11/08/2014

As armas...

Se amassem as pombas...


«As armas são instrumentos de má sorte; empregá-las por muito tempo produzirá calamidades.»

Sun Tzun A Arte da Guerra. Peru: Los Libros Mas Pequeños del Mundo, 2008, p. 46


Um mini-livro da minha colecção, mede 6,5 X 4,5 cm.


Fotografia da Wikipedia, O início de A Arte da Guerra
em um livro de bambu da época do reino do Imperador Qianlongséculo XVIII.

Para a Isabel

09/08/2014

Rosas



A filha do destino, de Benazir Bhutto, é um registo na primeira pessoa, a narração de uma vida inteira de luta pela democracia e liberdade no Paquistão.   


Quando a minha mãe e eu iniciamos o nosso segundo mês de detenção em Al -Murtaza os jardins estão a morrer. Antes da prisão e morte do meu pai [Zulfikar Ali Bhutto], precisávamos de dez empregados para manter os grandes jardins e cuidar dos exteriores. Porém, desde que Al-Murtaza foi convertida numa subprisão para a minha mãe e para mim, o regime de Zia só permite a entrada de três jardineiros. Eu junto-me à luta para manter os jardins vivos.
Não  sou capaz de observar as flores a murchar, especialmente as rosas do meu pai. Sempre que ele viajava para o estrangeiro, trazia variedades novas e exóticas para plantar no nosso jardim - rosas violeta, rosas cor de tangerina, rosas que nem sequer se assemelhavam a rosas mas eram tão perfeitamente esculpidas que pareciam ter sido criadas a partir de barro. Agora as roseiras começam a murchar e a ficar castanhas por falta de cuidados.
Durante o calor forte do Verão, eu estou diariamente no jardim às sete da manhã, a ajudar os jardineiros a levar as pesadas mangueiras de lona de canteiro em canteiro. (...) 
As horas mais felizes da minha vida foram passadas no meio das rosas e à sombra fresca das árvores de fruto em Al-Murtaza.

Benazir Bhutto, A filha do destino. Lisboa: Dom Quixote, 2009, p. 75.

Rosas e um relógio, ode ao tempo, em dia de aniversário do (In)Cultura

Willem Van Aeslt, Detalhe Floral Still Life with Pocket Watch, 1668,
Rijksmuseum, Amesterdão






06/08/2014

"Houve um tempo em que minha janela se abria"

Janelas em parede azul



Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.

Cecília Meireles5 versos do poema, A Arte de Ser Feliz

04/08/2014

Janela com cortinas brancas

«Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas. »

Cecília Meirelles 
versos do poema A Arte de Ser Feliz.

Janela com cortinas brancas


02/08/2014

Talha - em memória d'outros tempos

Talha - em memória d' outros tempos
(detalhe de uma talha que se usava para guardar azeite)


A memória é a consciência inserida no tempo.

Fernando Pessoa - in Baralho de Cartas Fernando Pessoa,
Ponto M,  2012

Obrigada Isabel.

[Pardon Papa]

31/07/2014

Aprazíveis Diálogos - IX

 Hoje a história é contada pelo Amigo Henrique Antunes Ferreira da Minha Travessa do Ferreira. Há um local que nos uniu neste mundo virtual: esse lugar mágico é Goa. Pois, é exactamente de Pangim que o Henrique nos traz o seu aprazível diálogo. Muito obrigada.
À Frederika desejo que escreva muitos livros e tenha muito sucesso. :))

Frederika, minha Amiga
Nascida em Setembro de 1979, em Pangim, a capital de Goa, Frederika Menezes, vítima de paralisia cerebral, está em casa, a Vivenda Menezes, sentada na sua cama, com alguma dificuldade de se equilibrar. Conhecemo-nos há oito anos, mais coisa menos coisa, ficámos amigos e continuamos a sê-lo. Os pais ambos médicos são um casal exemplar. O Dr. José (Zito) Menezes foi colega da minha mulher durante os sete anos do então Liceu Nacional Afonso de Albuquerque, hoje um tribunal superior.
Arquitectura portuguesa em Pangim [ana]
Por seu turno, a Dr.ª Ângela é igualmente uma Senhora  excelente que vem apoiando a filha nas mais complexas situações. Frederika tem um irmão, o José João que actualmente se encontra no Dubai com a mulher e duas filhas, trabalha ali pois os salários em Goa são baixos. Vêm sempre que lhes é possível a Pangim. Frederika Raquel sente a falta das sobrinhas. Por isso todos os dias contactam através do Skype.

É esta jovem simpática, que gosta de se rir, autora de cinco livros, que fez o lançamento dos últimos dois, “Unforgeten” e “Stories in Rhyme”, o primeiro é ficção pura e o segundo são poesias para crianças, ambos ilustrados por artistas plásticos também Goeses. Desloca-se numa cadeira de rodas com a ajuda de um “anjo da guarda” o motorista de seu pai, o Sebastião, mais conhecido por Sebi que já leva 19 anos a trabalhar para os Menezes e é um fervoroso admirador de Frederika.

Ângela Menezes bateu-se denodadamente para que Frederika entrasse numa escola normal, pois de cabeça ela é, felizmente normal – e dotada. E conseguiu. Terminou o curso secundário aos 16 anos e com notas das melhores. Falar com ela é para mim um motivo de felicidade; por vezes as pessoas não entendem o que ela diz por dificuldades de dicção, mas eu esforço-me por ultrapassar isso, não lhe peço para repetir o que disse e entendo-a bastante bem. E ela – já o disse – gosta disso. E, por isso, gosta de mim; e eu, dela.

É feliz e bem disposta. Com as limitações físicas que tem dá gosto ouvi-la dizer que não tem tempo nem espaço para se queixar. A vida, para ela, é uma sucessão de momentos de felicidade e diz que tem tido sorte em todos os momentos “e eu reconheço que é assim”. Mas não se fica por aí. "Eu simplesmente adoro escrever; ela é a minha paixão e escrevo todos os dias ", diz Frederika, que se inspira no dia-a-dia, porque “tudo na vida  serve de inspiração para mim”. 

Mas, de onde lhe vem a força e a determinação que tem? Da família e dos amigos, sublinha. Participa nas redes sociais para contactar com toda a gente. Acredita que a tecnologia tornou a vida mais fácil para ela. "A tecnologia é útil para todos, não é só para mim. Teclo com dois dedos e até sou bastante rápido em comparação com pessoas que usam as duas mãos… ", e solta uma das suas gargalhadas tonitruantes pela ironia…, 

Tenho de dizer que Frederika é uma inspiração para todos aqueles que pararam após a sua doença. E acredita que na vida não vale a pena desperdiçar energia em sentido negativo. Se as coisas parecem impossíveis ou até muito difíceis, usa uma “receita” que é para ela, muito simples: "Continua a tentar. Em algum momento vais conseguir o que queres. Sou muito positiva. Qual é a utilidade de ser negativa? "

E agora uma revelação: “Eu não gosto quando as pessoas sentem pena de mim: e muito menos quando sou tratado como uma criança. Por exemplo, em vez de me perguntarem o meu nome, vão pedi-lo à minha mãe. Eu tenho personalidade, cérebro, aparência e foi-me dada esta vida bela. Não quero caridade de ninguém, por isso, gosto de pessoas que me fazem rir. Pessoas como tu ". Frisa também que não se dedica, apenas, a escrever, lê muito e gosta de pintar, com a ajuda do computador. 

Mas também escreve letras para música, porque, um dia “quero lançar um álbum com elas; mas preciso de alguém que possa musica-las e canta-las. Lê muito e também está interessada em dar palestras motivacionais, para dizer a quem me ouça, sobretudo gente como eu que o Mundo tem de ser positivo, pois há muita negatividade no ar…”

Volto, porém à sua fonte de força. “é a minha mãe. Quando eu era miúda, ela disse-me: tu tens cérebro e a funcionar bem. Afasta a inactividade, ocupa-te em alguma coisa. E foi o que eu fiz. Isso realmente inspirou-me e deu-me a força que tenho". 
Não me parece ser possível acrescentar mais alguma coisa a propósito da minha Amiga Frederika Menezes.
Antunes Ferreira

29/07/2014

Sal

Myra Landau, 
lua lua por favor não nos deixe... deixo sim,
vou embora buscar céus menos sombrios...


«Sem a arte, a existência não tem sal. 
Sem a beleza, a vida não tem chama».

José Rodrigues dos Santos, O Homem de Constantinopla. Lisboa: Gradiva, 2013, p. 458.

Orquestra Chinesa de Macau no Festival das Artes, Quinta das Lágrimas

Maestro Pang Ka Pang

Lie Jie, Zhongruan
Rão Kyao

A Orquestra Chinesa de Macau foi fundada em 1987. Em especial para o Pedro Coimbra.


27/07/2014

"ismos" e as proporções

Ando a ler "O Homem de Constantinopla" de José Rodrigues dos Santos que se baseia na história do Calouste Gulbenkian.
A Gulbenkian é um dos espaços museológicos que mais visito por causa das exposições realizadas. É um local muito agradável onde a arquitectura e a natureza comungam em perfeita harmonia. O livro só pela história  que encerra é algo que cativa. 
Quanto a Kaloust Sarkisian Gulbenkian é uma personagem controversa, pois suscita a admiração mas, também, em algumas circunstâncias, o desapreço. Porém, o saldo é positivo, era um homem que tirou partido do seu destino e soube conduzir os seus negócios. 
O escritor inicia a história com quatro versos de Fernando Pessoa que são sublimes para a biografia construída:
Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem sempre cumpre o que deseja,
Nem sempre deseja o que cumpre.

Trago esta personagem aqui pelo gosto que ele tinha, pela arte e pelo coleccionismo, além disso povoa o meu pensamento. Quem tem poder económico pode amar a arte tornando-a sua.
Apesar de ser amante da arte, da beleza e dos artefactos que nos rodeiam contento-me com o ajuntamento possível. 
Hoje a passear na feira de velharias encontrei uma chávena de café para a minha colecção. Observando-a, parecia-me que o seu design era Arte Nova mas ao procurar os seus dados vi que foi uma chávena fabricada na antiga Kaiser Porzelan mais propriamente na Alka Bavária e pelo carimbo da mesma [ver figura abaixo, retirada do site da fábrica], vi que foi fabricada entre os anos de 1938 e de 1946, logo é uma chávena que foi criada ou no ano em que antecedeu a II Guerra Mundial ou durante a mesma. O movimento nas artes decorativas denominado Arte Nova já tinha terminado, possivelmente insere-se na Arte Déco que terá os dias contados.

A chávena foi-me oferecida e custou a quantia de 2 euros. 
Não é um tesouro mas é claro que, para mim, torna-se num. 
Além do dourado a chávena é branca e tem um azul celeste.

Retirado do site acima assinalado


A deambular pela feira, a minha alma ficou presa a variadíssimas coisas, com preços nada semelhantes, mas há que fazer obras em casa e por isso ter cuidado com os gastos.

A peça que me custou mais dinheiro (10 euros), não está perfeita, não sei se é verdadeira,  conjecturei que poderia ser de um serviço de brincar pois mede 16,3x12,2 cm, mas eventualmente, poderá ter uma utilidade mais prosaica. Foi confeccionada em Coimbra como mostra o reverso da travessinha.

Comprei  mais três peças, duas delas do mais kitsch possível, pediram-me 50 cêntimos por cada. O meu gosto nestas peças prende-se com o espírito popular. Não sei o que vou fazer com elas, talvez sejam dignas da minha cozinha. A primeira é de barro, não vale nada, e mede 7x7,5 cm e a segunda, 10,5x 6 cm.

 A última peça é a Nossa Senhora da Conceição em pó de pedra (?).
Não está completa e é pouco perfeita, tem um furo na base e mede 7 cm.

Chegados aqui o que resta? 
As proporções. O espólio do engenheiro Gulbenkian é inatingível para o comum dos mortais. O que faria a alegria do engenheiro afortunado, talvez fizesse a minha, mas a minha de certeza que não faria a dele. Porquê? 
Porque me contento com tontarias, feminilidades sem nexo, tesouros de imaginação.
Em suma, há algo que nos une: a beleza que é algo que partilhamos e o bom gosto, julgo que também. Vejamos:

Vivia de tal modo no desejo de se ligar ao que achava belo que, nessa manhã em que de novo se embriagava com o esplendor de Constantinopla a despertar, formulou pela primeira vez a pergunta que começava a corroê-lo.
"O que é a beleza?"
Todas as manhãs desde que as aulas se iniciaram, o jovem Kaloust atravessava o estreito no vapor para ir para a escola. A viagem constituía o primeiro ponto alto do dia, sobretudo àquela hora em que a luz da alvorada adquiria tonalidades tão fascinantes que deixavam uma impressão indelével no seu gosto nascente pela harmonia estética. [p. 63]
(...) 
"O que é a beleza?" perguntou mister Washburn num tom que tornava claro ser aquela a última das interrogações introdutórias. "Pulchra sunt quae visa placent, enunciou S. Tomás de Aquino: a beleza é o que agrada aos nossos sentidos. Nada podia ser mais verdadeiro. Mas onde a encontramos exactamente? Nos objectos em si ou na pessoa que os contempla?" [p. 75].

José Rodrigues dos Santos, O Homem de Constantinopla. Lisboa: Gradiva, 2013.
[O livro narra acontecimentos verídicos encenados com a ficção].

O destino de Calouste Gulbenkian cumpriu-se, o seu desejo de destino também. Do meu destino nada sei mas ainda não se cumpriu, nem o efectivo caminho nem o desejado. 
O meu gosto por velharias prende-se às memórias que cada objecto comporta.


25/07/2014

"Abstractio" - black and white

Bombardeamento na Faixa de Gaza

 ABSTRACTO, do latim ABSTRACTIO, significa algo que não é concreto. O que prevalece é a ideia e o conceito.

Acerca da arte abstracta Kandinsky evidencia que,

Se o artista é sacerdote da «beleza», esta deve ser procurada, segundo o principio do valor interior... A «beleza» só pode ser medida pela escala da Grandeza e da Necessidade Interior... É o belo que procede de uma necessidade interior da alma. É o belo que é belo interiormente. 

Wassily Kandinsky, Do espiritual na arte. Lisboa: D. Quixote,  2010, p. 114-116.

Sendo os bombardeamentos concretos, serão abstractas as pessoas que morreram? 
Israel bombardeou uma escola das Nações Unidas, na Faixa de Gaza, morreram muitos civis entre eles crianças... 
Como explicar o inexplicável? 
Como entender este fenómeno?
A comunidade judaica sofreu, no passado, horrores como é que agora responde com mais horror?

23/07/2014

Aprazíveis Diálogos- VIII

De Lisboa, mais propriamente do Estoril, uma flor trouxe-me o texto de Maria João Falcão do blogue O Falcão de Jade. Tive o privilégio de ler diversos contos desta minha amiga. A unir-nos para além de Roma, há uma cidade portuguesa cheia de afectos: Portalegre. A flor e a tela, de Aldo Zari (1982), são fotografia da sua autoria. Muito obrigada. :))

«A Mãe



Ela

Descia as curvas da serra, de carro, a ouvir um Nocturno de Chopin, quase sempre o mesmo.

Lembrava-me de ouvir a minha mãe tocar Chopin, ou Lizt, na velha casa amarela da minha infância.

Em volta a natureza era maravilhosa. Chegara o Verão e via os campos, lá em baixo, com as searas brilhantes e dourados, e uma ou outra papoila bem vermelha a rebentar.

Ia ter com ela, que estava a morrer.

Sabia que sofria e que tudo ia acabar em breve. Irremediavelmente, íamos ficar separadas, como tínhamos vivido tanto tempo.

Separadas.

Enquanto fazia e desfazia as curvas da estrada, no meio dos pinhais e dos eucaliptos, olhando as giestas amarelas cheias de força, pensava que, se calhar, lhe era indiferente ver-me chegar.

Quando entrava no quarto dela, esquecia tudo. Às vezes deitava-me ao lado e cantava-lhe baixinho as canções que me ensinara, em pequenina.                                                   Aldo Zari, Bailado [intitulado por mim]

“Ah! Si j’étais
le rossignol qui chante...
Dans la fôret, 
je viendrais près de toi.
Et chanterais
d'une voix si touchante...” 

Numa dessas manhãs, começou a chorar, de olhos fechados, soluçando como uma criança.
- O que foi, Mamã?

Disse apenas:
- Dói-me... 
- O quê, Mamã?

Eu falava-lhe como se ainda fosse pequena e estivesse deitada na cama dela, a ouvir as histórias que nos contava.
O que lhe doía?

Sabia que não lhe doía o que me doía a mim, o afastamento de sempre.
Guardava a esperança de que sentisse alguma saudade desses tempos, e estivesse agora mais perto de mim, na recordação. 

“Por isso, a vontade de chorar?”, pensei por um momento.
O mais provável era que lhe doesse a sua dor real, física.

Queixara-se sempre pouco a minha mãe, e aguentava a dor como aguentara a solidão na casa da Serra, tantos anos. 
Mas desta vez gemera, protestara.

“Pobre Mamã”…

Dei-lhe a mão, fiz-lhe uma festa, e comecei a chorar, baixinho, para ela não me ouvir.»

Maria João Falcão
Dois Nocturnos da minha eleição.

21/07/2014

4 telas e um acto

Da Guerra activa - a dor imensa...
Myra Landau



















Quatro telas e um acto foi como intitulei o grito de Myra contra a guerra que grassa em Israel.

Poema da Terra Adubada

Por detrás das árvores não se escondem faunos, não. 
Por detrás das árvores escondem-se os soldados 
com granadas de mão. 

As árvores são belas com os troncos dourados. 
São boas e largas para esconder soldados.

Não é o vento que rumoreja nas folhas,
não é o vento, não.
São os corpos dos soldados rastejando no chão.

O brilho súbito não é do limbo das folhas verdes reluzentes.
É das lâminas das facas que os soldados apertam entre os dentes.

As rubras flores vermelhas não são papoilas, não.
É o sangue dos soldados que está vertido no chão.

Não são vespas, nem besoiros, nem pássaros a assobiar.
São os silvos das balas cortando a espessura do ar.

Depois os lavradores
rasgarão a terra com a lâmina aguda dos arados,
e a terra dará vinho e pão e flores
adubada com os corpos dos soldados.

António Gedeão, in Linhas de Força

Dois mundos distintos aqui cruzados... cenário: os homens, 
o poder, o mal/ o bem.


... à guerra passiva - desemprego.
Vidros Partidos, uma curta-metragem do filme Centro Histórico realizada por Víctor Erice,
(ciclo de cinema do Festival das Artes, Coimbra).
A história do filme sobre a Fábrica de Vizela parte desta fotografia
Vidros Partidos 1
Actores e equipa de rodagem, o 6º a contar da direita é o realizador Víctor Erice que com olhar profundo filma a preto e branco [alguns apontamentos a cor]
o olhar de alguns operários, agora no desemprego.
equipo


Trabalhadores da fábrica que participaram no filme: Maria Fatima Braga Lima; Arlindo Fernandes; Filomena Gigante; José Cruz; Amândio Martins; Gonçalves Rosa; Henriqueta Oliveira; Manuel Silva e [filho de um operário] acordeonista Pedro Santos.

Da Senhora que se vê neste flash registei a ideia 
(pena minha não serem as palavras exactas que o trecho não dá):

- O que é a felicidade que a televisão anda sempre a mostrar? Não há felicidade... apenas há sim, alegrias e tive-as, tal como amarguras, mas felicidade não.

CENTRO HISTÓRICO é um conjunto de quatro curtas-metragens, reunindo quatro nomes do cinema contemporâneo, os portugueses Manoel de Oliveira e Pedro Costa, o finlandês Aki Kaurismaki e o espanhol Victor Erice.
Projecto para Guimarães 2012: preservar a memória de Guimarães e do Vale do Ave. Assim, os quatro realizadores, Kaurismaki, Costa, Erice e Oliveira filmaram respectivamente, O TASQUEIRO, SWEET EXORCIST, VIDROS PARTIDOS e O CONQUISTADOR CONQUISTADO.

19/07/2014

Zimbório visto do céu

Vaticano, Basílica de S. Pedro

De estabilidade não tinha nenhum desejo; queria que à minha volta tudo permanecesse fluido e provisório, e só assim me parecia salvar uma estabilidade interior muito minha, que porém não seria capaz de explicar em que consistia.

Italo Calvino, A Nuvem de Smog e A Formiga Argentina, (tradução José Colaço Barreiros). Lisboa: Teorema, 2001, p 25.

17/07/2014

Aprazíveis Diálogos - VII

Na zona de grande Lisboa, o amigo Manuel Poppe (Estoril) do blogue Sobre o Risco, foi uma das pessoas que por aqui passou. O que nos uniu foi a paixão pelo Panteão de Agrippa e a bela cidade de Roma. Atendendo ao meu pedido, o que muito agradeço, o Manuel enviou-me [nas suas palavras] o seguinte "contarelo":

A mão de Deus

 À memória de Luciana Piai, bela veneziana, jovem mulher pura, amiga fiel, morta antes do tempo, com a saudade e a ternura que me ficaram para sempre
Manuel Poppe, Telavive, Foto Dizza
 - A vida custa! – desabafou Alfredo.
 Sempre que saía de casa e ia respirar ar puro ao cafezinho da Malveira, a espreitar a serra de Sintra, encontrava o Alfredo. É um homem bom, vindo de Chaves, que estudou e se reformou professor universitário.  
 Tem o hábito de tirar e pôr os óculos de falsa tartaruga, olhar o infinito, e dizer coisas profundas. Depois, suspira e goza a própria lucidez.  
 Conhecemo-nos há muitos anos: desde a Faculdade.  
Era pobre, mas casou rico. Hoje, além dos óculos, arranjou um modo de viver com os outros: a condescendência. Porquê? Porque há no fundo dele, na barriguinha dele, no umbigo dele, o sonho de poder ser condescendente, generoso, paternal.  
 Dos bancos da Faculdade, ficou-me vê-lo saltar para o palco do anfiteatro maior e gritar uns versos épicos, entusiásticos, lusitanos; do dia-a-dia, lembro, com meiga ironia, o seu improvisado francês e a obsessão de uma senhora, que nunca conheci, a quem chamava “a minha marrraine”, com os três erres.
 - É verdade, Alfredo, a vida custa.
 Foi quando ele tirou os óculos e me fitou, incisivo:
 - Não tenhas dúvidas! Isto é uma pouca-vergonha! Ainda agora…
 E falou-me do que já lhe roubara o governo, a ele, Alfredo, catedrático jubilado, latinista conhecido e admirado.
 -E citado! -sublinhou.
Graças a Deus o sogro, senhor de uma rede hoteleira, ainda era vivo e o negócio prosperava. Se não…
- Vivo e rico! -sublinhava Alfredo.
E a mulher aplaudia, na casa que o sogro lhes oferecera e onde viviam os dois com os dois filhos.
- Se não fosse isso!
Não lhe perguntei o que seria se não fosse isso. 
Na mesa ao lado, estava uma senhora, com o neto.
- Quantos anos tem o seu neto? -perguntei-lhe.
- Oito. E já é um maroto.
Criança como as outras, feliz e a tirar do bolso da avó o que ela desse.
- Ó avó, custa só cinquenta cêntimos! Dá lá…. Anda…
- Não dou, pago depois.
E ele foi e voltou com três tabletes de chocolate.
-Três?! –exclamou a avó.
 O dono do café, embaraçado, justificou o garoto:
 - Ele quis, eu deixei… Crianças. E, depois, três euros…
 A avó fingiu que se zangava.
- Ó meu malandro!
O miúdo riu-se e fugiu: sentou-se fora, a olhar para a Serra.
- A vida custa! – repetiu o Alfredo.
E eu comentei, para que não ficasse sozinho:
- Ai custa, custa!
Agarrou logo:
- Achas que isto vai piorar?
- Com certeza!
- E vão tirar-nos mais dinheiro?!
- Cada dia mais.
O Alfredo levantou-se e sentou-se, tirou e pôs os óculos:
- Estou indignado!
O miúdo continuava nas escadas, a morder as tabletes.
-Graças a Deus, graças a Deus, o meu sogro ajuda-nos! E com mil demónios, também sou gente! Professor Universitário! Jubilado! E roubam-me! Depois de uma vida de trabalho!
Espreitou-me, desconfiado.
- A ti não te roubam?
Alfredo tinha estudado em Lisboa e alugara um quarto para os lados da Amadora. Subira na vida, realmente, a pulso e olho esperto.
-A vida custa! Sai-nos do corpo! -insistiu.
O miúdo voltara para dentro e fiz-lhe uma festa na cabeça.  
Tenho um metro e oitenta e a criaturinha, metro e meio.
Senti, no meu braço, uma carícia: era a criança a retribuir-me o gesto.
Pensei em Deus, no menino Jesus, naqueles que ainda não morreram vivos e não queimam todos os dias a alma. Sim: marejaram-se-me os olhos.
- Isto é indecente! Indecente!
A lengalenga do Alfredo.
E pensei, também, que o Alfredo era, apenas, um velho e aquele breve afago me aquecia. Acreditei que isto é mais do que isto, enquanto aquela criança não crescer, porque o andar dos anos destrói a pureza e multiplica os Alfredos.

Manuel Poppe, Natal de 2013

15/07/2014

Convite

O meu amigo João Menéres, do Grifo Planante, honrou-me com este convite. 

Muito obrigada. Respondendo:


 O mundo seria muito mais feliz se ...
o homem procurasse a maravilha.

Uma amizade é realmente importante quando ...
a verdade impera.

Paciência e tolerância são para mim ...
da primeira, tenho pouca, daí que o cúmulo da paciência é esperar com um sorriso :)); 
da segunda, aceitar sem reservas as diferenças.

Algo que me irrita profundamente é ...
a soberba.

Acho que as pessoas mais humildes ...
 estão mais receptivas à luz.

Quando o dia amanhece nublado eu ...
recordo Dom Sebastião... e sorrio porque ele trará o sol. :))

Uma qualidade indispensável nas pessoas é ...
saber escutar, observar, dar um abraço nas horas amargas.


Para concretizar a gentileza do João tenho que convidar seis amigas.
Vou fazer por ordem alfabética. À semelhança do que afirmou o meu amigo João, sintam-se à vontade para não aceitar o convite.

1. Cláudia- desafio - um livro para cada deixa -Livraria Lumière
2. Isabel -Palavras Daqui e Dali
3. Jane Gatti -Viver em prosa e verso
4. Margarida Elias - Memórias e Imagens
5. Maria João Falcão - O Falcão de Jade
6. Sandra -Presépio no Canal

 Finalmente para o João e para a Isabel que, entretanto, também me convidou deixo estas
ipomeias exuberantes. :))


13/07/2014

Aprazíveis Diálogos - VI

Deslocando-me agora para sul, chego à nossa capital. Lisboa amanhece com uma luz inconfundível. A primeira pessoa que convidei para estes diálogos aprazíveis foi a primeira visitante assídua deste (In) Cultura. Muito obrigada, Margarida.

Sigam-me:
e encontramos a magnífica porta e o texto escolhidos pela Margarida. 

 Música composta por Nobuo Uematsu para Final Fantasy - Behind the Door.

12/07/2014

" o Tempo"


Mário Vitória, Semeando Espelhos no Escuro da Perspectiva- Alice na Cidade.                     (Sem título)
Edifício Chiado, Museu da Cidade, Coimbra



Os relógios e os calendários não existem para nos recordar o Tempo que esquecemos, mas para regulamentar o nosso relacionamento com os outros - na verdade, com toda a sociedade -, e é nesse sentido que os usamos.

Orhan Pamuk, O Museu da Inocência (tradução de Miguel Romeira). Lisboa: Editorial Presença, 2010, p. 354.

O tempo sempre ele a recordar-nos que há passado, presente e futuro...
No livro de Pamuk, o tempo é a chave do linear, do improvável provado...  desfecho? 
O futuro é tangível.

10/07/2014

Desordem no jardim

Desordem no jardim



A desordem também tem cor e arte: 
é fruto da queda... quando acordamos do sonho.

A arte é um esquivar-se a agir, ou a viver. «A. de C. (?) ou L. do D. (ou outra coisa qualquer)» 

A arte é um esquivar-se a agir, ou a viver. A arte é a expressão intelectual da emoção, distinta da vida, que é a expressão volitiva da emoção. O que não temos, ou não ousamos, ou não conseguimos, podemos possuí-lo em sonho, e é com esse sonho que fazemos arte. Outras vezes a emoção é a tal ponto forte que, embora reduzida a acção, a acção, a que se reduziu, não a satisfaz; com a emoção que sobra, que ficou inexpressa na vida, se forma a obra de arte. Assim, há dois tipos de artista: o que exprime o que não tem e o que exprime o que sobrou do que teve. 

s.d.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego. Vol.II.  (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1990, p. 500.

 

07/07/2014

A Chave

O Museu da Inocência, de Orhan Pamuk , é o livro que ando a ler. A partir da sua escrita nasceu o museu em Istambul. Do livro para a realidade.
Tantos objectos, flores, pedras, fotografias [hoje, nem tanto pois guardam-se em arquivos de imagem] e pequenos nadas que coleccionamos fazem parte do nosso quotidiano e contam uma história. As imagens são retiradas do Google. Escolhi as chaves e o relógio por dois motivos especiais:
- A chave porque ela abre as portas da memória e simboliza a vitória sobre enigmas.
- O relógio indicador das horas porque elas marcam o nosso caminho e não voltam atrás e ainda, porque um dos meus sonhos era ter uma caixinha de música com uma bailarina como se vê na imagem.
- A flor, o cavalinho, o coração... porque são pequenos objectos que colocamos numa caixa.
- O vestido, o leque, o colar... porque há vestidos e adereços que marcam pequenas alegrias

A curiosidade sobre este livro partiu do registo de MR, a quem agradeço.


Imagens do Museu da Inocência, Istambul


Se num sonho um homem pudesse atravessar o Paraíso, sendo-lhe oferecida uma flor como garantia de a sua alma ter realmente ali estado, e ao acordar visse a flor na sua mão... Sim? E depois? 

dos cadernos de Samuel Tayler Coleridge  [poeta, crítico e ensaísta inglês].

Citação no início do livro. Orhan Pamuk, O Museu da Inocência. Lisboa: Editorial Presença. 2010, s/nº p. 


04/07/2014

Rainha Santa Isabel

Detalhes de uma tela sobre a Rainha Santa, D. Isabel de Aragão e Portugal (século XVII). Intitulei-a o Milagre das Rosas, o autor não está identificado. Está colocada num retábulo do altar do lado direito, após o transepto, na Sé Velha.




Comemora-se o aniversário do seu falecimento, data assinalada no dia 4 de Julho de 1336, em Estremoz. Nasceu em 1271 (dia?) em Saragoça, no palácio Aljafería depois de ser conquistado pelos reis cristãos de Aragão.

03/07/2014

01/07/2014

Aprazíveis Diálogos - V

Do Fundão recebi, com prazer, o texto de AC do blogue Interioridades que de mansinho, levemente, entrou pela janela aberta de par em par. Muito obrigada. 

Constant Moyaux (1835-1911) - View of Rome from the Artist’s Room at the Villa Medici, 1863

File:Constant Moyaux - View of Rome from the Artist’s Room at the Villa Medici.jpg


SUSTENTÁVEL LEVEZA 

 Sentias o fogo latente, o corpo a reclamar. A chama, incandescente, conduzia-te os sonhos, o peito era escudo onde tudo resvalava. Sentias a poesia na descoberta da noite infinita, na magia do despertar da aurora, na terra onde tudo continuava por lavrar. Intuíste novas palavras, novas linguagens. 

Quando aprendeste a pousar, suavemente, no aroma das alfazemas, já sabias que tudo continuava por fazer. Mas passaste a sentir, cada vez mais, o sereno sinal que da alma emana. 

AC




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