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20/07/2019

Singelo


Singelo



Faz-se Luz

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca

Mário Cesariny, in "Pena Capital" (in Citador)



16/07/2015

Peculiar herança





peculiar herança
que o tempo traz
ao perene viajante
inexplicável desejo
de seguir,,,,,,,,,,,,,,,

Myra Landau, Daqui

11/07/2013

Nervuras

Os dias correm, sem rumo certo, apenas a seiva diária sabe o seu caminho. Cruzamo-nos com os outros, por vezes, sem os vermos, mas eis que num momento ou noutro, paramos e vimos que os outros não são números.

Nervuras conduzem a seiva,
energia, 
vida,
esqueleto da folha 
caída sobre a mesa.


A folha caída sobre a mesa transportou-me aos finais dos anos 60, à eterna canção:  A Whiter Shade of Pale

A Whiter Shade of Pale

We skipped the light fandango
Turned cartwheels 'cross the floor
I was feeling kinda seasick
But the crowd called out for more
The room was humming harder
As the ceiling flew away
When we called out for another drink
The waiter brought a tray

And so it was that later
As the miller told his tale
That her face, at first just ghostly,
Turned a whiter shade of pale

She said, 'there is no reason
And the truth is plain to see.
But i wandered through my playing cards
And would not let her be
One of sixteen vestal virgins
Who were leaving for the coast
And although my eyes were open
They might have just as well've been closed

She said, 'i'm home on shore leave,
Though in truth we were at sea
So i took her by the looking glass
And forced her to agree
Saying, 'you must be the mermaid
Who took neptune for a ride.
But she smiled at me so sadly
That my anger straightway died

If music be the food of love
Then laughter is its queen
And likewise if behind is in front
Then dirt in truth is clean
My mouth by then like cardboard
Seemed to slip straight through my head
So we crash-dived straightway quickly
And attacked the ocean bed

Música escrita por  Keith Reid e Gary Brooker interpretada por Procol Harum




Os Procol Harum inspiraram-se na ária de Bach para fazer a canção que ouviram.
O tempo, os homens e a história sempre interligados.

12/06/2012

Barco -"o teu barco negro"

Barco na ria

O teu barco negro


De manhã temendo que me achasses feia, 
acordei tremendo deitada na areia, 
mas logo os teus olhos disseram que não 
e o sol penetrou no meu coração. 


 Vi depois, numa rocha, uma cruz, 
e o teu barco negro dançava na luz; 
vi teu braço acenando, entre as velas já soltas.
 Dizem as velhas da praia que não voltas... 
São loucas! São loucas! 


Eu sei, meu amor, 
que nem chegaste a partir, 
pois tudo em meu redor 
me diz que estás sempre comigo. 


No vento que lança 
areia nos vidros, 
na água que canta, 
no fogo mortiço, 
no calor do leito,
nos bancos vazios, 
dentro do meu peito 
estás sempre comigo. 

David Mourão-Ferreira
Poema escrito em 1954 para Amália Rodrigues cantar no filme francês "Les Amants du Tage" filmado em Lisboa. (cortesia do google)

 E o poema levou-me numa viagem ao passado: 
A Whiter Shade Of Pale

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