Na zona de grande Lisboa, o amigo Manuel Poppe (Estoril) do blogue Sobre o Risco, foi uma das pessoas que por aqui passou. O que nos uniu foi a paixão pelo Panteão de Agrippa e a bela cidade de Roma. Atendendo ao meu pedido, o que muito agradeço, o Manuel enviou-me [nas suas palavras] o seguinte "contarelo":
A mão de Deus
À memória de Luciana Piai, bela
veneziana, jovem mulher pura, amiga fiel, morta antes do tempo, com a saudade e
a ternura que me ficaram para sempre
Manuel Poppe, Telavive, Foto Dizza
- A vida custa! – desabafou Alfredo.
Sempre que saía de casa e ia respirar ar
puro ao cafezinho da Malveira, a espreitar a serra de Sintra, encontrava o
Alfredo. É um homem bom, vindo de Chaves, que estudou e se reformou professor universitário.
Tem o hábito de tirar e pôr os óculos de
falsa tartaruga, olhar o infinito, e dizer coisas profundas. Depois, suspira e
goza a própria lucidez.
Conhecemo-nos há muitos anos: desde a Faculdade.
Era pobre, mas casou rico. Hoje, além
dos óculos, arranjou um modo de viver com os outros: a condescendência. Porquê?
Porque há no fundo dele, na barriguinha dele, no umbigo dele, o sonho de poder
ser condescendente, generoso, paternal.
Dos bancos da Faculdade, ficou-me vê-lo
saltar para o palco do anfiteatro maior e gritar uns versos épicos,
entusiásticos, lusitanos; do dia-a-dia, lembro, com meiga ironia, o seu
improvisado francês e a obsessão de uma senhora, que nunca conheci, a quem
chamava “a minha marrraine”, com os três erres.
- É verdade, Alfredo, a vida custa.
Foi quando ele tirou os óculos e me
fitou, incisivo:
- Não tenhas dúvidas! Isto é uma pouca-vergonha!
Ainda agora…
E falou-me do que já lhe roubara o
governo, a ele, Alfredo, catedrático jubilado, latinista conhecido e admirado.
-E citado! -sublinhou.
Graças a Deus o sogro, senhor de uma
rede hoteleira, ainda era vivo e o negócio prosperava. Se não…
- Vivo e rico! -sublinhava Alfredo.
E a mulher aplaudia, na casa que
o sogro lhes oferecera e onde viviam os dois com os dois filhos.
- Se não fosse isso!
Não lhe perguntei o que seria se não
fosse isso.
Na mesa ao lado, estava uma senhora, com
o neto.
- Quantos anos tem o seu neto?
-perguntei-lhe.
- Oito. E já é um maroto.
Criança como as outras, feliz e a tirar
do bolso da avó o que ela desse.
- Ó avó, custa só cinquenta cêntimos! Dá
lá…. Anda…
- Não dou, pago depois.
E ele foi e voltou com três tabletes de
chocolate.
-Três?! –exclamou a avó.
O dono do café, embaraçado, justificou o
garoto:
- Ele quis, eu deixei… Crianças. E,
depois, três euros…
A avó fingiu que se zangava.
- Ó meu malandro!
O miúdo riu-se e fugiu: sentou-se fora,
a olhar para a Serra.
- A vida custa! – repetiu o Alfredo.
E eu comentei, para que não ficasse
sozinho:
- Ai custa, custa!
Agarrou logo:
- Achas que isto vai piorar?
- Com certeza!
- E vão tirar-nos mais dinheiro?!
- Cada dia mais.
O Alfredo levantou-se e sentou-se, tirou
e pôs os óculos:
- Estou indignado!
O miúdo continuava nas escadas, a morder
as tabletes.
-Graças a Deus, graças a Deus, o meu
sogro ajuda-nos! E com mil demónios, também sou gente! Professor Universitário!
Jubilado! E roubam-me! Depois de uma vida de trabalho!
Espreitou-me, desconfiado.
- A ti não te roubam?
Alfredo tinha estudado em Lisboa e
alugara um quarto para os lados da Amadora. Subira na vida, realmente, a pulso
e olho esperto.
-A vida custa! Sai-nos do corpo! -insistiu.
O miúdo voltara para dentro e fiz-lhe uma
festa na cabeça.
Tenho um metro e oitenta e a criaturinha,
metro e meio.
Senti, no meu braço, uma carícia: era a
criança a retribuir-me o gesto.
Pensei em Deus, no menino Jesus,
naqueles que ainda não morreram vivos e não queimam todos os dias a alma. Sim:
marejaram-se-me os olhos.
- Isto é indecente! Indecente!
A lengalenga do Alfredo.
E pensei, também, que o Alfredo era,
apenas, um velho e aquele breve afago me aquecia. Acreditei que isto é mais do
que isto, enquanto aquela criança não crescer, porque o andar dos anos destrói
a pureza e multiplica os Alfredos.
Manuel Poppe, Natal de 2013