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22/01/2016

De raiva por sonhar

e se non piangi, di che pianger suoli?
Se disso não,  chorar de que é que sóis?

Dante, Inferno, Canto XXXIII, 42., Dante Alighieri, A Divina Comédia Lisboa: Bertrand, 2006, p.159
(trad. Vasco Graça Moura e ilustr. de Júlio Pomar)

[E se não choras, do que costumas chorar?- outra tradução encontrada, só colocada porque achei a frase bonita, pois Vasco Graça Moura impõe mais segurança.]

Resposta a Dante

De raiva por sonhar
De raiva por construir castelos no ar
De raiva  por ingenuidade.
















04/09/2015

Recanto lá fora

Recanto lá fora

FIGURAS SEM IMAGEM

Ah sim, haver aqui esta dificuldade em não saber
onde fica a saída; ter de bater às portas para ouvir
quem responde, e ninguém a dizer quem é,
ou subir aos vidros da janela para espreitar o outro
lado, e cair da escada. O melhor, dizes, é sentares-te
à mesa de operações, riscar o caderno com a 
matemática do sonho, e fazer a prova até veres
se tudo está certo; depois voltas ao princípio
para te convenceres de que só está certo o que
tem um princípio errado, como a direcção que
seguiste no corredor, e que não emendaste quando
percebeste que, no fim, só um rosto te espreita,
e é o teu. "O meu?", perguntas; sim, esse
que ali deixaste quando o Outono começou a cair,
e não o apanhaste do chão, onde começou a
apodrecer com as folhas; ou esse que procuraste
num espelho em que te disseram que o podias
encontrar, e quando olhaste a imagem passou
para o outro lado, e perdeu-se na transparência
do vidro. Ah, fossem esses todos os problemas!
Não houvesse um espelho no fundo do corredor,
ou tivesse o Outono ficado no céu, de onde nunca
devia ter saído - e a tua vida teria sido outra. Mas
que farias de ti? quantas lembranças irias somar

Nuno Júdice, A Matéria do Poema. Lisboa: Dom Quixote, 2008, p. 131



22/06/2011

Uma janela no Verão

A minha obsessão do azul na obra de Chagall é a fuga do cansaço! É assim que vejo esta janela neste dia de Verão.

Chagall, Interior with Flowers, c.1918. (detalhe)


Tempera on paper mounted on cardboard. 46.5 x 61. Museum-Apartment of Isaak Brodsky, St. Petersburg, Russia




só é meu
o país que trago dentro da alma.
entro nele sem passaporte
como em minha casa.
ele vê a minha tristeza
e a minha solidão.
me acalanta.
me cobre com uma pedra perfumada.
dentro de mim florescem jardins.
minhas flores são inventadas.
as ruas me pertencem
mas não há casas nas ruas.
as casas foram destruídas desde a minha infância.
os seus habitantes vagueiam no espaço
à procura de um lar.
instalam-se em minha alma.
eis por que sorrio
quando mal brilha o meu sol.
ou choro
como uma chuva leve
na noite.
houve tempo em que eu tinha duas cabeças.
houve tempo em que essas duas caras
se cobriam de um orvalho amoroso.
se fundiam como o perfume de uma rosa.
hoje em dia me parece
que até quando recuo
estou avançando
para uma alta portada
atrás da qual se estendem altas muralhas
onde dormem trovões extintos
e relâmpagos partidos.
só é meu
o mundo que trago dentro da alma.

Marc Chagall daqui
(Tradução: Manuel Bandeira)


Uma janela em Serpa onde o azul impera




23/06/2010

Viagem ao passado na terra da música IV!

Simplesmente porque hoje ouvi Summertime no blogue Letras são Papéis e porque já não ouvia há uns tempos esta voz fabulosa!

Janis Joplin - Cry Baby!

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