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12/06/2016

Expressões na pedra

LORELEI

No amor o que se quer é parar o amor. No momento em que mais se ama ou quando não se pode ser amado. “Quero parar aqui”. O tempo mata. O corpo quando se move já está a morrer. A fugir. A passar para outro corpo. “Quero parar-te agora, assim”. O tempo é um movimento dentro das coisas. 
[Introdução.] 

Miguel Esteves Cardoso (texto), Gérard Castello Lopes (fotografia) – “As Lorelei de João Cutileiro”. Porto: Editora, Porto, 1989.
Esculturas de João Cutileiro *


Vê-se na água escura de
onde vem. Vê-se feliz, de
corpo inteiro, em todas as
posições, com todas as
idades, menina mais uma
vez, sorrindo na água-mãe. 

[s/n p.]



O coração não chega para 
o que sente. Desfaz-se 
em lágrimas e parecem-lhe
poucas. O corpo inteiro
é uma lembrança de um
outro que já teve.  

[s/n p.]







Perto dos olhos pára uma
parecença de verdade.
Ninguém tem os olhos
errados.
Olhos de amor são olhos
de quem tem medo de 
morrer. Olhos parados.

[s/n p.]






*As fotografias são minhas, do livro, e não fazem justiça às fotografias de Gérard Castello Lopes.


22/01/2015

Hay una corneta que flota en el cielo


Hay una corneta
que flota en el cielo,
muy lejos del suelo
ligera y coqueta.

Hay una corneta
que imita a una nube:
ya baja, ya sube,
jamás se está quieta.

Hay una corneta
de vivos reflejos:
parecen espejos
buscando una meta.

Hay una corneta,
serpiente de espuma,
que deja a la bruma
de sueños repleta.


Poemas Infantiles  (popular? Publicado por García Teijeiro)


03/10/2014

Melancolia!

Clarice Lispector, A Hora da Estrela, exposição na Fundação Calouste Gulbenkian, 2013


Cada vez mais eu escrevo
com menos palavras. Meu livro
melhor acontecerá quando
eu de todo não escrever.

Clarice Lispector - Esboço para um possível retrato, de Olga Borelli

10/07/2014

Desordem no jardim

Desordem no jardim



A desordem também tem cor e arte: 
é fruto da queda... quando acordamos do sonho.

A arte é um esquivar-se a agir, ou a viver. «A. de C. (?) ou L. do D. (ou outra coisa qualquer)» 

A arte é um esquivar-se a agir, ou a viver. A arte é a expressão intelectual da emoção, distinta da vida, que é a expressão volitiva da emoção. O que não temos, ou não ousamos, ou não conseguimos, podemos possuí-lo em sonho, e é com esse sonho que fazemos arte. Outras vezes a emoção é a tal ponto forte que, embora reduzida a acção, a acção, a que se reduziu, não a satisfaz; com a emoção que sobra, que ficou inexpressa na vida, se forma a obra de arte. Assim, há dois tipos de artista: o que exprime o que não tem e o que exprime o que sobrou do que teve. 

s.d.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego. Vol.II.  (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1990, p. 500.

 

19/12/2013

Em torno de Gaspar Simões

Tive uma boa surpresa quando recebi o catálogo da Livraria Lumière. A escolha da Cláudia Ribeiro para a capa recaiu em João Gaspar Simões, um escritor ligado à Revista Presença criada em 1927, segundo momento do Modernismo em Portugal.

No catálogo saliento as palavras de Manuel Poppe sobre o autor:
«A independência e a capacidade para separar trigo e joio - creio que nenhum dos autores da nossa Literatura desses anos, escapou ao juízo certo de Gaspar Simões - criaram-lhe um exército de inimigos. E tão acérrimo foi ataque ao grande escritor que as suas vítimas quase conseguiram apagar o seu nome e quase o enterraram vivo. 
De facto, quem fala, hoje do exímio ensaísta e ficcionista?»
Manuel Poppe

Deixo aqui o agradecimento a Manuel Poppe que me levou a ler o escritor e do qual li os seguintes títulos: Elói (1932); Pântano (1940) e o Internato (1946).
Agradeço à Cláudia que me arranjou os livros e que me enviou o catálogo que vale a pena consultar pois o elenco de livros é atrativo.

Sobre Fernando Pessoa Gaspar Simões escreveu os seguintes títulos: 
- Vida e Obra de Fernando Pessoa — História duma Geração, Vol. I: Infância e adolescência; Vol. II: Maturidade e morte, 1950
- Fernando Pessoa — Escorço interpretativo da sua vida e obra, 1962, reeditado como Fernando Pessoa, Breve Escorço da sua Vida e Obra, 1983 e segs. 
- Estudos sobre Fernando Pessoa no Brasil (textos de JGS et al.), São Paulo, 1986. 
- Fernando Pessoa — Heteropisicografia, 1973. 
- Fernando Pessoa na Perspectiva da Presença, 1978. 
- Obras Completas de Fernando Pessoa, 4 vols. (com Luís de Montalvor, para a ed. Ática), 1942-1945
(Wikipedia)

João Gaspar Simões em diálogo com Pessoa: 
Apartado 147. 

Lisboa, 18 de Novembro de 1930. 

Meu querido Gaspar Simões: 

Desculpe não ter respondido ainda à sua carta de 7: não queria responder sem lhe enviar os meus folhetos de versos em inglês, e só hoje é que consegui desencan­tar o embrulho onde estavam. Envio-lhos por este correio, sob invólucro separado. 
(...)
Estou com muito interesse em ver o seu estudo na Presença. Basta que o veja aí; não é preciso, como numa outra carta me disse, mandar-mo antes de o publi­car. O título não me alarma nada, sendo certo, porém, que, de per si, não o compreendo definidamente. O es­tudo, contudo, mo explicará. Noto, aliás, que não dá o título como definitivo, mas como provável. Se ele define bem as conclusões do estudo, deve mantê-lo. Tem, com certeza, o dom de interessar. Outra coisa muito diferente. Recebi, no dia 13, na minha caixa postal, uma carta sua (pelo envelope e letra nele) para o António Botto. Contra todos os precedentes, extraviei essa carta. Peço-lhe desculpa disso, e aviso-o, para que possa ter a maçada de escrever de novo. Não expliquei o caso ao António porque há uns quinze dias que o não vejo; a correspondência que vem para ele, para a minha caixa postal – e que pode sempre para ali ir, pois não costumo extraviar as cartas –, deixo-‑lha logo no Café Arcada, onde ele vai frequente­mente, mas a horas a que eu raras vezes posso ir. 

Um grande abraço do seu amigo certo, admirador e obrigado, 
 Fernando Pessoa

 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - ‑Casa da Moeda, 1982), p. 53. Do Arquivo Pessoa

A amizade 

02/11/2013

Bolas de sabão ou "Flores de espuma"


Com flores 
de espuma
é que o mar se perfuma.

Albano Martins, Assim São as Algas, Poesia 1950-2000. Porto: Campo das letras, 2000, p. 256.


05/08/2013

Leituras de Verão - Manuel Cintra

Nas férias, junto ao mar, os dias são maravilhosamente mais lentos...
Na praia... contemplando o mar e concentrando-me nas letras, palavras, poesia de escrita portuguesa. 

Em terra, longe do mar, após tarefas quotidianas: limpezas e afins, a lembrança de como a poesia nos pode deslumbrar.

Desenho de Mário Botas para o livro de poesia de Manuel Cintra, Dentada de Pássaro.



CAI-ME com estrondo na pele a solidão dos astros.
Estrondo completo, inteiro, sem entrelinhas.

Fico de corpo rebentado, recebendo o silêncio após colocar
pés sobre minas de guerra, minas de vida, esquecidas
por estes caminhos cerzidos no caminho abrupto do céu.
estão todas as veias escancaradas, feitas nascentes, e borbota
o sangue dirigindo-se em jorro ao traço que o céu
come na terra. Onde me encontro com o vazio redondo,
cheio de lágrimas, vento e mim.

Neste peito lento és uma gruta quente, perfurando-me do
coração ao sexo em marés regulares. Reconheço-te na
palma antiga da mesma mão, a tua agora atirada em fantasma
para esta praia de tempo onde vim saudar grãos,
um por um. Bebo, como um adolescente, o ar agonizante
do verão, carregando-me o peito de outono e de carne.

E espalmo-te com minúcia no rebordo dos meus lábios.
De todos os meus lábios.

Até me tornar boca.

Manuel Cintra, Dentada de Pássaro. Lisboa: edição do autor, distribuição etc, com vinheta da capa e "hors-texte" de Mário Botas (700 exemplares), p. 5.

17/07/2013

Bailado - Myra Landau

Myra Landau, intitulei Bailado 


Fim de Dia: 

 Cai o sol 
e ainda brilham as asas 
da borboleta

Yvette Centeno daqui


Voilà

voilà, je regarde les autres
pourtant je ne leur trouve rien
c'est comme ça
voilà, je vais avec les autres
le temps passe plus mal que bien
c'est comme ça
et toi, que fais-tu?
es-tu content de tout?

je suis là, devant toi, toujours la même
oh! pourquoi est-ce encore toi que j'aime
que j'aime, que j'aime, que j'aime
tu es là, devant moi, toujours le même
oh! pourquoi ne puis-je pas te dire:
"je t'aime, je t'aime, je t'aime"
voilà, je m'en retourne aux autres
qui m'aiment et que je n'aime pas
c'est comme ça
et toi, vas retrouver cette autre
tu l'aimes ou c'est ce que tu crois
c'est comme ça

voilà, on n'a rien rien de plus à se dire
je suis là, devant toi, toujours la même
tu le vois, c'est encore toi que je t'aime
que j'aime, que j'aime, que j'aime
tu t'en vas et plus rien ne vaut la peine
oh! pourquoi ne puis-je pas crier:
"je t'aime, je t'aime, je t'aime

17/07/2012

Colo de pedra


Detalhe, Escultura do edifício do Museu do Louvre, Palácio do Louvre




Como é extraordinário que o sentir mais intenso não se saiba dizer.

 Vergílio Ferreira, em nome da terra, Lisboa: Bertrand, 2004, p.160.


20/05/2012

Jacques Joseph Tissot, Room with overwiew of de Harbour, c. 1876-78, Colecção privada.



La question (canção de Françoise Hardy)

Je ne sais pas qui tu peux être
Je ne sais pas qui tu espères

Je cherche toujours à te connaître
Et ton silence trouble mon silence

 Je ne sais pas d'où vient le mensonge
Est-ce de ta voix qui se tait

Les mondes où malgré moi je plonge
Sont comme un tunnel qui m'effraie

De ta distance à la mienne
On se perd bien trop souvent

Et chercher à te comprendre
C'est courir après le vent

Je ne sais pas pourquoi je reste
Dans une mer où je me noie

Je ne sais pas pourquoi je reste
Dans un air qui m'étouffera

Tu es le sang de ma blessure
Tu es le feu de ma brûlure
Tu es ma question sans réponse
Mon cri muet et mon silence 

Cedar Lake Contemporary Ballet, New York City,choreography by Benoit-Swan Pouffer

14/05/2012

"Beaucoup de mes amis sont venus des nuages"

Não tenho palavras para descrever o que me ofereceu o filme: Amigos Improváveis de Olivier Nakache e Éric Toledano. Os dois protagonistas, François Cluzet (Philipe, o aristocrata) e Omar Sy (Driss, o marginal) foram simplesmente divinais na interiorização dos seus papéis. 

Jacques Mandelba escreveu no jornal Le Monde:
" ... le film file une métaphore sociale généreuse, qui montre tout l'intérêt de l'association entre la Vieille France paralysée sur ses privilèges et la force vitale de la jeunesse issue de l'immigration".

 

O filme fez-me recordar uma canção de Françoise Hardy:
L'amitié 

Beaucoup de mes amis sont venus des nuages
Avec soleil et pluie comme simples bagages
Ils ont fait la saison des amitiés sincères
La plus belle saison des quatre de la terre

Ils ont cette douceur des plus beaux paysages
Et la fidélité des oiseaux de passage
Dans leurs cœurs est gravée une infinie tendresse
Mais parfois dans leurs yeux se glisse la tristesse

Alors, ils viennent se chauffer chez moi
Et toi aussi tu viendras

Tu pourras repartir au fin fond des nuages
Et de nouveau sourire à bien d'autres visages
Donner autour de toi un peu de ta tendresse
Lorsqu'un autre voudra te cacher sa tristesse

Comme l'on ne sait pas ce que la vie nous donne
Il se peut qu'à mon tour je ne sois plus personne
S'il me reste un ami qui vraiment me comprenne
J'oublierai à la fois mes larmes et mes peines

 Alors, peut-être je viendrai chez toi
Chauffer mon cœur à ton bois

Françoise Hardy (Paroles: Jean-Max Rivière. Musique: Gérard Bourgeois 1965 © 1965 - Disque vogue)

11/04/2012

"interior de uma circunferência".

Noite, da minha janela



Posso mudar. A minha sorte, essa não se altera. Toda a figura pode ser inscrita no interior de uma circunferência.


Marguerite Yourcenar, Fogos, Lisboa: Relógio de Água, 1988, p. 40, (trad. de Manuel Alberto).



Existe uma gravação melhor neste link http://youtu.be/5PK5c6ntpm8 , só pode ser ouvida no youtube

18/02/2011

O sorriso!

Hoje vi este sorriso que quebrou um pouco o meu cansaço. A beleza simples de receber sem ter que dar nada em troca senão outro sorriso.
x
Leonardo da Vinci, Mona Lisa, 1503-1507

Óleo sobre madeira de álamo, 77 cm x 53 cm, Museu do Louvre, Paris


O Sorriso

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade



14/02/2011

Dá Rosas Rosas a Quem Sonha Rosas

Bom dia de S. Valentim!
x
Salvador Dalí, Enigma of the Rose/Death

(Visions Surrealiste/TAROT) 1976

DÁ ROSAS ROSAS A QUEM SONHA ROSAS

Dá rosas, rosas, a quem sonha rosas!
Ou não dês nada, que sonhar é tudo.
As flores naturais e preciosas
São as que eu sonho, transtornado e mudo.

Dá rosas, rosas, só em pensamento,
A quem não tem no mundo mais jardim
Que aquele que há entre o desejo e o intento
E onde haja as rosas que me dás a mim.

Fernando Pessoa, In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

17/02/2010

Message Personnel!

Au bout du téléphone, il y a votre voix
Et il y a des mots que je ne dirai pas
Tous ces mots qui font peur quand ils ne font pas rire
Qui sont dans trop de films, de chansons et de livres
Je voudrais vous les dire
Et je voudrais les vivre
Je ne le ferai pas,
Je veux, je ne peux pas
Je suis seule à crever, et je sais où vous êtes
J'arrive, attendez-moi, nous allons nous connaître
Préparez votre temps, pour vous j'ai tout le mien
Je voudrais arriver, je reste, je me déteste
Je n'arriverai pas,
Je veux, je ne peux pas
Je devrais vous parler,
Je devrais arriver
Ou je devrais dormir
J'ai peur que tu sois sourd
J'ai peur que tu sois lâche
J'ai peur d'être indiscrète
Je ne peux pas vous dire que je t'aime peut-être


Mais si tu crois un jour que tu m'aimes
Ne crois pas que tes souvenirs me gênent
Et cours, cours jusqu'à perdre haleine
Viens me retrouver
Si tu crois un jour que tu m'aimes
Et si ce jour-là tu as de la peine
A trouver où tous ces chemins te mènent
Viens me retrouver
Si le dégoût de la vie vient en toi
Si la paresse de la vie
S'installe en toi
Pense à moi
Pense à moi

Mais si tu crois un jour que tu m'aimes
Ne le considère pas comme un problème
Et cours, cours jusqu'à perdre haleine
Viens me retrouver
Si tu crois un jour que tu m'aimes
N'attends pas un jour, pas une semaine
Car tu ne sais pas où la vie t'emmène
Viens me retrouver
Si le dégoût de la vie vient en toi
Si la paresse de la vie
S'installe en toi
Pense à moi
Pense à moi.

Mais si tu...


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