"A Cruz Vermelha mexicana enviou uma equipa de voluntários para Dallas, no Texas, com o objetivo de ajudar os norte-americanos a fazer face à devastação provocada pelo furacão Harvey. Uma oferta prontamente aceite pelo governador do Texas, Greg Abbott..."
Euronews
Não sou boa a fixar ditados populares, mas lá que o México deu uma "bofetada com luva de pelica" ao Senhor Trump, deu.
Não há dúvida que os latinos hão-de sobreviver a todas as intempéries.
Podemos (latinos) não ser ricos mas somos umas ricas pessoas.
Intermezzo composto pelo mexicano Manuel María Ponce Cuéllar
Nunca são as coisas mais simples que aparecem quando as esperamos. ...O que é mais simples, como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se encontra no curso previsível da vida. Porém, se nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos nos empurrou para fora do caminho habitual, então as coisas são outras. Nada do que se espera transforma o que somos se não for isso: um desvio no olhar; ou a mão que se demora no teu ombro, forçando uma aproximação dos lábios.
Nuno Júdice, As Coisas Mais Simples, Lisboa: D. Quixote, 2006.
Em memória do professor Oliveira Marques que nasceu em 1933, a 23 de Agosto, reflecti sobre estes dois textos um de Platão e outro do historiador.
Tudo se pode interligar quando queremos ver.
Sócrates sentou-se e respondeu:
-Seria bom, Agatão, que a sabedoria fosse uma coisa que se
pudesse transmitir, de um homem que a possui, a um homem que não a possui,
mediante um simples contacto mútuo, tal como a água que passa para um copo
vazio através de um simples fio de lã.
Platão, O Banquete ou do Amor, Coimbra: Atlântida Editora,
sd, p. 44.
A. H. Oliveira Marques, "História genealógica do homem comum: micro-história ou macro-história?", Revista da Faculdade de LetrasHistória,Porto, Série, III, vol. 4, 2003, pp. 173-186.
Como um dente-de-leão, o nosso país verdejante fenece frágil aos fogos de Verão.
É uma maldade da mão do homem que se espalha naturalmente pela força da Natureza.
Os homens choram pela vida e pelos bens.
Perdemos oxigénio, perdemos o verde que aquece a alma e o olhar, é como com o dente-de-leão a beleza desaparece com o sopro.
Gosto tanto do Verão e do tempo quente que é uma pena associar-se a este flagelo, ... o azar para muitos e as vantagens para alguns.
Recentemente homenageou-se o rei do Rock. Não é a minha música mas está de acordo com o tema .
que escolhi.
O Que Falta ao Mundo para Ser Quadro é um livro de Rosa Alice Branco, um livro de 1993, com alguns anos, mas não ultrapassado.
O livro foca a percepção, o olhar sobre a Arte e a linguagem da arte ao longo de algumas correntes artísticas.
Uma das passagens do livro revela que Kandinsky desenvolveu na sua obra, Do Espiritual na Arte (1912), "a ideia de que a obra de arte deve ser profética, na medida em que sendo filha do seu tempo deve realizar-se para a frente, por antecipação e para cima, em viagem, tentando alcançar o vértice do triângulo espiritual."
Gostei especialmente deste excerto, o tempo, esse grande peso que é para o homem, o tempo que produz os seus efeitos, o tempo que mostrei numa postagem sobre a Figueira da Foz. Ele sempre ele a marcar o ritmo.
Também o livro tem o seu tempo, foi produzido segundo as ideias em voga e a ciência do momento, mas ele é intemporal.
O livro é um estudo filosófico sobre a percepção, a ilusão e o objecto da arte.
Achei deliciosa a capa, ou seja a escolha ter recaído sobre um quadro de Magritte, A Condição Humana, (1933).
No dia Mundial do Gato e porque sou fã de gatos a minha escolha recai num desenho de Joaquín Sorolla, um pintor que visitei nestas férias. Curiosamente, na sua casa, em Madrid, não vi nenhuma pintura com gatos.
Joaquín Sorolla, Apontamentos sobre gatos retirado do site:
Apuntes de gatos y figura - Dibujo - http://europeana.eu/portal/record/2022
O estúdio de Joaquín Sorolla
Artefactos do pintor
MAGNIFICAT
Quando é que passará esta noite interna, o universo, E eu, a minha alma, terei o meu dia? Quando é que despertarei de estar acordado? Não sei. O sol brilha alto, Impossível de fitar. As estrelas pestanejam frio, Impossíveis de contar. O coração pulsa alheio, Impossível de escutar. Quando é que passará este drama sem teatro, Ou este teatro sem drama, E recolherei a casa? Onde? Como? Quando? Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo? É esse! É esse! Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei; E então será dia. Sorri, dormindo, minha alma! Sorri, minha alma, será dia!
7-11-1933
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993), p. 298. [Arquivo Pessoa]
Um por um para o mar passam os barcos Passam em frente de promontórios e terraços Cortando as águas lisas como um chão
E todos os deuses são de novo nomeados Para além das ruínas dos seus templos
In «Mar», antologia com poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen (com “Nota” de Maria Andresen de Sousa Tavares e “Posfácio” – reedição da primeira recensão feita ao primeiro livro de Sofia, «Poesia», publicado em 1944 – da autoria de Francisco de Sousa Tavares), Editorial Caminho, Lisboa, Fevereiro de 2002 (4.ª edição).
Anderson & Roe's "A Rain of Tears" for two pianos, based on Antonio Vivaldi's "Sento in seno ch'in pioggia di lagrime" ("I feel within a rain of tears")
A criança sabe que a boneca não é real, e trata-a como real até chorá-la e se desgostar quando se parte. A arte da criança é a de irrealizar. Bendita essa idade errada da vida, quando se nega a vida por não haver sexo, quando se nega a realidade por brincar, tomando por reais a coisas que o não são!
Que eu seja volvido criança e o fique sempre, sem que me importem os valores que os homens dão às coisas nem as relações que os homens estabelecem entre elas. Eu, quando era pequeno, punha muitas vezes os soldados de chumbo de pernas para o ar... E há argumento algum, com jeitos lógicos para convencer, que me prove que os soldados reais não devem andar de cabeça para baixo?
A criança não dá mais valor ao ouro do que ao vidro. E na verdade, o ouro vale mais? — A criança acha obscuramente absurdos as paixões, as raivas, os receios que vê esculpidos em gestos adultos. E não são na verdade absurdos e vãos todos os nossos receios, e todos os nossos ódios, e todos os nossos amores?
Ó divina e absurda intuição infantil! Visão verdade das coisas, que nós vestimos de convenções no mais nu vê-las, que nos embrumamos de ideias nossas no mais directo olhá-las!
Será Deus uma criança muito grande? O universo inteiro não parece uma brincadeira, uma partida de criança travessa? Tão irreal, tão (...), tão (...)
Lancei-vos, rindo, esta ideia ao ar e vede como ao vê-la distante de mim de repente vejo o que de horrorosa ela é (Quem sabe se ela não contém a verdade?) E ela cai e quebra-se-me aos pés, em pó de horror e estilhaços de angústia...
Acordo para saber que existo...
Um grande tédio incerto gorgoleja erradamente fresco ao ouvido, pelas cascatas, cortiçada abaixo, lá ao fundo estúpido do jardim.
s.d
Bernardo Soares, Livro do Desassossego. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982, Vol.II. p. 441.
A inacção consola de tudo. Não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir. Ninguém pode ser rei do mundo senão em sonho. E cada um de nós, se deveras se conhece, quer ser rei do mundo. Não ser, pensando, é o trono. Não querer, desejando, é a coroa. Temos o que abdicamos, porque o conservamos, sonhando, intacto eternamente à luz do sol que não há, ou da lua que não pode haver.
s.d.
Bernardo Soares, Livro do Desassossego. Vol.I,(Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presença, 1990. p.221.
Mãe, diz-me, sabes onde estás agora? -Senhor, habito a espessa cordilheira, já ninguém me vê nos olhos da concha, entre corpos... obscuros e... efémeros, ou entre colmeias brancas e tardias o silêncio, eterna...mente o puro silêncio, o vácuo da minha alma enxerga-se entre corpos... raízes... ninguém me vê, o silêncio... nos olhos... habi...to a neve onde edifico o meu... rosto... senhor...!
João Rasteiro, A Rose, is a Rose is a Rose et coetera. Edições Sem Nome, 2017, p.44.
Este livro de poesia de João Rasteiro é a história, em poema, de sua mãe quando adoeceu com alzheimer.
O título foi inspirado num poema de Herberto Helder.
Deixamos a nossa arte escrita para guia da experiêcia dos
vindouros, e encaminhamento plausível
das suas emoções. É a arte, e não a história, que é a mestra da vida.
Fernando Pessoa*
Sabemos por experiência, que toda a prendizagem requer a harmonia entre passado, presente e futuro, implicando uma estreita relação entre ensinar e aprender. (...) O pintor francês Jea-François Millet, por exemplo, abordou essa relação, de forma expressivamente maternal, acentuando o papel feminino no gesto poético de ensinar - Lição de Tricotar - que não precisa de agradecimento, tão naturalmente é pertença da humanidade.
Maria do Carmo Vieira, A Arte, Mestra da Vida, reflexões sobre a escola e o gosto pela leitura. Quimera, 2009, p.30. * p. 29
- É a vida que importa, nada senão a vida: o processo da descoberta - o processo eterno e constante (...), e não a própria descoberta.
Virginia Woolf, Noite e Dia ( 1919). Lisboa: Relógio d'Água, 2012 p.121.
Agradeço à Isabel que me ofereceu este livro.
A minha homenagem a Victor Hugo com a projecção do excerto do filme: Os Miseráveis, dirigido por Tom Hooper.
Um dos poucos corta-papéis que faz parte da minha colecção. Adquiri-o numa feira de velharias. Gosto particularmente dele por ser uma flor e ter um movimento súbtil. Julgo que será Arte Nova.
Já foi usado para cortar folhas de livros e algumas cartas, na era dos ebooks e da informação global que, apesar disso, não dispensam o papel e o correio.
Do quotidiano e da Arte eis o
Corta-papéis
"TODA A ARTE É DIZER QUALQUER COISA"
Outra nota ao acaso
Toda a Arte é uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa. Há duas formas de dizer - falar e estar calado. As artes que não são a literatura são as projecções de um silêncio expressivo. Há que procurar em toda a arte que não é a literatura a frase silenciosa que ela contém, ou o poema, ou o romance, ou o drama. Quando se diz «poema sinfónico» fala-se exactamente, e não de um modo translato e fácil. O caso parece menos simples para as artes visuais, mas, se nos prepararmos com a consideração de que linhas, planos, volumes, cores, justaposições e contraposições são fenómenos verbais dados sem palavras, ou antes por hieróglifos espirituais, compreenderemos como compreender as artes visiais, compreenderemos como compreender as artes visuais, e, ainda que as não cheguemos a compreender ainda, teremos, ao menos, já em nosso poder o livro que contém a cifra e a alma que pode conter a decifração. Tanto basta até chegar o resto.
Álvaro de Campos, Sobre a Arte
1936
Fernando Pessoa, Textos de Crítica e de Intervenção. Lisboa: Ática, 1980, p. 279.
(1ª publ. in “Presença”, nº 48. Coimbra: Jul. 1936)
Um dia feliz é aquele em que nas memórias do mar se descobrem poemas como este de Gomes Leal: Senhora de Brabante.
Gratíssima a quem me falou nele.
Agradeço a todos a visita. Em breve regressarei. :))
A Senhora de Brabante
Tem um leque de plumas gloriosas, na sua mão macia e cintilante, de anéis de pedras finas preciosas a Senhora Duquesa de Brabante.
Numa cadeira de espaldar dourado, Escuta os galanteios dos barões. — É noite: e, sob o azul morno e calado, concebem os jasmins e os corações.
Recorda o senhor Bispo acções passadas. Falam damas de jóias e cetins. Tratam barões de festas e caçadas à moda goda: — aos toques dos clarins!
Mas a Duquesa é triste. — Oculta mágoa vela seu rosto de um solene véu. — Ao luar, sobre os tanques chora a água... — Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
Dizem as lendas que Satã vestido de uma armadura feita de um brilhante, ousou falar do seu amor florido à Senhora Duquesa de Brabante.
Dizem que o ouviram ao luar nas águas, mais louro do que o sol, marmóreo, e lindo, tirar de uma viola estranhas mágoas, pelas noites que os cravos vêm abrindo...
Dizem mais que na seda das varetas do seu leque ducal de mil matizes... Satã cantara as suas tranças pretas, — e os seus olhos mais fundos que as raízes!
Mas a Duquesa é triste. — Oculta mágoa vela o seu rosto de um solene véu. — Ao luar, sobre os tanques chora a água... — Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
O que é certo é que a pálida Senhora, a transcendente dama de Brabante, tem um filho horroroso... e de quem cora o pai, no escuro, passeando errante.
É um filho horroroso e jamais visto! — Raquítico, enfezado, excepcional, todo disforme, excêntrico, malquisto, — pêlos de fera, e uivos de animal!
Parece irmão dos cerdos ou dos ursos, aborto e horror da brava Natureza... — Em vão tentam barões, com mil discursos, desenrugar a fronte da Duquesa.
Sempre a Duquesa é triste. — Oculta mágoa vela seu rosto de um solene véu. — Ao luar, sobre os tanques chora a água... — Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
Ora o monstro morreu. — Pelas arcadas do palácio retinem festas, hinos. Riem nobres, vilões, pelas estradas. O próprio pai se ri, ouvindo os sinos...
Riem-se os monges pelo claustro antigo. Riem-se vilões trigueiros das charruas. Riem-se os padres junto ao seu jazigo. Riem-se nobres e peões nas ruas.
Riem-se aias, barões, erguendo os braços. Riem, nos pátios, os truões também. Passeia o duque, rindo, nos terraços. — Só chora o monstro, em alto choro, a mãe!...
Só, sobre o esquife do disforme morto, chora, sem trégua, a mísera mulher. Chama os nomes mais ternos ao aborto... — Mesmo assim feio, a triste mãe o quer!
Só ela chora pelo morto!... A mágoa lhe arranca gritos que a ninguém mais deu! — Ao luar, sobre os tanques chora a água... — Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
António Duarte Gomes Leal, in Antologia Poética, retirado do Citador
Do novo livro da minha amiga Graça, uma escolha para o Dia de Portugal (de Camões e das Comunidades Portuguesas):
os anjos também choram os anjos também choram mesmo nas manhãs mais sublimes quando o sol acorda lento e devagar as lágrimas dos anjos são risos e asas e brandura homens a digladiar-se festas e risos falsos quando os anjos adormecem são felizes e riem porque sonham com o Éden onde moram para sempre e deixam de ser anjos a afugentar monstros e lobisomens numa corrida desesperada de asas incansáveis mas se já não há deuses que importa o choro dos anjos a derramar-se para cá das nuvens e a fazer infelizes os homens que sentem as suas lágrimas
Graça Alves, Da Timidez dos Homens, Coimbra: Palimage, 2017, p.42.
Herman Hesse "A neblina" in A Sublime Arte de Envelhecer de Anselm Grün [monge beneditino] (Prefácio de Mons. Vitor Feytor Pinto). Prior Velho, Edições Paulinas, 2011 (3ª edição), p. 46.