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27/12/2016

"Escuta, lenhador..."


Seurat, La Tour Eiffel, ca. 1889, 24,1 x 15,2 cm Fine Arts Museums of San Francisco, Museum purchase, William H. Noble Bequest Fund (daqui)



Escuta, lenhador...
Todos os anos vejo as árvores desaparecerem. Pode dizer-se que voltam a ser plantadas, mas nunca se reencontram tantas como anteriormente e é sempre um número mínimo que volta a estender os seus jovens ramos em direcção ao sol ou que agita a sua cabeleira ao vento.
Paris é a única cidade onde se tratam  assim as nossas irmãs árvores; nem Berlim nem Londres, para citar apenas cidades civilizadas, demonstram um tal desconhecimento da natureza. Todos os anos, sob os mais diversos pretextos, as nossas avenidas apresentam um desfile digno dos «infortúnios de guerra» e os mutilados expõem os seus cotos perante a indiferença dos automóveis, em grande medida responsáveis por esta desastrada exterminação. Se, como diz Aristóteles, as árvores são pessoas que sonham, o que pensará a árvore dos seus carrascos? Não quero fingir que lhe dou voz, porque ela tem a seu favor o silêncio dos amantes, as brincadeiras das crianças, as divagações dos solitários e um povo livre sem constrangimentos, ou seja, os pássaros.

Julien Green, Paris. [1983]( Tradução Carlos Vaz Marques) Lisboa: Tinta da China, 2008, p. 105.

Um livro que só agora li por razões várias e porque revisitei Paris nesta época natalícia há uns tempos atrás. Saudades de Paris? Talvez.

Em homenagem a mais uma partida do mundo da música:
(1963-2016)

14/10/2015

"Do teu secreto cofre de memórias"...

Exposição comemorativa do centenário do pintor Luís Dourdil 
em Coimbra, no Museu Municipal Edifício Chiado, desde Setembro até 11 de Outubro passado.

Aqui fica um apontamento das cores e da sensibilidade do pintor que nasceu em Coimbra em 1914 e faleceu em Lisboa em 1989.

Luís, Dourdil, Peixeira sentada, c. 1960


A Peixeira Sentada, c. 1960  e o Abraço de 1973.

Luís Dourdil, Mulheres de Alfama, s/ data, carvão


Todos temos um cofre secreto de memórias que a um dado momento gostaríamos de abrir.


Poema de Lagoa Henriques em homenagem ao pintor Luis Dourdil:

DO TEU ÁLBUM DE LEMBRANÇAS
DO TEU FICHEIRO DE IMAGENS
DO TEU SECRETO COFRE
DE MEMÓRIAS
DOURDIL,NERVOSA E
REFLECTIDAMENTE
QUEBRA O SILÊNCIO

TRAZES UMA MÃO CHEIA
DE LUZ SOMBRIA
LARANJA PRATEADA
DE RUMORES CORPOS
SENSUAMENTE DECEPADOS
(CORPOS SÓ ANCAS)
NUVENS DE
MADRUGADA
PRESAS NO MOVIMENTO
ABANDONADO
DOS BOTES DAS FRAGATAS
DAS TRAINEIRAS
CORPOS DE SOL
CORPOS DE SAL

A PINTURA DOS AVENTAIS
DAS BLUSAS
DAS SAIAS
DOS LENÇOS
DAS PEÚGAS
DE ALGODÃO
DOS OLEADOS DAS CANASTRAS
DOS GRITOS
DOS SEGREDOS
E DOS BEIJOS
DO NASCER DO CRESCER E DO MORRER

A ALFAMA ONDE MORAM
AS TUAS VARINAS
PEIXEIRAS
COMO TU DIZES
SÃO ELAS PRÓPRIAS
FEITAS DE BAIRRO
ALICERCE MOVENTE
ARQUITECTURA SEM PAREDES
PORTAS E JANELAS DE TERNURA.

AS TUAS SENHORAS NUAS
DE SENTIMENTOS
VESTIDAS DE HUMANIDADE
DE GESTOS
VERDADEIROS
AUTÊNTICOS
NATURAIS
DE GESTOS-DE GESTOS
OS GESTOS DA TUA PINTURA
OS GRITOS MODULADOS DO
TEU DESENHO NO CÉU CLARO
FORTEMENTE ILUMINADO
DA BEIRA-RIO

DA BEIRA-TEJO
DO RIO Á BEIRA
DA RIBEIRA DE LISBOA.

DEPOIS AS TUAS MÃOS
MÁGICAMENTE
MÁGICA DE CIÊNCIA
E DE SABER- DE- OFÍCIO
DESDOBRAM O
SORTILÉGIO
DO ACONTECER.
MÉTAFISICA DO QUOTIDIANO
BRAÇADAS DE TERNURA
ANÓNIMA
QUE RÁPIDAMENTE
ORGANIZAS
NO LINHO PREPARADO
NA PAREDE NA PÁGINA
QUE DESFOLHAS.

-OUTONO SALGADO
MORDIDO DE SOL
INVERNO ILUMINADO
PRIMAVERA
DE MÃOS E ROSTOS
DE PALAVRAS
DE SILÊNCIOS, DE BEIJOS
DE GRITOS SUFOCADOS
DE HÉLICES
DE REDES, DE GAIVOTAS
DE PORTAS, DE REMOS

DE PEIXES

DE SOMBRAS FRATERNAS
NOS CORPOS QUE SE TOCAM
CONVIVÊNCIA INADIÁVEL
QUE DESLUMBRADO
AGARRAS E REGISTAS
E RESPONDES.

E RESPONDES,REPITO
NESSA SEGUNDA CASA
ONDE CONVIVES COM ESSA OUTRA FAMÍLIA
QUE TU AMAS TANTO
COMO A PRIMEIRA
QUE É A TUA MULHER E O TEU FILHO
ESSA OUTRA FAMÍLIA
QUE É O CHIADO E A BRASILEIRA
AS LIVRARIAS
OS AMIGOS A RUA
DO ALECRIM,QUE DESCES
DESLUMBRADO A PENSAR
NO ENCONTRO FELIZ
INDIMENSIONAL ABSOLUTO
COM O TEU SOL O TEU RIO
RIO DE PEIXES E DE CORPOS

BRUMA SENSUALÍSSIMA
DE PERFIS SEGREDADOS
QUE RISCAS
ENERGICAMENTE
NUMA CARÍCIA
MEMORIZADA
TERRIVELMENTE ÍNTIMA
DUMA DOLOROSA ALEGRIA
ALEGRIA QUE CONSTRÓIS
PACIENTE
E EXALTADO
RESPONDENDO
AO PORQUÊ?
AO PORQUÊ?
DA ÁRVORE GENEOLÓGICA DA VIDA

Lisboa, 12 de junho de 1975
Escultor prof. Lagoa Henriques  (https://pt-br.facebook.com/luisdourdil/posts/10152950673013251)




05/09/2011

Telegrama para Freddie Mercury: Bom dia Freddie!

Freddie Mercury fez parte da minha adolescência e uma das músicas que mexem comigo é esta:





Já quase no fim da vida a energia de Freddie contagiou-me sempre.




Porque adoro David Bowie e Annie Lenox



23/12/2010

Feliz Natal! "Ensinou-me a olhar para as coisas" (?)

Votos de FELIZ NATAL
para todos que amavelmente partilham as suas ideias
e me enriquecem!
x
Lucas Cranach, o Velho, pintor alemão, A Sagrada Família, 1509. Escolhi este tríptico por colocar a Sagrada Família numa vivência quotidiana como tantas outras famílias.
x

Städelaches Kunstinstitut. Frankfurt. Alemania.
(detalhe do volante direito: Duque João, o Resoluto, irmão do monarca abaixo assinalado, Frederico III)

(Detalhe volante esquerdo: Frederico, o Sábio, monarca da Saxónia)

No centro Maria vestida de azul e Santa Ana com o Menino. José encontra-se acocorado. No plano acima estão, não sei por que ordem(?) o Imperador Carlos V, o soberano Frederico, o Sábio e o duque João. (acrescentado17:30h) Vai chegar um Menino que dizem veio para salvar os homens. Creio que a sua beleza é capaz de o fazer... mas ainda não o encontrei. Um Menino que sabia o seu triste fim e não se revoltou.
Apesar das dúvidas utilizo Caeiro: "A mim ensinou-me tudo./Ensinou-me a olhar para as coisas./Aponta-me todas as coisas que há nas flores".

Poema do Menino Jesus

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

Alberto Caeiro

George Michael - December Song (I Dreamed of Christmas)

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