Mostrar mensagens com a etiqueta Bocage Manuel Maria Barbosa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bocage Manuel Maria Barbosa. Mostrar todas as mensagens

22/03/2017

O pagador de promessas

No dia 21 de Março celebrou-se o dia da poesia. O esquecimento é imperdoável. Porém, nunca é tarde para lembrar a poesia. Hoje, chegou até mim uma frase que achei poética, ouvi que havia quem vivesse de pagar promessas dos outros e, por isso, se chama o pagador de promessas, achei tão poético.

O Pagador de Promessas

O pagador de promessas 
é um homem estranho,
cumpre o que o devedor não pode cumprir.
Paga  o choro interior, a dívida espiritual,
o pacto do homem religioso.
O pagador de promessas
vive para anular a inquietude dos outros.

ana
Agradeço a quem me falou nesta personagem.


O AUTOR AOS SEUS VERSOS

Vós, que de meus extremos sois a história,
Versos, por negro zoilo em vão roubados,
Nascidos da Ternura, e restaurados
Co pronto auxílio de fiel memória:

Da inveja conseguindo alta vitória
Ide, meus versos, em Amor fiados,
Que dele só dependem vossos fados,
Que nele só demando a minha glória:

Não vos importe o público juízo;
Da voz, que pelo mundo se derrama,
Os vivas caprichosos não preciso.

Voai aos olhos, cuja luz me inflama;
Tereis de Anarda aprovador sorriso,
Um sorriso de Anarda é mais que a Fama.

Bocage ( retirado do banco de dados da Casa Fernando Pessoa)


20/02/2015

Laranja+amarelo - rosa



A Rosa

Tu, flor de Vénus,
Corada Rosa,
Leda, fragrante,
Pura, mimosa,

Tu, que envergonhas
As outras flores,
Tens menos graça
Que os meus amores.

Tanto ao diurno
Sol coruscante
Cede a nocturna
Lua inconstante,

Quanto a Marília
Té na pureza
Tu, que és o mimo
Da Natureza.

O buliçoso,
Cândido Amor
Pôs-lhe nas faces
Mais viva cor;

Tu tens agudos
Cruéis espinhos,
Ela suaves
Brandos carinhos;

Tu não percebes
Ternos desejos,
Em vão Favónio
Te dá mil beijos.

Marília bela
Sente, respira,
Meus doces versos
Ouve, e suspira.

A mãe das flores,
A Primavera,
Fica vaidosa
Quando te gera;

Porém Marília
No mago riso
Traz as delícias
Do Paraíso.

Amor que diga
Qual é mais bela,
Qual é mais pura,
Se tu, ou ela;

Que diga Vénus...
Ela aí vem...
Ai! Enganei-me,
Que é o meu bem

Manuel Maria Barbosa du Bocage, in  Cançonetas «Obras Poeticas» de Bocage, Odes Anacreonticas. Livraria Editora, 1910, pp. 30-31. 

http://www.santoandre.sp.gov.br/pesquisa/ebooks/344940.pdf



30/03/2012

"Toldam-se os ares, murcham-se as flores"

Inês de Castro e o eterno amor. Ontem estive com Inês. Lima de Freitas, Inês*




«Toldam-se os ares,
Murcham-se as flores;
Morrei, Amores,
Que Inês morreu.

Mísero esposo,
Desata o pranto,
Que o teu encanto
Já não é teu.

Sua alma pura
Nos Céus se encerra;
Triste da Terra,
Porque a perdeu.

Contra a cruenta
Raiva íerina,
Face divina
Não lhe valeu.

Tem roto o seio
Tesoiro oculto,
Bárbaro insulto
Se lhe atreveu.

De dor e espanto
No carro de oiro
O Númen loiro
Desfaleceu.

Aves sinistras
Aqui piaram
Lobos uivaram,
O chão tremeu.

Toldam-se os ares,
Murcham-se as flores:
Morrei, Amores,
Que Inês morreu.»

Bocage




Lima de Freitas, Até ao fim do Mundo, Pedro e Inês
*Retirado daqui.




Três Canções de Inês compostas por Reinaldo Miranda com poemas de Inês Cavalcanti. Interpretação de Manuelai Camargo; viola Cyro Delvizio

15/09/2010

Bocage - uma faceta.

Hoje recordo Bocage que é um poeta que me encanta e me assusta porque da beleza vai até às verdades nuas e cruas, ao mais intimo e banal acto humano!
x
Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu a 15 de Setembro de 1765, em Setúbal e faleceu a 21 de Dezembro de 1805, em Lisboa. Escolhi este retrato de um pintor que não conhecia.
xx
Detalhe do retrato de Bocage de Francisco Flamengo
Francisco Flamengo (1852-1915), Manuel Maria Barbosa du Bocage
x

Autobiografia

De cerúleo gabão não bem coberto,
passeia em Santarém chuchado moço,
mantido, às vezes, de sucinto almoço,
de ceia casual, jantar incerto;

dos esbrugados peitos quase aberto,
versos impinge por miúde e grosso;
e do que em frase vil chamam caroço,
se o que, é vox clamantis in deserto;

pede às moças ternura, e dão-lhe motes;
que, tendo um coração como estalage,
vão nele acomodando a mil peixotes.

Sabes, leitor, quem sofre tanto ultraje,
cercado de um tropel de franchinotes?
– É o autor do soneto: – é o Bocage.


Bocage, in 'Rimas' (citador)

Poema: De suspirar em vão já fatigado musicado por Neonírico


Arquivo