Seurat, La Tour Eiffel, ca. 1889, 24,1 x 15,2 cm Fine Arts Museums of San Francisco, Museum purchase, William H. Noble Bequest Fund (daqui)
Escuta, lenhador...
Todos os anos vejo as árvores desaparecerem. Pode dizer-se que voltam a ser plantadas, mas nunca se reencontram tantas como anteriormente e é sempre um número mínimo que volta a estender os seus jovens ramos em direcção ao sol ou que agita a sua cabeleira ao vento.
Paris é a única cidade onde se tratam assim as nossas irmãs árvores; nem Berlim nem Londres, para citar apenas cidades civilizadas, demonstram um tal desconhecimento da natureza. Todos os anos, sob os mais diversos pretextos, as nossas avenidas apresentam um desfile digno dos «infortúnios de guerra» e os mutilados expõem os seus cotos perante a indiferença dos automóveis, em grande medida responsáveis por esta desastrada exterminação. Se, como diz Aristóteles, as árvores são pessoas que sonham, o que pensará a árvore dos seus carrascos? Não quero fingir que lhe dou voz, porque ela tem a seu favor o silêncio dos amantes, as brincadeiras das crianças, as divagações dos solitários e um povo livre sem constrangimentos, ou seja, os pássaros.
Julien Green, Paris. [1983]( Tradução Carlos Vaz Marques) Lisboa: Tinta da China, 2008, p. 105.
Um livro que só agora li por razões várias e porque revisitei Paris nesta época natalícia há uns tempos atrás. Saudades de Paris? Talvez.
Em homenagem a mais uma partida do mundo da música:
Exposição comemorativa do centenário do pintor Luís Dourdil
em Coimbra, no Museu Municipal Edifício Chiado, desde Setembro até 11 de Outubro passado.
Aqui fica um apontamento das cores e da sensibilidade do pintor que nasceu em Coimbra em 1914 e faleceu em Lisboa em 1989.
Luís, Dourdil, Peixeira sentada, c. 1960
A Peixeira Sentada, c. 1960 e o Abraço de 1973.
Luís Dourdil, Mulheres de Alfama, s/ data, carvão
Todos temos um cofre secreto de memórias que a um dado momento gostaríamos de abrir.
Poema de Lagoa Henriques em homenagem ao pintor Luis Dourdil:
DO TEU ÁLBUM DE LEMBRANÇAS
DO TEU FICHEIRO DE IMAGENS
DO TEU SECRETO COFRE
DE MEMÓRIAS
DOURDIL,NERVOSA E REFLECTIDAMENTE QUEBRA O SILÊNCIO
TRAZES UMA MÃO CHEIA DE LUZ SOMBRIA LARANJA PRATEADA DE RUMORES CORPOS SENSUAMENTE DECEPADOS (CORPOS SÓ ANCAS) NUVENS DE MADRUGADA PRESAS NO MOVIMENTO ABANDONADO DOS BOTES DAS FRAGATAS DAS TRAINEIRAS CORPOS DE SOL CORPOS DE SAL
A PINTURA DOS AVENTAIS DAS BLUSAS DAS SAIAS DOS LENÇOS DAS PEÚGAS DE ALGODÃO DOS OLEADOS DAS CANASTRAS DOS GRITOS DOS SEGREDOS E DOS BEIJOS DO NASCER DO CRESCER E DO MORRER
A ALFAMA ONDE MORAM AS TUAS VARINAS PEIXEIRAS COMO TU DIZES SÃO ELAS PRÓPRIAS FEITAS DE BAIRRO ALICERCE MOVENTE ARQUITECTURA SEM PAREDES PORTAS E JANELAS DE TERNURA.
AS TUAS SENHORAS NUAS DE SENTIMENTOS VESTIDAS DE HUMANIDADE DE GESTOS VERDADEIROS AUTÊNTICOS NATURAIS DE GESTOS-DE GESTOS OS GESTOS DA TUA PINTURA OS GRITOS MODULADOS DO TEU DESENHO NO CÉU CLARO FORTEMENTE ILUMINADO DA BEIRA-RIO
DA BEIRA-TEJO DO RIO Á BEIRA DA RIBEIRA DE LISBOA.
DEPOIS AS TUAS MÃOS MÁGICAMENTE MÁGICA DE CIÊNCIA E DE SABER- DE- OFÍCIO DESDOBRAM O SORTILÉGIO DO ACONTECER. MÉTAFISICA DO QUOTIDIANO BRAÇADAS DE TERNURA ANÓNIMA QUE RÁPIDAMENTE ORGANIZAS NO LINHO PREPARADO NA PAREDE NA PÁGINA QUE DESFOLHAS.
-OUTONO SALGADO MORDIDO DE SOL INVERNO ILUMINADO PRIMAVERA DE MÃOS E ROSTOS DE PALAVRAS DE SILÊNCIOS, DE BEIJOS DE GRITOS SUFOCADOS DE HÉLICES DE REDES, DE GAIVOTAS DE PORTAS, DE REMOS
DE PEIXES
DE SOMBRAS FRATERNAS NOS CORPOS QUE SE TOCAM CONVIVÊNCIA INADIÁVEL QUE DESLUMBRADO AGARRAS E REGISTAS E RESPONDES.
E RESPONDES,REPITO NESSA SEGUNDA CASA ONDE CONVIVES COM ESSA OUTRA FAMÍLIA QUE TU AMAS TANTO COMO A PRIMEIRA QUE É A TUA MULHER E O TEU FILHO ESSA OUTRA FAMÍLIA QUE É O CHIADO E A BRASILEIRA AS LIVRARIAS OS AMIGOS A RUA DO ALECRIM,QUE DESCES DESLUMBRADO A PENSAR NO ENCONTRO FELIZ INDIMENSIONAL ABSOLUTO COM O TEU SOL O TEU RIO RIO DE PEIXES E DE CORPOS
BRUMA SENSUALÍSSIMA DE PERFIS SEGREDADOS QUE RISCAS ENERGICAMENTE NUMA CARÍCIA MEMORIZADA TERRIVELMENTE ÍNTIMA DUMA DOLOROSA ALEGRIA ALEGRIA QUE CONSTRÓIS PACIENTE E EXALTADO RESPONDENDO AO PORQUÊ? AO PORQUÊ? DA ÁRVORE GENEOLÓGICA DA VIDA
Lisboa, 12 de junho de 1975 Escultor prof. Lagoa Henriques (https://pt-br.facebook.com/luisdourdil/posts/10152950673013251)
para todos que amavelmente partilham as suas ideias
e me enriquecem!
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Lucas Cranach, o Velho, pintor alemão, A Sagrada Família, 1509. Escolhi este tríptico por colocar a Sagrada Família numa vivência quotidiana como tantas outras famílias. x
Städelaches Kunstinstitut. Frankfurt. Alemania. (detalhe do volante direito: Duque João, o Resoluto, irmão do monarca abaixo assinalado, Frederico III)
(Detalhe volante esquerdo: Frederico, o Sábio, monarca da Saxónia)
No centro Maria vestida de azul e Santa Ana com o Menino. José encontra-se acocorado. No plano acima estão, não sei por que ordem(?) o Imperador Carlos V, o soberano Frederico, o Sábio e o duque João. (acrescentado17:30h) Vai chegar um Menino que dizem veio para salvar os homens. Creio que a sua beleza é capaz de o fazer... mas ainda não o encontrei. Um Menino que sabia o seu triste fim e não se revoltou. Apesar das dúvidas utilizo Caeiro: "A mim ensinou-me tudo./Ensinou-me a olhar para as coisas./Aponta-me todas as coisas que há nas flores".
Poema do Menino Jesus
Num meio-dia de fim de Primavera Tive um sonho como uma fotografia. Vi Jesus Cristo descer à terra. Veio pela encosta de um monte Tornado outra vez menino, A correr e a rolar-se pela erva E a arrancar flores para as deitar fora E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu. Era nosso demais para fingir De segunda pessoa da Trindade. No céu tudo era falso, tudo em desacordo Com flores e árvores e pedras. No céu tinha que estar sempre sério E de vez em quando de se tornar outra vez homem E subir para a cruz, e estar sempre a morrer Com uma coroa toda à roda de espinhos E os pés espetados por um prego com cabeça, E até com um trapo à roda da cintura Como os pretos nas ilustrações. Nem sequer o deixavam ter pai e mãe Como as outras crianças. O seu pai era duas pessoas - Um velho chamado José, que era carpinteiro, E que não era pai dele; E o outro pai era uma pomba estúpida, A única pomba feia do mundo Porque nem era do mundo nem era pomba. E a sua mãe não tinha amado antes de o ter. Não era mulher: era uma mala Em que ele tinha vindo do céu. E queriam que ele, que só nascera da mãe, E que nunca tivera pai para amar com respeito, Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir E o Espírito Santo andava a voar, Ele foi à caixa dos milagres e roubou três. Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido. Com o segundo criou-se eternamente humano e menino. Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz E deixou-o pregado na cruz que há no céu E serve de modelo às outras. Depois fugiu para o Sol E desceu no primeiro raio que apanhou. Hoje vive na minha aldeia comigo. É uma criança bonita de riso e natural. Limpa o nariz ao braço direito, Chapinha nas poças de água, Colhe as flores e gosta delas e esquece-as. Atira pedras aos burros, Rouba a fruta dos pomares E foge a chorar e a gritar dos cães. E, porque sabe que elas não gostam E que toda a gente acha graça, Corre atrás das raparigas Que vão em ranchos pelas estradas Com as bilhas às cabeças E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas Quando a gente as tem na mão E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus. Diz que ele é um velho estúpido e doente, Sempre a escarrar para o chão E a dizer indecências. A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia. E o Espírito Santo coça-se com o bico E empoleira-se nas cadeiras e suja-as. Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica. Diz-me que Deus não percebe nada Das coisas que criou - "Se é que ele as criou, do que duvido." - "Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória, Mas os seres não cantam nada. Se cantassem seriam cantores. Os seres existem e mais nada, E por isso se chamam seres." E depois, cansado de dizer mal de Deus, O Menino Jesus adormece nos meus braços E eu levo-o ao colo para casa.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. Ele é o humano que é natural. Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda a certeza Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina É esta minha quotidiana vida de poeta, E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre. E que o meu mínimo olhar Me enche de sensação, E o mais pequeno som, seja do que for, Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo Dá-me uma mão a mim E outra a tudo que existe E assim vamos os três pelo caminho que houver, Saltando e cantando e rindo E gozando o nosso segredo comum Que é saber por toda a parte Que não há mistério no mundo E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre. A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado. O meu ouvido atento alegremente a todos os sons São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro Na companhia de tudo Que nunca pensamos um no outro, Mas vivemos juntos e dois Com um acordo íntimo Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas No degrau da porta de casa, Graves como convém a um deus e a um poeta, E como se cada pedra Fosse todo o universo E fosse por isso um grande perigo para ela Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens E ele sorri porque tudo é incrível. Ri dos reis e dos que não são reis, E tem pena de ouvir falar das guerras, E dos comércios, e dos navios Que ficam fumo no ar dos altos mares. Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade Que uma flor tem ao florescer E que anda com a luz do Sol A variar os montes e os vales E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o. Levo-o ao colo para dentro de casa E deito-o, despindo-o lentamente E como seguindo um ritual muito limpo E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma E às vezes acorda de noite E brinca com os meus sonhos. Vira uns de pernas para o ar, Põe uns em cima dos outros E bate palmas sozinho Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho, Seja eu a criança, o mais pequeno. Pega-me tu ao colo E leva-me para dentro da tua casa. Despe o meu ser cansado e humano E deita-me na tua cama. E conta-me histórias, caso eu acorde, Para eu tornar a adormecer. E dá-me sonhos teus para eu brincar Até que nasça qualquer dia Que tu sabes qual é.
Esta é a história do meu Menino Jesus. Por que razão que se perceba Não há-de ser ela mais verdadeira Que tudo quanto os filósofos pensam E tudo quanto as religiões ensinam ?