Mãe, diz-me, sabes onde estás agora? -Senhor, habito a espessa cordilheira, já ninguém me vê nos olhos da concha, entre corpos... obscuros e... efémeros, ou entre colmeias brancas e tardias o silêncio, eterna...mente o puro silêncio, o vácuo da minha alma enxerga-se entre corpos... raízes... ninguém me vê, o silêncio... nos olhos... habi...to a neve onde edifico o meu... rosto... senhor...!
João Rasteiro, A Rose, is a Rose is a Rose et coetera. Edições Sem Nome, 2017, p.44.
Este livro de poesia de João Rasteiro é a história, em poema, de sua mãe quando adoeceu com alzheimer.
O título foi inspirado num poema de Herberto Helder.
Deixamos a nossa arte escrita para guia da experiêcia dos
vindouros, e encaminhamento plausível
das suas emoções. É a arte, e não a história, que é a mestra da vida.
Fernando Pessoa*
Sabemos por experiência, que toda a prendizagem requer a harmonia entre passado, presente e futuro, implicando uma estreita relação entre ensinar e aprender. (...) O pintor francês Jea-François Millet, por exemplo, abordou essa relação, de forma expressivamente maternal, acentuando o papel feminino no gesto poético de ensinar - Lição de Tricotar - que não precisa de agradecimento, tão naturalmente é pertença da humanidade.
Maria do Carmo Vieira, A Arte, Mestra da Vida, reflexões sobre a escola e o gosto pela leitura. Quimera, 2009, p.30. * p. 29
- É a vida que importa, nada senão a vida: o processo da descoberta - o processo eterno e constante (...), e não a própria descoberta.
Virginia Woolf, Noite e Dia ( 1919). Lisboa: Relógio d'Água, 2012 p.121.
Agradeço à Isabel que me ofereceu este livro.
A minha homenagem a Victor Hugo com a projecção do excerto do filme: Os Miseráveis, dirigido por Tom Hooper.
Um dos poucos corta-papéis que faz parte da minha colecção. Adquiri-o numa feira de velharias. Gosto particularmente dele por ser uma flor e ter um movimento súbtil. Julgo que será Arte Nova.
Já foi usado para cortar folhas de livros e algumas cartas, na era dos ebooks e da informação global que, apesar disso, não dispensam o papel e o correio.
Do quotidiano e da Arte eis o
Corta-papéis
"TODA A ARTE É DIZER QUALQUER COISA"
Outra nota ao acaso
Toda a Arte é uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa. Há duas formas de dizer - falar e estar calado. As artes que não são a literatura são as projecções de um silêncio expressivo. Há que procurar em toda a arte que não é a literatura a frase silenciosa que ela contém, ou o poema, ou o romance, ou o drama. Quando se diz «poema sinfónico» fala-se exactamente, e não de um modo translato e fácil. O caso parece menos simples para as artes visuais, mas, se nos prepararmos com a consideração de que linhas, planos, volumes, cores, justaposições e contraposições são fenómenos verbais dados sem palavras, ou antes por hieróglifos espirituais, compreenderemos como compreender as artes visiais, compreenderemos como compreender as artes visuais, e, ainda que as não cheguemos a compreender ainda, teremos, ao menos, já em nosso poder o livro que contém a cifra e a alma que pode conter a decifração. Tanto basta até chegar o resto.
Álvaro de Campos, Sobre a Arte
1936
Fernando Pessoa, Textos de Crítica e de Intervenção. Lisboa: Ática, 1980, p. 279.
(1ª publ. in “Presença”, nº 48. Coimbra: Jul. 1936)
Um dia feliz é aquele em que nas memórias do mar se descobrem poemas como este de Gomes Leal: Senhora de Brabante.
Gratíssima a quem me falou nele.
Agradeço a todos a visita. Em breve regressarei. :))
A Senhora de Brabante
Tem um leque de plumas gloriosas, na sua mão macia e cintilante, de anéis de pedras finas preciosas a Senhora Duquesa de Brabante.
Numa cadeira de espaldar dourado, Escuta os galanteios dos barões. — É noite: e, sob o azul morno e calado, concebem os jasmins e os corações.
Recorda o senhor Bispo acções passadas. Falam damas de jóias e cetins. Tratam barões de festas e caçadas à moda goda: — aos toques dos clarins!
Mas a Duquesa é triste. — Oculta mágoa vela seu rosto de um solene véu. — Ao luar, sobre os tanques chora a água... — Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
Dizem as lendas que Satã vestido de uma armadura feita de um brilhante, ousou falar do seu amor florido à Senhora Duquesa de Brabante.
Dizem que o ouviram ao luar nas águas, mais louro do que o sol, marmóreo, e lindo, tirar de uma viola estranhas mágoas, pelas noites que os cravos vêm abrindo...
Dizem mais que na seda das varetas do seu leque ducal de mil matizes... Satã cantara as suas tranças pretas, — e os seus olhos mais fundos que as raízes!
Mas a Duquesa é triste. — Oculta mágoa vela o seu rosto de um solene véu. — Ao luar, sobre os tanques chora a água... — Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
O que é certo é que a pálida Senhora, a transcendente dama de Brabante, tem um filho horroroso... e de quem cora o pai, no escuro, passeando errante.
É um filho horroroso e jamais visto! — Raquítico, enfezado, excepcional, todo disforme, excêntrico, malquisto, — pêlos de fera, e uivos de animal!
Parece irmão dos cerdos ou dos ursos, aborto e horror da brava Natureza... — Em vão tentam barões, com mil discursos, desenrugar a fronte da Duquesa.
Sempre a Duquesa é triste. — Oculta mágoa vela seu rosto de um solene véu. — Ao luar, sobre os tanques chora a água... — Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
Ora o monstro morreu. — Pelas arcadas do palácio retinem festas, hinos. Riem nobres, vilões, pelas estradas. O próprio pai se ri, ouvindo os sinos...
Riem-se os monges pelo claustro antigo. Riem-se vilões trigueiros das charruas. Riem-se os padres junto ao seu jazigo. Riem-se nobres e peões nas ruas.
Riem-se aias, barões, erguendo os braços. Riem, nos pátios, os truões também. Passeia o duque, rindo, nos terraços. — Só chora o monstro, em alto choro, a mãe!...
Só, sobre o esquife do disforme morto, chora, sem trégua, a mísera mulher. Chama os nomes mais ternos ao aborto... — Mesmo assim feio, a triste mãe o quer!
Só ela chora pelo morto!... A mágoa lhe arranca gritos que a ninguém mais deu! — Ao luar, sobre os tanques chora a água... — Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
António Duarte Gomes Leal, in Antologia Poética, retirado do Citador
Do novo livro da minha amiga Graça, uma escolha para o Dia de Portugal (de Camões e das Comunidades Portuguesas):
os anjos também choram os anjos também choram mesmo nas manhãs mais sublimes quando o sol acorda lento e devagar as lágrimas dos anjos são risos e asas e brandura homens a digladiar-se festas e risos falsos quando os anjos adormecem são felizes e riem porque sonham com o Éden onde moram para sempre e deixam de ser anjos a afugentar monstros e lobisomens numa corrida desesperada de asas incansáveis mas se já não há deuses que importa o choro dos anjos a derramar-se para cá das nuvens e a fazer infelizes os homens que sentem as suas lágrimas
Graça Alves, Da Timidez dos Homens, Coimbra: Palimage, 2017, p.42.
Herman Hesse "A neblina" in A Sublime Arte de Envelhecer de Anselm Grün [monge beneditino] (Prefácio de Mons. Vitor Feytor Pinto). Prior Velho, Edições Paulinas, 2011 (3ª edição), p. 46.
Maria é a mãe que, com paciência e ternura, nos leva a Deus, para que Ele desate os nós da nossa alma.
O lugar de Maria na Igreja segundo o Papa Francisco.
É em Maria que a «profecia», no sentido cristão do termo, se define melhor, a saber, em razão da capacidade interior de escuta de Maria, da sua capacidade de perceção e da sua sensibilidade espirituais, que Lhe permitem captar o murmúrio inaudível do Espírito Santo, assimilando-o perfeitamente, fecundando-o, oferecendo-o ao mundo imediatamente depois de o ter fecundado. Por esta razão, pode dizer-se que, num certo sentido, mas sem se ser categórico: é o princípio mariano que incarna o caráter profético da Igreja.
Cardeal Joseph Ratzinger, «O Problema da Profecia Cristã», em entrevista de Niels Christian Hvidt, 30Giorni, janeiro de 1999.
Como é possível tirar harmonia deste instrumento bizarro?
A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos.
A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis.
O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.
O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.
Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.
Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.
s.d.
Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Vol II."Fase confessional", segundo António Quadros (org.) Mem Martins: Europa-América, 1986.
Detalhe do painel de azulejos da Igreja de Nossa Senhora do Olival, Lisboa,
Lua
SOS Azulejo é um projecto levado a cabo pelo Museu da Polícia Judiciária para promover a valorização do património azulejar português junto aos jovens, propondo às escolas a participação com trabalhos pedagógicos.
Dói a alma ver azulejos centenários, e não só, delapidados, roubados, deixando uma ausência e um vazio no espaço e na história que está a narrar.
ACÇÃO ESCOLA
SOS AZULEJO 2017 realiza-se hoje, dia 3 de Maio, a nível nacional.
OBJETIVOS DA ACÇÃO: Chamada de atenção e sensibilização para:
- A importância e carácter únicos do património azulejar português, a que importa dar continuidade;
- O actual problema da sua grave delapidação por furto, incúria e vandalismo;
- A necessidade da sua valorização, protecção e fruição por todos os portugueses.
[Retirado do site do MPJ]
O Museu da Polícia Judiciária conta com várias parcerias salienta-se a do Museu do Azulejo.
Os coelhos estão escondidos nas tocas. Os ovos da Páscoa ainda não chegaram por isso é com este olhar de peixe que desejo a todos uma
Páscoa Feliz!
Amanheceu o sol neste formoso dia mais arraiado que nunca, acrescentando tantos raios a seus naturais resplendores, quantos tinha eclipsado e escondido no dia da Paixão: e que é o que achou no mundo o mesmo sol, ou quando nasceu no Oriente, ou quando se foi pôr no Ocaso? Quando nasceu achou a terra orvalhada das lágrimas da Madalena, como se ela fora a aurora daquele dia: Mulier, quid ploras?
Trecho do Sermão da Primeira Oitava da Páscoa, na Igreja Matriz da Cidade de Belém, do Grão-Pará, 1656, de Padre António Vieira. (cap.I).
«Não te beijo e tenho ensejo Para um beijo te roubar; O beijo mata o desejo E eu quero-te desejar.»
GLOSAS Porque te amo de verdade, 'stou louco por dar-te um beijo, Mas contra a tua vontade Não te beijo e tenho ensejo.
Sabendo que deves ter Milhões deles p'ra me dar, Teria que enlouquecer Para um beijo te roubar. E como em teus lábios puros, Guardas tudo quanto almejo, Doutros desejos futuros O beijo mata o desejo. Roubando um, mil te daria;
O que não posso é jurar Que não te aborreceria, E eu quero-te desejar!