doada (1178) por D. Afonso Henriques (1109-1185) a sua filha Infanta Dona Teresa (Matilde), por iniciativa de quem lhe foi conferido foral, constituindo, desde então, parte dos territórios mais importantes das rainhas portuguesas, até que, em 1384, D. João I (1357-1433) a concede, bem como o título de Conde de Ourém, ao Condestável do Reino, D. Nuno Álvares Pereira (1360-1431). 
É em meados do século XV, com D. Afonso, Conde de Ourém e Marquês de Valença, que as muralhas do primitivo castelo são rasgadas para edificação do Paço, até ser destruído quase por completo pelo terramoto de 1755. Entrou, então, num processo de degradação agravado pelas invasões francesas, já no início do século XIX, sendo, no entanto, contemplado no primeiro documento nacional de classificação de estruturas antigas como "monumentos nacionais", datado de 1910, numa confirmação da sua importância histórica, até que, na década de trinta do século passado, foi objecto de obras de restauro e de beneficiação e valorização, estas últimas já nos anos oitenta. 
Destacado na paisagem em local de difícil acesso, no topo do monte sobranceiro à Vila, o castelo, originalmente edificado entre os séculos XII e XIII, foi dotado de um grandioso Paço no tempo de D. Afonso, Marquês de Valença (vide supra), nele imprimindo-se notória influência arquitectónica italiana. 
Desenhando um triângulo, o conjunto que hoje observamos possui corpo central de planta rectangular e dois torreões (torres largas e ameadas) insertos no próprio muralhado de planta poligonal da Vila. Os dois pisos inferiores foram completados com um amplo terraço circundado por balcão com mata-cães sobre arcaria apontada assente em mísulas piramidais. 
[AMartins]»

17/03/2016

Gestos

Nada, a não ser a arte, é mais belo que as flores.

Gestos que apaziguam a alma. 


XXXI - Se às vezes digo que as flores sorriem


Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.

Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa coisa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.

s.d.

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos.  (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993), p. 56.


15/03/2015

"E a única inocência é não pensar..."

Anthony van Dyck, Self Portrait With a Sunflower (after 1633)
Trinity College, Cambridge
Anthonyvandyckselfportrait.jpeg

II - O meu olhar é nítido como um girassol.

II

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

8-3-1914
“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993), p. 24.


24/01/2015

A criança que pensa em fadas

Remédios Varo, Trovador, 1959

María de los Remedios Alicia Rodriga Varo y Uranga nasceu em 1908 em Anglès, Espanha 
e faleceu em 1963 na Cidade do México,  México.


A CRIANÇA QUE PENSA EM FADAS E ACREDITA NAS FADAS

A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.


Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos, Lisboa: Presença, 1994, p. 137.

19/02/2014

Oxigenação

Um passeio ao sol no parque da cidade foi o bastante para oxigenação. 


Após o dilúvio...

O Inverno sereno à espera do manto primaveril

Flores  centenárias (?)

Acácias na sua luminescência profusa

Acácias no leito do rio

Querem uma Luz Melhor que a do Sol!

AH! QUEREM uma luz melhor que a do Sol! 
Querem prados mais verdes do que estes! 
Querem flores mais belas do que estas 
que vejo! 
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me. 
Mas, se acaso me descontentam, 
O que quero é um sol mais sol 
que o Sol, 
O que quero é prados mais prados 
que estes prados, 
O que quero é flores mais estas flores 
que estas flores - 
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!

Alberto Caeiro, in Poemas Inconjuntos (citador)

29/11/2013

Banco Alimentar - "Não basta abrir a janela"

«Em 2003, os bancos alimentares apoiavam 189.152 pessoas, número que subiu para 418.881 em 2012 (+114%), adiantam os dados da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares (FPBA) divulgados à agência Lusa, a propósito de campanha de recolha de alimentos em supermercados, que decorre no próximo fim de semana
 Jornal i

No próximo fim de semana vai haver recolha de alimentos nas grandes superfícies. O ano anterior apesar da crise chegar a todos houve um contributo assinalável. Os portugueses são generosos. Aqui fica a notícia.

Bartolome Esteban Murillo, Thomas of Villanova giving alms to the poors 1678 , 
Museo de Bellas Artes de Sevilha
Thomas of Villanova giving alms to the poors - Bartolome Esteban Murillo

Oswaldo Guayasamin (1919 - 1999) - Manos de Hambre (Hands of Hunger).
Oswaldo Guayasamin (1919 - 1999) - Manos de Hambre (Hands of Hunger).
Click image to view full size.
From the series: ‘Las Manos’ (Hands) in which the painter focused on peoples hands to show different emotions.
De la serie: ‘Las Manos’, en la cual el pintor se centró en la utilización de manos de personas para mostrar diferentes emociones.

Não basta abrir a janela
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
4-1923
Alberto Caeiro “Poemas Inconjuntos” (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
 p. 75.  
1ª publ. in “Poemas Inconjuntos”. In Athena, nº 5. Lisboa: Fev. 1925.

22/03/2013

A Primavera

A Primavera bateu levemente à minha porta.
Deixei-a entrar...
para depositar no meu regaço
pétalas de uma rosa que ainda não nasceu.

[Hino (atrasado) à Primavera e ao Dia da Poesia]

John William Waterhouse, Ofélia, 1894 [Wikimedia Commons]


De Caeiro, o heterónimo predilecto caiu esta pétala:

Pétala dobrada para trás da rosa que outros dizem de veludo. 

 Pétala dobrada para trás da rosa que outros dizem de veludo.

Apanho-te do chão e, de perto, contemplo-te de longe. 

Não há rosas no meu quintal: que vento te trouxe? 
Mas chego de longe de repente. Estive doente um momento. 
Nenhum vento te trouxe agora. Agora estás aqui. 
O que foste não és tu, se não toda a rosa estava aqui. 

12-4-1919
Alberto Caeiro, “Poemas Inconjuntos”. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. p. 115.

De Eugénio de Andrade todas as rosas:

Hoje roubei todas as rosas dos jardins

Hoje roubei todas as rosas dos jardins 
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.

Eugénio de Andrade (cortesia do Google)

23/02/2013

Igreja de Santa Maria da Vitória

Igreja de Santa Maria da Vitória, Mosteiro da Batalha, 
Batalha.


Por vezes o silêncio é de ouro, outras é insuportável.

Hoje de manhã saí muito cedo
Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia por caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre —
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.

Alberto Caeiro. 13-6-1930

Alberto Caieiro, “Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993), p. 100.


01/01/2013

O último minuto recordado


A água chia no púcaro que elevo à boca. 

A água chia no púcaro que elevo à boca. 
«É um som fresco» diz-me quem me dá a bebê-la. 
Sorrio. O som é só um som de chiar. 
Bebo a água sem ouvir nada com a minha garganta. 

29-5-1918  in “Poemas Inconjuntos”.

Fernando Pessoa, Poemas Completos de Alberto Caeiro. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994, p. 144.

2013
Ainda tão novo vive de memórias.

Ontem no início do ano ouvi a versão de Bridge Over Troubled Water na voz de  Elvis

Bom ano e que a ponte seja mais forte que aguente as águas turbulentas!:)

07/11/2012

Rising Sun

À procura do sol nascente.
Passado


Presente
Myra Landau, V [ou as nuvens de Orion]

Ah querem uma luz melhor que a do sol!
Ah querem uma luz melhor que a do sol!
Querem campos mais verdes que estes!
Querem flores mais belas que estas que vejo!
A mim este sol, estes campos, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontento,
O que quero é um sol mais sol que o sol,
O que quero é campos mais campos que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores que estas flores —
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!
Aquela coisa que está ali estava mais ali que ali está!
Sim, choro às vezes o corpo perfeito que não existe.
Mas o corpo perfeito é o corpo mais corpo que pode haver,
E o resto são os sonhos dos homens,
A miopia de quem vê pouco,
E o desejo de estar sentado de quem não sabe estar de pé.
Todo o cristianismo é um sonho de cadeiras.
E como a alma é aquilo que não aparece,
A alma mais perfeita é aquela que não apareça nunca —
A alma que está feita com o corpo
O absoluto corpo das coisas,
A existência absolutamente real sem sombras nem erros
A coincidência exacta (e inteira) de uma coisa consigo mesma.
12-4-1919
“Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. p.- 145. [Arquivo Pessoa]


20/06/2012

Estrada - "Para além da curva da estrada"

Todas as estradas vão dar a Roma

Para além da curva da estrada 

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

 s.d.
Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos, (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994, p. 129.

01/06/2012

"Claras, inúteis e passageiras como a Natureza"

XXV - As bolas de sabão que esta criança 

As bolas de sabão que esta criança                                        Vasco Berardo, s/ título,
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,

Amigas dos olhos como as coisas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.

Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer coisa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

11-3-1914 

Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos”,(Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor) Lisboa: Ática, (10ª ed.)1993, p. 51


Uma contradição difícil de explicar no dia consagrado à criança.
.

29/05/2012

"ser grande"

Obrigada Isabel estas flores são para ti!:)





Como uma criança antes de a ensinarem a ser grande, 
Fui verdadeiro e leal ao que vi e ouvi. 

Alberto Caeiro 

Fernando Pessoa - o menino da sua mãe(coord. Amélia Pinto Pais, ilustrado por Rui Castro), Lisboa: Areal, 2011, p.92

Lendo o que profere Alberto Caeiro não quero "ser grande"..



01/12/2011

Sapatinhos vermelhos

Festejei o 1º de Dezembro, dia da Restauração da Independência, (ano de 1640, fim do domínio filipino em Portugal), como faço sempre a vestir a casa de Natal.



Os sapatinhos vermelhos cantam as memórias de infância: as danças perdidas, a neve caída, o passeio à floresta luxuriante.

Um bibe, um gorro, casacos de fazenda de lã e um cestinho de verga para trazer as pedrinhas brancas que fariam os caminhos, os fetos que se transformariam em palmeiras, o azevinho que daria cor e o musgo que calafetaria o cenário. Tudo para montar o templo onde nasceria o Menino.


Era tudo tão simples, tão exacto: a alegria espontânea, a ânsia da festa que se aproximava e era tudo éfemero de ano para ano.
O Menino fugiu...
***


(...)

Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem

(...)

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

(...)
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?


Alberto Caeiro " O Guardador de Rebanhos", 1914



Onde está esse Menino, por que terras viaja? Porque é que se esqueceu desta Terra cujos rios correm em atropelo?
Continua efémero!


Já colocado há uns tempos mas sempre renovado nesta época do ano.

Arquivo