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11/03/2014

Leituras em dia - II, cansaço e outras coisas

Boticelli, A Tragédia de Lucrécia, detalhe,
1496-1504, Isabella Stewart Gardner Museum, Boston
File:Lucretia detail.jpg

Os dias correm e o cansaço instala-se inesperadamente, contra a corrente.
Não estamos em tempos de cansaço...

- Preferia não o fazer.
- Preferia não o fazer! - repeti eu, como um eco, levantando-me excitado e atravessando o aposento de uma passada. - O que quer dizer? Está louco? Quero que me ajude a conferir esta folha. Tome!- e estendi-lha.
- Preferia não o fazer - repetiu.

Herman Melville, Bartleby. Lisboa: Assírio e Alvim, 2010, p. 27.


Um conto absurdo, no encalço de Kafka, do escritor de Moby Dick.
Obrigada Maria João, já o li há algum tempo.
Às vezes dá vontade de ser como Bartleby.

12/12/2012

12-12-12 com Botticelli

12-12-12
Desejo a todos boa fortuna com Sandro Botticelli

Sandro Botticelli,The Mystical Nativity,c.1500–1501, National Gallery in London.


12 anjos vestidos com a cor da fé, esperança e caridade.

12 = anjos dançam no céu (Zodíaco)
3 = anjos sentados no telhado (Ar, Fogo, Água)
7 = 4 figuras à esquerda e 3 do lado direito (Planetas)
6 = anjos e pessoas (Terra)

David Bowman, Mystical Revelation by Botticelli, daqui


Retirado da wikipedia


16/06/2012

"Deslumbramento"

Sandro Botticelli, Detalhe de Vénus e Marte,  c. 1485, The National Gallery, Londres



Sorri um pouco, sorri. Na perene juventude do teu imaginar. Flor aérea que para sempre te ficou. Lembra devagar o teu sorriso de outrora no teu deslumbramento. E sê feliz. 


 Vergílio Ferreira, Pensar, Lisboa: Bertrand, (7ª edição), 2004, p. 152
.
Alguém se lembra?


Um cover  dos Placebo

10/09/2011

Congratulemo-nos! Jorge Luís Borges

Sandro Botticelli, detalhe de Flora do quadro Alegoria da Primavera,
c.1485-87.

Galleria degli Uffizi, Florença


O prémio Champalimaud visão 2011, no valor de um milhão de euros, atribuído ao Programa Africano de Controlo da Oncocercose (APOC), é o reconhecimento dado pelos notáveis resultados na prevenção e combate à cegueira dos rios. Esta doença afecta 18 milhões de pessoas.

Para desenvolver mais a notícia ver aqui

Associei esta boa novidade com Jorge Luís Borges que viveu na sombra e cegueira e foi um grande homem de letras e sabedoria.

ELOGIO DA SOMBRA

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.

Jorge Luis Borges, Elogio da sombra, 1969

Tenho os quatro volumes: Obra Completa de Jorge Luís Borges mas neste momento está inacessível por isso agradeço a gentileza do Google.

Gracías a la Vida de Joan Baez é uma canção que gosto mais de ouvir em espanhol. A versão mais actual é interessante. Em especial para a Isabel!

28/06/2011

Adão e Eva, de Almada Negreiros a Botticelli?

Almada Negreiros, Adão e Eva, 1936

Museu Abade de Baçal

Adão e Eva, duas personagens que me encantam pela carga simbólica que encerram.

Almada terá bebido a sua inspiração na Vénus de Botticelli?









Sandro Botticelli, detalhe do Nascimento da Vénus, 1482


Galleria degli Uffizi, Florença



«E assim foi que Deus fez o homem e a mulher semelhantes um ao outro, mas de caracteres opostos, antagónicos; de naturezas independentíssimas cada um deles, acérrimos disputadores da igualdade no par, inimigos do sexo alheio mas irresistivelmente atraídos um pelo outro, inseparáveis de verdade, e condenados para sempre à fatalidade da sua única unidade comum.
Por outras palavras, fez Deus do homem e da mulher dois animais selvagens que não podem ser domados isoladamente. Fez o isolamento ainda pior -do que era, tornou a solidão ainda mais amarga do que devia ser e indicou a direcção única da colaboração entre ambos: 1+1=1.
Mas por causa das dúvidas, e não estando completamente seguro dos resultados por causa deles, não fossem eles estragar-lhe a sua obra, (Deus sabe muito bem e que faz), arranjou as coisas de tal maneira que a Humanidade se multiplicasse e continuasse pelos séculos ainda mesmo naqueles casos em que não fosse possível o entendimento entre a mulher e o homem.
Isto é, a direcção única haveria de ser eternamente a mesma, ainda que em toda a História da Humanidade não se fizessem senão disparates.
Tudo o que se está contando passou-se nos primeiros dias do mundo à sombra de uma árvore. E daqui vem porem agora todas as culpas à árvore. Chamam-lhe a árvore do bem e do mal. Pois sim, agora chamem-lhe nomes! É desta maldita mania que temos de pôr sempre a culpa aos outros. E quando, como nesse dia não há mais ninguém a quem se possa pôr as culpas, pomo-Ias ao que está mais à mão, – à árvore!

Mas a verdade do que se passou é a seguinte:

O par... Ah! agora me lembro de como se chamavam os dois: Adão e Eva!»

José de Almada Negreiros, Direcção Única, Lisboa, UP, 1932.
Ler o texto na íntegra.

*Conferência realizada em Lisboa no Teatro Nacional de Almeida Garrett, a convite de Amélia Rey-Colaço, repetida em Coimbra no Salão Nobre da Associação Académica, a convite da revista «Presença» e editada pelas Oficinas Gráficas UP de Lisboa
Julho de 1932.

17/05/2011

"Deixai-me o Êxtase"

Procuro um verso, apenas, para que o deserto se torne próspero, o vazio se ilumine, o cansaço se extinga e os olhos se mantenham abertos.


Sandro Botticelli, Lamentação sobre o Cristo morto, 1490-1492,
detalhe Maria Madalena e o Cristo.



Têmpera sobre painel de madeira, 107 cm x 71 cm, Alte Pinakotheck, Munique, Alemanha

1640

Tirai-me tudo, mas deixai-me o Êxtase

(...)

Emily Dickinson, Poemas e Cartas, Lisboa: Cotovia, 2000, p. 147.

03/02/2011

Perturbação...

Detallhe do Nascimento da Vénus de Sandro Botticelli, 1483


Têmpera sobre tela, 172,5 × 278,5 cm, Galleria degli Uffizi, Florença
x
Li O Milagre de S. Francisco, de Steinbeck, sugestão de leitura dos blogues Sobre o Risco e O Falcão de Jade. O livro teve o condão de me perturbar. Em alguns momentos parece que, no destino traçado, o milagre surge mas onde está afinal o milagre?


Desperta para a vida, Danny, para que os teus amigos vivam de novo!

John Steinbeck, O Milagre de S. Francisco, Lisboa: Editora Livros do Brasil, 2008 p. 195


O livro levou-me a esta canção-poema de Léo Ferré

17/12/2010

Il Silenzio

Sandro Botticelli Nascita di Venere, dettagli (Galleria degli Uffizi)

Il Silenzio

Conosco una città
che ogni giorno s’empie di sole
e tutto è rapito in quel momento

Me ne sono andato una sera

Nel cuore durava il limio
delle cicale

Dal bastimento
verniciato di bianco
ho visto
la mia città sparire
lasciando
un poco
un abbraccio di lumi nell’aria torbida
sospesi

Giuseppe Ungaretti (surripiado da internet )


14/12/2010

"...melodia clara".

Esta semana na companhia de Botticelli e de Rilke que escreveu poesia de uma espiritualidade encantadora.
x
Sandro Botticelli, Anunciação, 1489-90


Têmpera. 150 x 156 cm, Galleria degli Uffizi, Florença
Detalhe



Anunciação


Não foi por um Anjo ter entrado (faz essa ideia tua)
que ela se sobressaltou. Tão pouco como outras,quando
um raio de sol ou à noite a lua
nos seus quartos se vão instalando,
se sobressaltam, ela não tinha o hábito de se indignar
à vista da figura do Anjo assumia;
ela mal sabia que este ali ficar
para os anjos é laborioso. (Oh se fosse possível saber como ela era pura. Não foi uma cerva que, a salvo,
deitada na floresta, dela se apercebeu,
equivocando-se de tal modo que concebeu,
sem sequer ser coberta, o Licorne mais alvo
o animal feito de luz,o mais puro de conceber.)
Não por ele entrar, mas o Anjo inclinar
para ela, tão de perto, o rosto que vinha anunciar,
tão jovem; e que de ambos o olhar se entrechocasse
quando um outro se encontrasse,
como se em volta tudo vazio parecesse
e que milhões de seres olhavam, faziam, suportavam,
nela se concentrasse: ela e ele apenas ali se encontravam;
Olhar e ser olhado, olhos e deleite para a vista
em mais nenhum lugar senão aquele: repara
isso sobressalta. E o susto de ambos era coisa prevista.

Então entoou o Anjo a sua melodia clara.

Rainer Maria Rilke, A Vida de Maria, Lisboa: Portugália Editora, 2008, p.41 (Trad. e pref. Maria Teresa Dias Furtado)

Antonello Messina - Annunciation
J. S. Bach - Magnificat


20/05/2010

LA BELLA DONNA DELLA MIA MENTE!

Sandro Botticelli, Detalhe do Nascimento da Vénus, 1483


Têmpera sobre tela, 172,5 × 278,5 cm, Galleria degli Uffizi (Florença)

LA BELLA DONNA DELLA MIA MENTE (Lovely Lady of My Memory)

Y limbs are wasted with a flame,
My feet are sore with travelling,
For, calling on my Lady's name,
My lips have now forgot to sing.

O Linnet in the wild-rose brake
Strain for my Love thy melody,
O Lark sing louder for love's sake,
My gentle Lady passeth by.

She is too fair for any man
To see or hold his heart's delight,
Fairer than Queen or courtesan
Or moonlit water in the night.

Her hair is bound with myrtle leaves,
(Green leaves upon her golden hair!)
Green grasses through the yellow sheaves
Of autumn corn are not more fair.

Her little lips, more made to kiss
Than to cry bitterly for pain,
Are tremulous as brook-water is,
Or roses after evening rain.

Her neck is like white melilote
Flushing for pleasure of the sun,
The throbbing of the linnet's throat
Is not so sweet to look upon.

As a pomegranate, cut in twain,
White-seeded, is her crimson mouth,
Her cheeks are as the fading stain
Where the peach reddens to the south.

O twining hands! O delicate
White body made for love and pain!
O House of love! O desolate
Pale flower beaten by the rain!

Oscar Wilde "La Bella Donna Della Mia Mente" was originally published in Kottabos, 1876. It was revised for Poems, 1881.

17/05/2010

Botticelli e Flora!

Para assinalar os 500 anos da morte de Sandro Botticelli, lembrados por MR no Prosimetron escolho a mais bela mulher do pintor, na minha opinião. Flora personagem principal do quadro Primavera, símbolo do renascer da vida. As flores a coroá-la, o ollhar e a majestosidade com que se veste de flores são magníficos. Este Quadro é complexo um dia voltarei a ele.

Sandro Botticelli, Flora, detalhe de Primavera, c.1485-87,

Tempera 203 x 314 cm Galleria degli Uffizi


Detalhe Flores

"O belo é o esplendor da ordem"

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