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31/12/2015

Do Ano Velho para o Ano Novo, com afectos

Começo por agradecer as palavras de Boas Festas de que os cartões são mensageiros. 
Talvez seja vaidade mostrar alguns dos presentes que me tocaram; porém, o que me levou a fazê-lo foi a forma de agradecer o afecto e a lembrança. Começando da esquerda para a direita: nunca bebi um chá de jasmim tão bom; o calendário de Yara Kono tem ilustrações lindíssimas; o Porto de Resende tem o seu traço e cores inconfundíveis; 36 desenhos de Chagall chegaram com uma gaivota e nada mais é preciso dizer; seguem-se os lindíssimos menús reunidos numa "História das Artes de Servir à Mesa"; a que se juntam a "biografia de Ilse Losa" por quem tenho especial curiosidade e as "Dicas para tudo e mais alguma coisa" numa fabulosa edição retro. Para último, deixei de propósito duas figuras em miniatura oferecidas para a minha casa de bonecas. O anjinho, em particular, emocionou-me pois chegou o Natal à dita casa que um dia trarei aqui. 


Coloquei as peças ao lado da chávena para poder-se observar a escala

*
***
****

Este ano a minha árvore de Natal esteve quase sempre inclinada. As decorações foram caindo e não tentei acender as gambiarras. Porque será?



Desejo a todos 
um

FELIZ ANO NOVO

cheio de projectos

e alegria!


03/05/2015

Contrastes

*Mãe*
Os contrastes estão cada vez mais vincados. 

Mary Cassat, Mother Combing Child's Hair,1879, Wikimedia commons



Picasso, A sopa, 1903



Vittorio Crivelli (c 1440-1501), Detalhe de Virgem com o Menino (pinterest)

Vittorio Crivelli (Italian artist, c 1440-1501) Madonna and Child

Mãe

Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade.
Uma e outra têm a tua coragem, o teu alento vital.
Estou contigo mãe, no teu sonho permanente na tua esperança incerta
Estou contigo na tua simplicidade e nos teus gestos generosos.
Vejo-te menina e noiva, vejo-te mãe mulher de trabalho
Sempre frágil e forte. Quantos problemas enfrentaste,
Quantas aflições! Sempre uma força te erguia vertical,
sempre o alento da tua fé, o prodigioso alento
a que se chama Deus. Que existe porque tu o amas,
tu o desejas. Deus alimenta-te e inunda a tua fragilidade.
E assim estás no meio do amor como o centro da rosa.
Essa ânsia de amor de toda a tua vida é uma onda incandescente.
Com o teu amor humano e divino
quero fundir o diamante do fogo universal
.

António Ramos Rosa, Antologia Poética. Lisboa: Dom Quixote, 2001.

11/03/2014

Leituras em dia - II, cansaço e outras coisas

Boticelli, A Tragédia de Lucrécia, detalhe,
1496-1504, Isabella Stewart Gardner Museum, Boston
File:Lucretia detail.jpg

Os dias correm e o cansaço instala-se inesperadamente, contra a corrente.
Não estamos em tempos de cansaço...

- Preferia não o fazer.
- Preferia não o fazer! - repeti eu, como um eco, levantando-me excitado e atravessando o aposento de uma passada. - O que quer dizer? Está louco? Quero que me ajude a conferir esta folha. Tome!- e estendi-lha.
- Preferia não o fazer - repetiu.

Herman Melville, Bartleby. Lisboa: Assírio e Alvim, 2010, p. 27.


Um conto absurdo, no encalço de Kafka, do escritor de Moby Dick.
Obrigada Maria João, já o li há algum tempo.
Às vezes dá vontade de ser como Bartleby.

17/09/2011

Mas o que haveria depois do universo?- James Joyce

Joel Isaacson, Retrato de James Joyce, 1998, (detalhe)

gouache

Mas que haveria depois do universo? Nada. Mas haveria qualquer coisa em torno do universo para mostrar onde terminava, antes do lugar onde começava nada? Podia não ser uma parede, mas podia ser uma linha fininha, muito fininha em torno de todas as coisas. Era algo imenso, pensar em tudo e em todos os lugares. Só Deus o podia fazer. Tentou imaginar o enorme pensamento que esse deveria ser, mas só conseguiu pensar em Deus. Deus era o nome de Deus, tal como o seu nome era Stephen. Em francês dizia-se Dieu em vez de God, e era também o nome de Deus. E quando alguém rezava e dizia Dieu em vez de Deus, Deus compreendia imediatamente que era um francês que rezava. Mas embora tivesse nomes diferentes em todas as línguas do mundo, e se bem que Deus compreendesse o que diziam todos os homens que rezavam nas suas línguas diferentes, contudo, Deus permanecia sempre o mesmo Deus e o nome verdadeiro de Deus era God.

James Joyce, Retrato do Artista quando Jovem, Lisboa: Difel, 2002, p.34-35.(trad e prefácio de Alfredo Margarido, 2ª ed.)

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