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08/02/2016

Não fora...

Não fora as minhas flores sorrirem ao sol fugidio, não sentiria o Carnaval. 
Tal como a Colombina de Stuart Carvalhais a lembrar o Carnaval romântico de Veneza, a folia e a tristeza, o amor e a desgraça.
Carnaval o que é?
Um dia de esquecimento, a tragédia final em troca do êxtase fabricado, ...a ilusão, 
das luzes,
das taças de champagne,
dos papelinhos
e serpentinas
             que jazem no chão
                      ao bater a meia noite para
                                   a quarta-feira de cinzas.


Stuart Carvalhais, Capa da Ilustração Portuguesa nº 524, de 6 de Março de 1916 
(Hemeroteca Digital.)



Bom Carnaval!


17/05/2015

Descascando ...

Descascando a cebola, com a arte de interpretar o que vai no íntimo da alma humana, o elo solitário e comum de uma nação e de circunstâncias únicas e inequívocas. Uma curva na estrada, uma viagem constante ao passado, um ajuste de contas... 

Descascando lentamente,
a casca fina, veios que se fragmentam,
na história trágica e humana:
lágrimas... pérolas perdidas.
A verdade, nua e crua, confessa
  a dignidade consumada. 

Assim vejo e sinto o livro de Günter Grass, a quem vi algumas vezes no Centro Cultural de S. Lourenço, em Almancil, no Algarve.
Jacob Collins, Green Onions, Still life, 2004 daqui




A cebola tem muitas camadas. Existem em maioria. Mal é descascada, renova-se. Cortada, provoca lágrimas. Só ao descascá-la fala verdade. (...)

Uma palavra puxa a outra, Sculden e Schuld, dívidas e culpa. Duas palavras tão próximas uma da outra, tão firmemente enraizadas no solo féril da língua alemã, apesar de se conseguir  resolver a primeira, atenuando-a, através de pagamento - nem que seja em prestações, como fazia a clientela da minha mãe que comprava a fiado -, a culpa, porém, tanto a comprovável como a escondida, ou aquela que apenas se suspeita, essa fica. Faz tiquetaque sem parar, e mesmo nas viagens a nenhures lá está  ela no seu lugar, à espera. Recita a sua pequena sentença, não teme repetições, faz-se esquecer,  por longos períodos, magnânima, e hiberna em sonhos. Permanece como sedimento, não pode ser removida como uma mancha, sorvida como uma poça. Aprendeu desde cedo a procurat refúgio, confessada na concha de um ouvido, a tornar-se mais pequena do que pequena, num nada, fazendo-se passar por prescrita ou há muito perdoada, mas está afinal, assim que a cebola desaparece camada, após camada, inscrita nas camadas mais novas: às vezes  com letras maiúsculas, outras como frase subordinada ou nota de rodapé, às vezes é claramente legível, outras ainda aparece em hieróglifos que, quando muito, podem ser decifradas  a custo.

Günter Grass, Descascando a cebola. Autobiografia 1939-1959. Cruz-Quebrada: Casa das Letras, 2007,p. 11 e 33.


"Pagliacci" de Leoncavallo, Placido Domingo, versão do filme de Franco Zeffirelli, 1981.

04/12/2014

Do riso

Frans Hals, vários retratos - o sorriso feminino. Os retratos encontram-se no Google.
O pintor consegue captar divinamente o riso/sorriso.

 “Aqueles que mais se riem por fora mais choram por dentro”. 
Padre António Vieira, in Sónia Salomão, As lágrimas de Heráclito, São Paulo: Editora 34, 2001. 

Portrait of a Woman 1655-60                                                     Isabella Coymans 1650-52


Portrait of a Woman Holding a Fan c. 1640    Isabella Coymans 1650-52

 
Portrait of an old woman in ruff collar, c.1633                 Portrait of a Woman, 1638

Portrait of a woman with approximately forty with entangled hands / Portrait of a Young Woman

  

Catharina Hooft with her Nurse 1619-20                             portrait Sara Andriesch Hessix, 1626








11/02/2013

Pierrot e mimosas

O Carnaval deste ano teve para mim o encontro com estas flores magníficas a que popularmente se chamam mimosas.
Mimosas da Serra da Lousã, as primeiras que vi este ano,




James Ensor, O desepero de Pierrot, também conhecido como Pierrot Ciumento, c.1910
Kroller Muller Museum

Ciumes

Pierrot dorme sobre a relva junto ao lago. Os cisnes junto d'elle passam sêde, não n'o acordem ao beber. Uma andorinha travêssa, linda como todas, avôa brincando rente á relva e beija ao passar o nariz de Pierrot. Elle accorda e a andorinha, fugindo a muito, olha de medo atraz, não venha o Pierrot de zangado persegui-la pelos campos. E a andorinha perdia-se nos montes, mas, porque elle se queda, de nôvo volta em zig-zags travêssos e chilreios de troça. E chilreia de troça, muito alto, por cima d'elle. Pierrot já se adormecia, e a andorinha em descida que faz calafrios pousou-lhe no peito duas ginjas bicadas, e fugiu de nôvo. 
De contente, ergueu-se sorrindo e de joelhos, braços erguidos, seus olhos foram tão longe, tão longe como a andorinha fugida nos montes. 
De repente viu-se cego - os dedos finissimos da Colombina brincavam com elle. Desceu-lhe os dedos aos labios e trocou com beijos o arôma das palmas perfumadas. Depois dependurou-lhe de cada orelha uma ginja, á laia de brincos com joias de carmim. Rolaram-se na relva e uniram as boccas, e já se esqueciam de que as tinham juntas... 
- Sabes? Uma andorinha... 
E foram de enfiada as graças da ave toda paixão. Pierrot contava enthusiasmado, olhando os montes ainda em busca da andorinha, e Colombina torceu o corpo numa dôr calada e tomou-lhe as mãos. 
Havia na relva uma máscara branca de dôr, e a lua tinha nos olhos claros um olhar triste que dizia: Morreu Colombina! 

Almada Negreiros, "Frisos", Revista Orpheu nº1. Lisboa: Edições Ática, 1971, p.71.


Frank Xavier Leyendecker (1876 - 1924),Arlecchino and Columbina,   
New York  em especial para Manuel Poppe [veja o primeiro link]


A eterna ópera, uma das primeiras que ouvi.

19/01/2011

Fiz alguns progressos.

Homenagem a Cézanne:
Fiz alguns progressos. Porquê tão tarde e penosamente?
Seria a arte, de facto, um sacerdócio que exige dos puros
que lhe pertençam inteiramente?
x
Carta de Cézanne a Vollard, 9 de Janeiro de 1903
x
Frank Elgar, Paul Cézanne, Lisboa: Editorial Verbo, 1987, p.211
x
Paul Cézanne, Pierrot and Harlequin, 1888.
Oil on canvas. The Pushkin Museum of Fine Art, Moscow, Russia

Leoncavallo, Pagliacci, Canio Luciano, Pavarotti, Teresa Stratas as Nedda, Juan Pons as Tonio, 1994

09/05/2010

Vesti la Giubba - Placido Domingo!

Vesti La Giubba, da ópera Pagliacci, final do I acto. Compositor: Ruggero Leoncavallo, Plácido Domingo: Tenor



Recitar! Mentre preso dal delirio,
non so più quel che dico,
e quel che faccio!
Eppur è d'uopo, sforzati!
Bah! Sei tu forse un uom?
Tu se' Pagliaccio!

Vesti la giubba,
e la faccia infarina.
La gente paga, e rider vuole qua.
E se Arlecchin t'invola Colombina,
ridi, Pagliaccio, e ognun applaudirà!
Tramuta in lazzi lo spasmo ed il pianto
in una smorfia il singhiozzo e 'l dolor, Ah!

Ridi, Pagliaccio,
sul tuo amore infranto!
Ridi del duol, che t'avvelena il cor!

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