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09/05/2017

"Sobre o Caminho"

A chegar ao destino?


Sobre o Caminho

Nada
nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença

Não colecciones dejectos o teu destino és tu
Despe-te
não há outro caminho


Eugénio de Andrade, Véspera da Água. Lisboa: Assírio e Alvim, 2014 (2ª edição)


06/01/2016

"Ver claro"

Como desejava "ver claro"

Relicário árvore




Ver claro

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade
Abençoado seja se lá chegar.


Eugénio de Andrade in "Os Sulcos da Sede"


E caiu a primeira neve!

Bom dia de reis.

25/09/2015

"um verso basta"



No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.


Eugénio de Andrade, In Ofício de Paciência, (Banco de Poesia Casa Fernando Pessoa)

Variações em lá menor - João Bagão, por Quinteto de Coimbra


Guitarra portuguesa

 

11/03/2015

Fragmento...

Não à violência doméstica



Fragmento do Homem

Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor. Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. (...)

Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade - eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. 


Eugénio de Andrade, in Os Afluentes do Silêncio

Uma canção que liga bem com Eugénio de Andrade e este fragmento.

Lost my heart in the fairground the sad clown tries to 
smile
How quickly goes our innocence how swiftly we're defiled
Lost my heart in the fairground when I saw the cheapest 
rides
We're the ones the crowds queue for the sad clown stands 
aside
The vulgar neon prostitutes they always win the day
How swiftly our innocence is swept away
Lost my heart in the fairground when I saw that it was 
crap
Well marketed and packaged that keeps them coming back
How quickly we do swallow the bitterest of pills
The neon whores and sycophants who peddle cheaper thrills
How quickly fairground barkers learn to shout
The quick and easy buck is what it's all about
Lost my heart in the fairground the sad clown tries to 
smile
How quickly goes our innocence how swiftly we're defiled

(cortesia do Youtube)

01/11/2014

Little Bird


DESPERTAR

É um pássaro, é uma rosa,
é o mar que me acorda?
Pássaro ou rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa, 
canto na ave, água no mar.

Eugénio de Andrade, in Até Amanhã (Banco poesia Casa Fernando Pessoa)

***
Mark Mancine - August's Rapsody do filme August Rush.

A música como elo de ligação: 
A música está à nossa volta, é só ouvi-la. 

Um filme de Kirsten Sheridan com Robin Williams e com o notável papel de Freddie Highmore

31/05/2014

"Toda a dor pode ser suportada..."

Rogier van der Weyden, Deposizione dalla croce, 1432-1435, Museo del Prado, Madrid
Link
Rogier Van Der Weyden, 1432·1435
AS MÃOS

Que tristeza tão inútil essas mãos
que nem sempre são flores
que se dêem:
abertas são apenas abandono,
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.

Eugénio de Andrade, "As Mãos", in Os Amantes sem Dinheiro

-------------

Caídas no colo
sem alma nem calor,
pingo de sangue
de dor sem fim:
                     ... mãos.

-------------
A dor é intemporal.
Do filme Hannah Arendt de Margarethe von Trotta, surgem as seguintes questões:
- A mentira dos inocentes ou a verdade dos justos? 
- O que importa à História, não será a verdade possível?

"Toda a dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história"
"A  incapacidade de pensar" leva à "banalidade do mal"
Hannah Arendt [cortesia do Google]




31/12/2013

Votos

Votos, no fim do ano velho, de um
 Feliz Ano Novo para todos.

Desejo que seja um ano em que se descubra a maravilha!

OS FRUTOS

Assim eu queria o poema:
fremente de luz, áspero de terra,
rumoroso de águas e de vento.

Eugénio de Andrade, in "Ostinato Rigore", Poemas. Lisboa: Portugália, 1966, p. 219. 

[Diogo de Macedo, Enlevo, 1919, 
Museu Municipal de Coimbra/Edifício Chiado]

Com menos nuvens

[detalhe do céu, UC]

e muita luz, em janelas rasgadas.

[Loggia, MNMC]

Acima de tudo com muita tolerância e respeito pelas diferenças:
[Do Youtube]

16/10/2013

Para a Maria João

"É um pássaro..."   
À Maria João muitos parabéns e o desejo de um dia feliz.

Uma mulher que admiro e que voa como um falcão. A vida é uma prova constante e a Maria João passou em todas as provas. De Roma o seu (nosso) Botticelli.

Sandro Botticelli, detalhe do fresco da Capela Sistina sobre
 a Prova de Moisés. As filhas de Jetro, 1481-82


DESPERTAR

É um pássaro, é uma rosa,
é o mar que me acorda?
Pássaro ou rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa, 
canto na ave, água no mar.

Eugénio de Andrade in Até Amanhã 
(Banco de poesia Casa Fernando Pessoa)

Imagem Daqui



 detalhe da Madonna del Libro, c.1583, Sandro Botticelli,
Museo Podi Pezzoli, Milão 
(wikimedia Commons)



31/03/2013

Uma passagem na rua

Budapeste, uma passagem na rua 

SEM TI

E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.
Só nas minhas mãos
oiço a música das tuas.

 Eugénio de Andrade, In Até Amanhã (Banco de Poesia Casa Fernando Pessoa)

22/03/2013

A Primavera

A Primavera bateu levemente à minha porta.
Deixei-a entrar...
para depositar no meu regaço
pétalas de uma rosa que ainda não nasceu.

[Hino (atrasado) à Primavera e ao Dia da Poesia]

John William Waterhouse, Ofélia, 1894 [Wikimedia Commons]


De Caeiro, o heterónimo predilecto caiu esta pétala:

Pétala dobrada para trás da rosa que outros dizem de veludo. 

 Pétala dobrada para trás da rosa que outros dizem de veludo.

Apanho-te do chão e, de perto, contemplo-te de longe. 

Não há rosas no meu quintal: que vento te trouxe? 
Mas chego de longe de repente. Estive doente um momento. 
Nenhum vento te trouxe agora. Agora estás aqui. 
O que foste não és tu, se não toda a rosa estava aqui. 

12-4-1919
Alberto Caeiro, “Poemas Inconjuntos”. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. p. 115.

De Eugénio de Andrade todas as rosas:

Hoje roubei todas as rosas dos jardins

Hoje roubei todas as rosas dos jardins 
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.

Eugénio de Andrade (cortesia do Google)

25/01/2013

"Os Amigos" - Da Amizade um cesto cheio de flores

Aos amigos que, noutro lugar e aqui, partilharam o afeto: 
Agradeço.

Hans Memling, Musician Angels, (c.1480)
Koninklijk Museum voor Schone Kunsten, Antwerp, Belgium

Num livro que me foi oferecido sobre música


Para todos 
Os Amigos

Os amigos amei 
despido de ternura 
fatigada; 
uns iam, outros vinham, 
a nenhum perguntava 
porque partia, 
porque ficava; 
era pouco o que tinha,
pouco o que dava, 
mas também só queria 
partilhar 
a sede de alegria—
por mais amarga. 

 Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia" (retirado do Citador)

Junto os poemas de duas amigas:

***
Da Isabel do Palvaras de Aqui e Dali

Poema

A vida é feita de instantes
Em constante oposição.
Nenhum é como foi dantes.
Foram-se uns, outros virão.
Só o homem é igual
Em desigual sempre ser.
Quem sabe o que o mundo vale
Melhor sabe não saber.
A cada esperança perdida,
Logo outra esperança é primeira.
O que mais espanta na vida
É a própria vida inteira.

Armindo Rodrigues
(1904-1993)
***

Da Cláudia,  da Livraria Lumière

Bons amigos
 Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!

Machado de Assis

***

Da Maria João do Falcão de Jade
O delicioso Snoopy

***

Da Margarida Elias, entre as jóias que enviou escolhi esta que me fez lembrar a minha infância.

A birthday is just the first day of another 365-day journey around the sun. Enjoy the trip. ~Author Unknown


Do João Menéres
UM DIA MUITO FELIZ.


01/10/2012

Caravaggio, uma retrospetiva

DESPERTAR

É um pássaro, é uma rosa, 
é o mar que me acorda? 
Pássaro ou rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor. 
Acordar é ser rosa na rosa, 
canto na ave, água no mar

Eugénio de Andrade, Poemas (1945-1965). Lisboa: Portugália, 1966, p. 171




E para louvar o dia da música, Elbow uma banda britânica de rock alternativo.

01/09/2012

Vêm de um Céu

Há dias em que a cidade tem um sabor mais caloroso. Ontem foi um desses dias. 
Coimbra em jardim esplendoroso, no Quebra-Costas


Mestre Alves André, Tricana do Mondego (inaugurada a 7 de Dezembro 2008).
Homenagem da Junta de Freguesia de Almedina. 
Quebra-Costas

Vêm de um Céu

Vêm de um céu talvez de ficção.
Vejo-as chegar, vejo-as partir.
São aves de passagem, não lhes sei o nome.
Têm como eu pouca realidade.
Seguem a direcção do vento, rumo a sul,
chamadas pela cal ardendo sobre o mar.
É difícil a nostalgia;
naturalmente mais difícil quando o tempo fere
o nosso olhar e o priva do que fora mais seu:
a nudez musical da luz primeira.
Mas de que falo eu, se não forem aves

 Eugénio de Andrade, in O Sal da Línguadaqui

16/05/2012

Dança a quatro luzes

Dança a quatro luzes ou uma instalação na Plaza Mayor, Madrid


Eros 

Nunca o verão se demorara
assim nos lábios
e na água
 - como podíamos morrer,
 tão próximos
e nus e inocentes?

 Eugénio de Andrade, In Mar de Setembro (Casa Fernando Pessoa)

30/04/2012

Viver das flores

Viver das flores, Goa

BALANÇA

 No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.

 Eugénio de Andrade, In Ofício de Paciência 

22/04/2012

Janelas floridas num dia com algum sol!

Mudei para o google chrome para acompanhar as novas mudanças impostas na blogosfera. Encontrei possibilidades que resolvi experimentar e é com contentamento que partilho as janelas floridas.

 

 Olhos postos na terra, 
tu virás no ritmo da própria primavera, 
 e como as flores e os animais 
 abrirás as mãos de quem te espera. 

 Eugénio de Andrade 
(cortesia do google)

12/08/2011

NADA!

Eugénio de Andrade escreveu um poema cujo título é

NADA



in O Sal da Língua


***

Uma folha branca, vazia.

27/04/2011

No rio - Sobre a Palavra

O cansaço repara-se com a água tranquila do rio. Olhei para a lente, memorizei, fechei os olhos e deixei-me levar.


ao sabor do vento...


Com agradecimento à Sara


Sobre a Palavra

Entre a folha branca e o gume do olhar
a boca envelhece

Sobre a palavra
a noite aproxima-se da chama

Assim se morre dizias tu
Assim se morre dizia o vento acariciando-te a cintura

Na porosa fronteira do silêncio
a mão ilumina a terra inacabada

Interminavelmente
Eugénio de Andrade, in "Véspera da Água" (citador)




18/03/2011

"O futuro do homem é o homem",

Nas minhas divagações sobre a essência da humanidade: Quem somos? Para onde vamos? O que queremos?, cheguei a este trecho de Eugénio de Andrade.
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Mário Botas, Eugénio de Andrade, 1980.

Tinta da china

Poética
Texto ou Antologia para Prosa

"O futuro do homem é o homem", estamos de acordo. Mas o homem do nosso futuro não nos interessa desfigurado. Este animal triste que nos habita há milhares de anos, cujas possibilidades estamos tão longe de conhecer, é o fruto de uma desfiguração - acção de uma cultura mais interessada em ocultar ao homem o seu rosto do que em trazê-lo, belo e tenebroso, à luz limpa do dia. É contra a ausência do homem no homem que a palavra do poeta se insurge, é contra esta amputação no corpo vivo da vida que o poeta se rebela. E se ousa "cantar no suplício" é porque não quer morrer sem se olhar nos seus próprios olhos, e reconhecer-se, e detestar-se, ou amar-se, se for caso disso, no que não creio. De Homero a S. João da Cruz, de Virgílio a Alexandre Blok, de Li Bay a William Blake, de Bashô a Kavafis, a ambição maior do fazer poético foi sempre a mesma: Ecce Homo, parece dizer cada poema.
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Eugénio de Andrade,in " Afluentes do Silêncio", Editorial Inova Limitada, Dezembro 1970, trecho retirado da Fundação Eugénio de Andrade


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