Éramos crianças, nada era importante a não ser a janela onde os olhos se perdiam. O horizonte era longínquo, o som doutros povos imaginários povoavam a mente. O gato, dormia no colo sereno. As flores perfumavam a sala.
Crescemos, saímos da sala, o mundo torna-se maior mas a essência mantém-se. Os livros abrem a janela, tiram as portas, constroem outras, o tempo avança linear, como se se tratasse de um segmento de recta: tem vários pontos mas não se sabe quando chega o último. A rota está escrita no céu debaixo das estrelas. Perde-se a inocência. Porém, uma coroa prevalece para pontuar a criança escondida. Os olhos enchem-se de lágrimas, a face esboça um sorriso. Entre o choro e o riso, o tempo passa indelével.
Jean Baptiste Camille Corot, Girl Reading Crowned with Flowers or a Virgil's Muse

Umas vezes somos palhaços, outras Pierrot, o riso ecoa na sala iluminada vagamente. O peso dos outros cai em cima de nós, como uma lança brilhante à espera de dilacerar. Que importa o riso, a gargalhada vazia? Nada ... Ela não traz o sol.
Desenho de José Régio,
Palhaço,
daqui
O dia amanhece começam os combates. Travam-se as lutas mas não há heroínas. Os heróis ficam nos livros de histórias, nos romances encadernados, nas estantes... parados.
Joana D'Arc, Pintura, ca. 1485.
An artist's interpretation, since the only portrait for which she is known to have sat has not survived. (Centre Historique des Archives Nationales, Paris, AE II 2490) (Centre Historique des Archives Nationales (Wikipedia)

Duelos e mais duelos até que se vence a batalha. Será importante tanta luta? De que é feita a minha arma? Qual armadura resplandecente mora nesta casa?
Não é de ouro nem de prata, não existe. Ex-Calibur está junto ao lago que dista da minha porta.
Cantamos junto à catedral o Requiem de Mozart. Baixo os olhos e vejo no chão uma pérola dobro-me para a apanhar e acordo junto ao chapéu que me deu prazer comprar para apenas colocar alguns dias no Verão.