O São Carlos merece os parabéns pois oferece a possibilidade de assistir ao ensaio musical da ópera A Flowering Tree, no dia 31 de Março, às 19:00 horas, antes da estreia com alguns excertos interpretados pelos solistas Jessica Rivera, Shawn Mathey e Luís Rodrigues, acompanhados ao piano por Rui Rodrigues.
Pode assistir ainda a comentários de Joana Carneiro e Nicola Raab, respectivamente directora musical e encenadora da produção que se apresenta a 6 e 8 de Abril; e de Rui Horta, encenador da produção de 2010.
A entrada é livre e é no Foyer do São Carlos.
Joana Carneiro dirige a ópera de John Adams A Flowering Tree, no Centro Cultural de Belém, dez anos após a sua estreia absoluta. Com música de John Adams e libreto de John Adams e Peter Sellars, a Temporada Lírica do Teatro Nacional de São Carlos prossegue agora no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém:
Na galeria Gherardini encontrei belas obras de Orbetto*e passei a conhecer este meritório artista. Quando estamos longe contentamo-nos com saber dos artistas de primeiro plano, muitas vezes apenas com os seus nomes; mas quando nos aproximamos deste firmamento de estrelas e as de segunda e terceira grandeza começam também a brilhar, e cada uma se destaca como parte de toda a constelação, nessa altura o mundo alarga-se e a arte enriquece-se. Tenho de louvar aqui a ideia de um desses quadros. Tem apenas duas figuras em meio corpo. Sansão acabou de adormecer no regaço de Dalila, ela inclina-se levemente sobre ele para pegar numa tesoura que está em cima da mesa, ao lado de uma candeia. A execução é muito perfeita.
Johann Wolfgang Goethe, Viagem a Itália, 1786-1788. ( Tradução, prefácio e notas de João Barrento) Lisboa: Bertrand Editora, 2016, p. 73.
[A pedido do tradutor a obra não segue a grafia do novo acordo ortográfico].
* Orbetto é o pintor Alessandro Turchi também conhecido por Alessandro Veronese. O pintor nasceu em Verona em 1578 e morreu em Roma em 1649.
Apesar da nota no fim do livro referir que a tela está no Louvre não a consegui encontrar. De forma que coloco outra que gostei muito e que foca Maria Madalena após a deposição de Cristo. É bela não é?
Esta viagem a Itália está a encantar-me. Não estou a ler rapidamente até porque o comecei numa altura de muito trabalho. Contudo, o tempo não importa quando a beleza entra pelos olhos dentro e quando nos leva a investigar.
as árvores já não gostam dos homens é um poema que trago da minha amiga Graça e com o qual ela ganhou o 2º prémio da VI edição do Concurso "Poesia da Biblioteca" da Biblioteca Municipal de Condeixa. Parabéns Graça!:))
as árvores já não gostam dos homens
as árvores já não gostam dos homens
porque eles atraiçoaram-nas
adiantando os relógios malditos
ao encontro suicida da apoteose final
aliciante cinzenta e indistinta
os pássaros foram fazer ninhos
nas nuvens negras
as crisálidas apodreceram no porão
dos navios abandonados
onde naufragaram os desejos
das sete virgens que sonharam
com paraísos e felicidade infinita
veio um deus maldito
sacudir as frutos das árvores
que apodreceram nas searas
onde não nascem papoilas
as montanhas abriram-se
formando túneis vazios
as casas ardem de febre
porque os homens têm o betão
o níquel a prata e o ouro
por dentro das veias e dos músculos
e as crianças que brincavam dentro deles
adormeceram para sempre
agora as árvores estão velhas e cansadas
viram as costas aos homens e adormecem zangadas
num sonho agitado e perturbador de cavalos a galope
Nada, a não ser a arte, é mais belo que as flores.
Gestos que apaziguam a alma.
XXXI - Se às vezes digo que as flores sorriem
Se às vezes digo que as flores sorriem E se eu disser que os rios cantam, Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores E cantos no correr dos rios... É porque assim faço mais sentir aos homens falsos A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes À sua estupidez de sentidos... Não concordo comigo mas absolvo-me, Porque só sou essa coisa séria, um intérprete da Natureza, Porque há homens que não percebem a sua linguagem, Por ela não ser linguagem nenhuma.
s.d.
Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993), p. 56.
Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido, Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une, A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea — Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma, Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem — Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração.
31-12-1929
Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993), p. 41.
O pescador do mar alto Vem contente de pescar. Se prometo, sempre falto: Receio não agradar.
s.d.
Fernando Pessoa, Quadras ao Gosto Popular. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973), p. 104.
O mar estava gélido e frio, mas o vento forte que trazia lavou-me a alma e quem me levou foi a minha amiga Graça. Obrigada.
O MAR É ANTERIOR
ÀS MONTANHAS
e antes das máquinas as máquinas não eram necessárias. Os rios
desceram depois os caudais da memória e teceram o rigor dos seus
próprios percursos. E as árvores
nas margens
emergiram da nostalgia do tempo mais antigo, desse tempo anterior às
montanhas. Da cinza dos vulcões onde assentaram raízes resgataram o
fogo e estenderam a sombra para proteger as coisas
mais frágeis.
Na inicial indefinição as aves enunciaram a melodia da voz e a direção
do vento. Estabeleceram depois os limites do céu um pouco acima dos
últimos ramos. Outros animais
na sua imprudência
desenharam e apagaram vezes sem conta as fronteiras entre a terra
e a água. Descobriram a prata líquida do abraço e procuraram o ouro na
saliva dos beijos. Vezes sem conta inventaram o amor porque antes do
amor
o amor
não era necessário. Os homens construíram moinhos e trabalharam
cachimbos, escreveram o pão os sonhos e multiplicaram as candeias.
Queimaram-se no fogo do amor depois tatuaram o fogo
da palavra amor
e perderam-se nas montanhas em labirínticas viagens sem fim. Na
nostalgia do tempo mais antigo, desse tempo anterior às viagens,
esculpiram a pedra nos cumes mais altos. Mas mesmo querendo
negá-lo as pedras sempre sublinharam as fronteiras
que retalham o mundo.
E os homens ergueram então a primeira casa a partir da mesma
nostalgia rasgaram janelas nas paredes do corpo. Através desses
toscos rasgos aprenderam com os rios: na foz
reencontraram a nascente.
Das árvores onde repousa o vento aprenderam que é da terra e água
que é feito o fogo dos frutos. O mar é anterior às montanhas e antes
das máquinas as máquinas não eram necessárias: as máquinas
tal como o amor
nasceram da nostalgia do tempo mais antigo, desse tempo anterior à
fome e aos sonhos e ao trilho de todas as viagens.
Rui Miguel Fragas, O Rumor das Máquinas. [IV Prémio Literário Saldónio Gomes, 2015) Aveiro:Universidade de Aveiro Editora, 2015, p. 11 e 12.
O RUMOR DAS MÁQUINAS é o terceiro livro de poesia do Rui Miguel Fragas, com ele ganhou o IV Prémio Literário Saldónio Gomes, 2015, um prémio literário atribuído pela Universidade de Aveiro. Parabéns Rui.
Capa de Sofia Pené Barros, inspirada nos desenhos das Máquinas de Leonardo da Vinci
O Bar do Sítio das Artes vestiu-se com os poemas do Rui,
a parede do balcão tornou-se a capa do livro, Figueira da Foz.
Rui Féteira - Rui Miguel Fragas
António Tavares, vereador da CMFF, apresentou o livro do Rui. A.T. venceu o prémio Leya 2015, com a obra O Coro dos Defuntos.
Segundo o apresentador o livro divide-se em três partes ou três livros; o primeiro, poderia ser uma aproximação ao Génesis; o segundo, ao Eclesiastes, e o terceiro ao Apocalipse. Vê, ainda, o apresentador, num último poema, um quarto livro com o nascimento de um homem novo... a esperança.
Ainda só li alguns poemas mas posso testemunhar que dos três livros do Rui este é o melhor, ele iniciou uma escalada, agora resta-lhe superar-se a si mesmo.
Na apresentação o grupo de teatro "O Pátio das Galinhas", do qual o Rui faz parte, declamaram e coreografaram alguns dos seus poemas. Foi um momento muito belo. A música utilizada foi a que aqui se coloca: Rodrigo Leão [de quem sou fã].
Viagens a Itália, 1786-1788, um livro de Goethe que me vai encher as medidas. O trabalho é imenso e o tempo pouco. Certamente demorarei a ler este livro mas o regresso a Itália vale todo o tempo do mundo.
Johann Heinrich Wilhelm Tischbein, Goethe in the Roman Campagna
Wikipedia
Torbole, 12 de Setembro, depois da ceia
(...)
Fui dar um passeio no fresco da noite, e vejo que me encontro realmente num outro país, numa região totalmente estranha. As pessoas vivem aqui uma vida despreocupada de conto de fadas: primeiro, as portas não têm fechaduras, mas o estalajadeiro assegurou-me que podia ficar tranquilo, mesmo que tudo o que trago fosse de diamante; depois, as janelas têm papel oleado, em vez de vidraças; finalmente, falta aqui uma comodidade muito necessária, de modo que nos sentimos muito próximos do estado de pura natureza.
Johann Wolfgang Goethe, Viagem a Itália 1786-1788. (Tradução, prefácio e notas de João Barrento). Lisboa: Bertrand Editora, 2016, p. 56.
Não, não me apeteceu ouvir música contemporânea de Goethe.
A Itália que conheço não é a de Goethe, também não é a da época de Gianni Morandi, aqui novinho, mas foi esta Itália romântica
que me trouxe a saudade de um outro país, numa região totalmente estranha. [onde haja] uma vida despreocupada de conto de fadas ...
Esta versão tem mais qualidade.
Esta versão tem um ambiente mais descontraído, único, mas menos qualidade.
Sou uma espécie de carta de jogar, de naipe antigo e incógnito, restando única do baralho perdido. Não tenho sentido, não sei do meu valor, não tenho a que me compare para que me encontre, não tenho a que sirva para que me conheça. (...) Volto em mim ao que sou, ainda que seja nada. E alguma coisa de lágrimas sem choro arde nos meus olhos hirtos, alguma coisa de angústia que não houve me empola asperamente a garganta seca. Mas aí, nem sei o que chorara, se houvesse chorado, nem por que foi que o não chorei. A ficção acompanha-me, como a minha sombra. E o que quero é dormir…
Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Edição de Richard Zenith, Assírio & Alvim,1998, p. 193.
Mascarão, caixotão de tecto, Museu de Aveiro, (Museu de Santa Joana)
A única salvação do que é diferente é ser diferente até o fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade; tomar as atitudes que ninguém toma e usar os meios de que ninguém usa; não ceder a pressões, nem aos afagos, nem às ternuras, nem aos rancores; ser ele; não quebrar as leis eternas, as não-escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento; no fim de todas as batalhas — batalhas para os outros, não para ele, que as percebe — há-de provocar o respeito e dominar as lembranças; teve a coragem de ser cão entre as ovelhas; nunca baliu; e elas um dia hão-de reconhecer que foi ele o mais forte e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos.
Agostinho da Silva, in Diário de Alcestes (citador)
Recebi o Principezinho, de Antoine Saint-Exupéry, numa edição com anotações manuscritas por José Luís Peixoto e ilustrada por Hugo Makarov, da Expresso/Visão com a tradução de Ana Cunha Ribeiro da tradução: Bertrand, Editora, 2015.
O livro é uma obra de arte como é o do autor da história. As anotações são interpretações pessoais (análise com a qual podemos concordar ou não); nelas encontra-se a história de Saint-Exupéry.
Foi com gosto que reli a história e que li as anotações. Sendo uma nova edição interpretativa faz sentido ter uma nova ilustração, também ela resultado de uma reinterpretação das imagens e do texto.
Em suma, gostei. Obrigada, Isabel.
O Principezinho, pp. 46 e 47
pp. 48 e 49
Creio que, para a sua evasão, ele terá aproveitado uma migração de pássaros selvagens. (p.49)
If memory (in all of us so dim!) persists in landscapes, chic and trim, where watches melt on chici trees and mountains float on desert seas, astounding facts, indeed, do rally to teach the clever Mr. Dalì
J.A. GAERTNER, The Persistence of Memory by Salvador Dalì [Poem], in «College Art Journal», Vol. 17, No. 4 (Summer 1958), p. 381. (daqui)
Salvador Dalí morreu a23 de Janeiro de 1989 e pintou a Persistência da Memória, em 1931, quadro em que me inspirei para esta fotografia.
O tempo está ligado à História, lembro, também, que a 23 de Janeiro de 2007 faleceu o historiador A. H. Oliveira Marques, a quem presto homenagem, embora tardiamente.
O espaço a condicionar o tempo.
"Fim do mundo, lugar de destino mais do que passagem, com pouca atracção do mar, a situação geográfica de Portugal não era exactamente das mais propícias ao desenvolvimento de culturas superiores. Por longos séculos estaria por trás do atraso de muitas características nacionais."
A H Oliveira Marques, Breve História de Portugal. Lisboa: Editorial Presença, 2012 (8ª edição), p.12 e 13.
Um pintor e um historiador ambos preocupados em conhecer o mundo, em estudá-lo e interpretá-lo.
Uma das últimas leituras que fiz e que me deu grande prazer foi a biografia da condessa de Carnarvon, Lady Almina, uma mulher extraordinária pela energia com que pautou a sua vida, pelo papel que desempenhou no seio da sua família e dos serviços que prestou ao seu reino (Grã-Bretanha).
Ofereceram-me o livro por causa de uma série que segui e que me agradou, Downton Abbey. A série centrava-se no castelo de Highclere nos finais do século XIX e princípio do século XX, uma época apaixonante. Parece que a figura de Lady Almina e da família de algum modo inspirou a série.
Tenho pena que não tenha sido tratada a história verdadeira pois é deveras interessante. Lord Carnarvon esteve ligado a muitas descobertas arqueológicas no Egipto, nomeadamente, à descoberta do túmulo de Tutankhamon por iniciativa própria e empreendimento pessoal, junto com o amigo e arqueólogo Howard Carter. Todos os episódios passados no Egipto, bem como factos passados durante a 1º Guerra Mundial estão muito bem narrados e comprovados com documentos existentes no castelo.
A narrativa é um retrato social da época, foca todos os grupos sociais, regista as regras de convívio e de formalidade entre os grupos, a mentalidade e a cultura inerente a uma grande casa titular.
Sir Robert Jones, inspetor dos Hospitais Militres, escreveu-lhe [a Lady Almina] no dia 28 de janeiro para exprimir o seu agradecimento pessoal:
Sempre a vi como uma das grandes revelações da guerra. Dedicou-se aos nossos soldados feridos e estou certo de que a nação lhe ficará profundamente grata por isso. Guardarei sempre recordações muito agradáveis de Highclere, os momentos tão bem passados que os nossos soldados lá tiveram em especial a forma altruísta com que a senhora deu assistência a todas as suas necessidades físicas e mentais.
Condessa de Carnarvon, (Fiona), Lady Almina e a Verdadeira Downton Abbey, o Legado Perdido do Castelo de Highclere. (Tradução Marta Mendonça) Lisboa: Editorial Presença, 2013,p. 198
Hihgclere tornou-se graças à generosidade de Lady Almina um hospital militar.
Passagem de um episódio de Downton Abbey referente à 1ª Guerra Mundial
e ao acolhimento no castelo de Highclere.
A papoila é a alegria inebriante da Natureza. Não existe no Inverno. As acácias sim, começam a despontar, no seu brilho amarelo solar, mas ainda é ténue a sua luz.
Não sinto a alegria da flor vermelho-sangue, mas um gesto amigo fez lembrar que, mesmo não estando na Primavera, elas podem existir. Às vezes vale mais um gesto que mil palavras.
À minha amiga obrigada pelo gesto e palavras de amizade!
Agradeço a todos a presença nesta casa e peço desculpa pela ausência.