
Detalhe, Madonna and Child, 1907-1908 by Marianne Stokes, Wolverhampton Art Gallery
Os olhos devem ser tratados com cuidado. devemos pensar para onde os apontamos e quando. Toda a nossa vida jorra dos nossos olhos, eles podem, portanto, ser canhões, música, canto de pássaros, gritos de guerra. Podem revelar-nos, podem salvar-nos, destruir-nos. Vi os teus olhos e a minha vida mudou. Os olhos dela assustam. Os dele hipnotizam-me. Olha só para mim, então tudo ficará bem e eu talvez consiga dormir. Histórias antigas, possivelmente tão antigas quanto a humanidade, dizem-nos que não há um único ser que consiga olhar nos olhos de Deus porque eles contêm a fonte da vida e o abismo da morte.
Jón Kalman Stefásson, Paraíso e Inferno. Lisboa: Cavalo de Ferro, (Tradução de João Reis), 2013, p. 163.
Piero della Francesca: detail, Montefeltro altarpiece daqui

Paraíso e Inferno é um livro de Jón Stefásson, autor vencedor dos prémios Icelandic Literature Prize e P.O. Enquist Award 2011.
Li pela primeira vez literatura islandesa e devo dizer que me fascinou. O mar, sempre o mar a ditar a sua liberdade e a sua prisão. Um livro que toca o ser-se português. Recomendo vivamente. Hoje (já ontem), reler este trecho trouxe-me paz.
Le Monde resume-o desta maneira:
«É tal como um profundo suspiro vindo das profundezas do mar.»
Dagbladet foca-o deste modo:
«Comparável a clássicos como Moby Dick e O Velho e o Mar.»
«Comparável a clássicos como Moby Dick e O Velho e o Mar.»