11/04/2014

Pujança primaveril

silêncio só raramente é vazio
 diz alguma coisa 
 diz o que não é

José Tolentino Mendonça, in A Papoila e o Monge

A Primavera em toda a sua pujança.
As primeiras papoilas 

Por dentro da flor, estames 

Georgia O'Keeffe, Papoilas
poppies

Diáfanas

A ária "Je crois entendre encore", da ópera Les pêcheurs de perles, é triste embora a Primavera seja alegria.
Contrastes do dia: manhã com passeio matinal exuberante de sol
e a noite escura  com "Je crois entendre encore".

09/04/2014

Sete triângulos pretos - sete mares

Sete é um dos números simbólicos que mais gosto.

Detalhe do Mosaico do Oceanus, datado do século II/III, estaria integrado num edifício público ligado às actividades marítimas, talvez sede de uma corporação profissional (schola). 
Museu Municipal de Faro


SETE MARES

Tem mil anos uma história
De viver
Há mil anos de memória a contar
Ai, cidade à beira-mar
Azul

Se os mares são só sete
Há mais terra do que mar ...
Voltarei amor com a força da maré
Ai, cidade à beira-mar
Ao sul

Hoje
Num vento do norte
Fogo de outra sorte
Sigo para o sul
Sete mares

Foram tantas as tormentas
Que tivemos de enfrentar...
Chegarei amor na volta da maré
Ai, troquei-te por um mar
Sete Mares

Hoje
Num vento do norte
Fogo de outra sorte
Sigo para o sul
Sete Mares

Música e letra do grupo Sétima Legião (nome da legião romana que veio para a Lusitânia)

07/04/2014

O meu lírio - ... Esperança



Vincent Van Gogh, detalhe de Lírios, 1890,
Museu Van Gogh, Amesterdão


POEMA DE CANÇÃO SOBRE A ESPERANÇA
               I
Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios —
Os melhores lírios —
E as melhores rosas
Sem receber nada.
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.

17-6-1929 

Álvaro de Campos, Livro de Versos. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993, p. 106.

05/04/2014

A Flor, Redacções da Guidinha

Um regresso ao passado devido à nostálgica chuva persistente. 
Guidinha, um nome que me é caro. Assim se regista esta homenagem a Luís de Sttau Monteiro que nasceu a 3 de Abril de 1926 e faleceu a 23 de Julho de 1993. Foi escritor, jornalista e dramaturgo. Tinha um notável sentido de humor.

Redacções da Guidinha, ilustração de Luís Osório
A Flor
As flores não se comem e é por isso que elas não têm medo de crescer nos caminhos e nos parques porque se as flores fossem de comer já havia grémio das flores e outras coisas iguais e vai de vez em quando a gente ficava a vê-las por um óculo como acontece ao bacalhau que não é flor e que se come mas as flores têm graça porque não se comem mas bebem-se quando a Vovó começa a falar alto ao jantar e a dizer mal de um senhor que se chama Kaiser e que parece que já morreu mas ela não acredita e diz que a culpa de tudo é dele a minha Mãe dá-lhe chá de flor de laranjeira e manda-a para a cama e às vezes não é preciso chamar o doutor mas às vezes é aqui ao lado mora uma senhora chamada D. Lisabete que tem flores num caixote à janela e rega-as todos os dias com uma cafeteira que comprou com tampas de detergente e mais cinco escudos que é o preço da cafeteira mesmo para quem não tem tampas de detergente e a água cai por um buraquinho que há no caixote em cima das pessoas que passam na rua e elas ficam danadas e gritam cá para cima a mandar a D Lisabete fazer chichi para casa do Diabo o que é muito mal criado e indecente porque a D. Lisabete faz muito pouco chichi porque tem uma doença coitadinha que se chama retenção e às vezes tem de ir fazer ao médico mas não se pode falar nisso porque eu uma vez vi-a chegar a casa e perguntei-lhe se ela tinha feito uma boa chicha no médico que sabe tão bem e ia levando com uma galheta sabe-se lá porquê o que também tem graça nas flores são os bilhetes que vêm com elas uma vez um rapaz que trabalha na florista da esquina trouxe um ramo à menina Odette e no meio havia um bilhete que dizia aqui vão amores-perfeitos para celebrar um amor-perfeito mas é mentira que lá em casa  da menina Odette não estavam a celebrar nada...

Luís de Sttau Monteiro, Redacções da Guidinha. (Ilustradas por Luís Osório) Lisboa: Ática, 1971, p. 127-128.
(Crónicas publicadas no Diário de Lisboa entre 1969 e 1970)

03/04/2014

Une Comédie au printemps

Odette Toulemonde é um filme francês, uma comédia realizada por Éric-Emmanuel Schmitt. Estreou em 2007. Um filme leve, despretensioso e que nos faz sorrir. Só o vi agora. Os críticos atribuíram desde duas estrelas e meia a quatro estrelas, uma crítica diversificada. Pessoalmente, não o colocaria na minha lista mas é engraçado. Um filme para a Primavera. 
Escolhi os dois pintores, pai e filho, Pieter Brueghel, o Velho, e Pieter Brueghel, o Novo/Jovem, por causa dos seus quotidianos riquíssimos.
Não é a vida um retalho de quotidianos?

Pieter Brueghel, o Novo, Primavera

File:Pieter Brueghel the Younger, Spring, oil on panel, Sotheby's.jpg

Pieter Brueghel, o Velho, Primavera, 1565

01/04/2014

"Ce matin les premières roses"

A todos deixo estas flores com o meu agradecimento.
Logo que possa visitarei todos.

Detalhe de um Poisson d'Avril - 1 de Abril

Un poisson d’avril est une plaisanterie, voire un canular, que l’on fait le 1er avril à ses connaissances ou à ses amis. Il est aussi de coutume de faire des canulars dans les médias, aussi bien presse écrite, radio, télévision que sur Internet.
Pour les enfants, il consiste à accrocher un poisson de papier dans le dos de personnes dont on veut se gausser. « Poisson d’avril ! » est aussi l’exclamation que l’on pousse une fois qu’une des plaisanteries est découverte.
Poisson d'Avril


Maria Callas A Voce poco fa

30/03/2014

Regressos à infância


Estranhos são os regressos à infância.
Há sempre nós que se embaraçam
e laços que não se apertam.

Estranhos são os regressos à infância.
Há pequenos cacos entesourados
que persistem na memória.

Há pequenos nadas que se registam,
aparecendo a sombra do que foi.
Canções de embalar perdidas,
risos e choros sentidos.

Ouve-se a cascata que jorra
em sussurros distintos,
relógios que se adivinham com ponteiros surrealistas
e os momentos são pedaços que não encaixam.

Da infância, um livro com poucas imagens e muito texto.


27/03/2014

Urtigas com "Palavras Aladas"

Urtigas "são folhas no chão".

PALAVRAS ALADAS

Palavras aladas
Soltas no tempo
Rumo ao horizonte
Onde o sol abrasa
Linha tangente.
Um sabor a sal 
A mel e a limão
As palavras vão
Escoradas na brisa
São folhas no chão.
Tapete de cores
Pinturas reais
Voo de gaivotas
Suspiros e ais.
Nas ruas largas,
Estreitas ou escuras
Lavadas pela chuva
As palavras aladas
Rasam as alturas.
Rumando para Norte
Para Sul e para Poente
Do Nascente acenam
Vontades e sonhos
Num veleiro qualquer.
As palavras aladas
Vão para onde tu vais.

Maria José Carvalho Areal, Sabor a Sal e a Mel. Tui: Gráficas Juvia, 2006,  p. 127-128.

Obrigada Cláudia.

25/03/2014

Leituras em dia - III, da Agustina a Kim Young-ha

Ando a ler Agustina Bessa-Luís, O Mosteiro, mas tive que fazer uma pausa pois a densidade da escrita assim mo impôs.  O cansaço talvez seja o motivo maior. 
Numa passagem pela FNAC encontrei um livro que me despertou o interesse, cheguei até ele através da capa que trazia o quadro: A Morte de Marat. O título do livro, um tanto bizarro, levou-me a folheá-lo e acabei por o comprar. Tenho o direito de me destruir de Kim Young-ha começa assim:

«Estou a olhar para o quadro de Jacques-Louis David de 1793, A morte de Marat, reproduzido num livro de pintura. O revolucionário Jean-Paul Marat jaz assassinado na banheira. Tem a cabeça envolta numa toalha, como se de um turbante se tratasse, e a mão, caída ao lado da banheira, segura uma pena. Marat apagou-se, esvaído em sangue, por entre tons brancos e verdes. A obra transmite uma sensação de calma e silêncio. Quase se pode ouvir um requiem. A arma fatal, uma faca, está abandonada no chão, ao fundo da tela.
Já tentei várias vezes fazer uma cópia deste quadro. A parte mais difícil é a expressão de Marat; fica sempre com um ar demasiado sedado. No Marat de David, não se vê o desânimo de um jovem revolucionário perante um ataque inesperado, nem o alívio de um homem que se libertou finalmente das dores da vida. (...)
David compreendeu o imperativo estético dos jacobinos: uma revolução não pode avançar sem ser incendiada pelo terror.»
Kim Young-ha, Tenho o direito de me destruir. Lisboa: Teorema, 2013, p. 7 e 8.

Jacques-Louis David, A morte de Marat, 1793, Musées Royaux des Beaux-Arts
( Wikipedia)
Ficheiro:Death of Marat by David.jpg



A Morte de Marat (detalhe), óleo sobre tela por Jacques Louis David (1748-1825, France)
(Imagens retiradas da Wikipedia)

Kim Young-ha nasceu em 1968 em Hwacheon, na Coreia do Sul. Licenciou-se em gestão na Universidade de Yonsei, Seul, mas acabou por se dedicar à escrita. (...) Foi professor na Escola de Teatro da Universidade Nacional das Artes da Coreia. (...) Actualmente, é cronista do International New York Times. O livro assinalado venceu o Prémio Munhak-dogne na Coreia do Sul. (*Informações retiradas do livro).
Críticas nos principais jornais:
Kim é um esteta do crime. Com um cinismo irresistível, oferece-nos um romance ímpar sobre a arte, o amor e a morte.[*]
Le Monde

O romance de Kim é arte sobre arte. O seu estilo tem reminiscências de Kafka, Camus e Sartre, território arriscado para um jovem escritor. [*]
Los Angeles Times

Com este romance, Kim ganhou um lugar de culto nas letras coreanas. [*]
Der Spiegel

23/03/2014

"... e em Em Itália Pintam a Luz"

A sala que antecede a biblioteca do Museu Nacional de Arte Antiga albergou o núcleo 9 da exposição.: 
A Paisagem Nórdica do Prado.

O núcleo 9 intitula-se ... e na Itália pintam a luz, esta sala apresenta paisagens encomendadas pelo rei Felipe IV de Espanha a Claude Lorrain e a Jan Both, para decorar o Palácio do Bom Retiro de Madrid. 

A beleza do pormenor

Reparem no olhar deliciado deste menino

A exposição A Paisagem Nórdica do Prado encontra-se dividida em nove núcleos, correspondentes às diversas tipologias da paisagem, surgidas na Flandres e na Holanda: “A Montanha: encruzilhada de caminhos”, “O Bosque como Cenário: a vida no bosque, o bosque bíblico e a floresta encantada, encontro de viajantes”, “Rubens e a Paisagem”, “A Vida no Campo”, “No Jardim do Palácio”, “Paisagem de Gelo e de Neve”, “Paisagem de Água: marinhas, praias, portos e rios”, “Paisagens Exóticas, Terras Longínquas” e, ainda, “Em Itália Pintam a Luz”. (link)

As minhas desculpas mas estava tanta gente que não consegui tirar uma foto melhor.

6
Novo retrato da amada

Elas 
Aonde foi o teu amado,
ó mais bela das mulheres?
Aonde foi o teu amado?
E nós o buscaremos contigo.
*
Cântico dos Cânticos  - Antigo Testamento com ilustrações de Marc Chagall (Tradução José Tolentino de Mendonça). Relógio de Água, 2013, p. 388 [*]

Herman van Swanevelt, Paisagem com monge cartuxo, 1636-37,
corresponde à tela da direita na segunda fotografia

*
Ela
O meu amado desceu ao seu jardim,
ao canteiro dos aromas,
para apascentar nos jardins
e para colher lírios.
Eu sou para o meu amado e o meu amado é para mim,
ele é o pastor entre os lírios. [*]



21/03/2014

My funny Valentine


My Funny Valentine

My funny valentine
Sweet comic valentine
You make me smile with my heart
Your looks are laughable
Unphotographable
Yet youre my favourite work of art

Is your figure less than greek
Is your mouth a little weak
When you open it to speak
Are you smart?

But dont change a hair for me
Not if you care for me
Stay little valentine stay
Each day is valentines day

Is your figure less than greek
Is your mouth a little weak
When you open it to speak
Are you smart?

But dont you change one hair for me
Not if you care for me
Stay little valentine stay
Each day is valentines day

Letra de Lorenz Hart (1937) e música de Richard Rodgers

19/03/2014

Uma pintura que casa bem com arrependimento

Mistakes :((
James Joyce, cortesia do Google
***

Uma das minhas escolhas da exposição de Paisagem Nórdica do Museu do Prado 
patente no Museu Nacional de Arte Antiga até dia 30 de Março.

Claude Gellée, dito Claude Lorrain, Paisagem com monja mercedária, 1636-1639


«Esta monja foi identificada como Santa Maria de Cervelló, cofundadora do ramo feminino da ordem mercedária. No entanto, não consta que viveu eremita, mas sim que viveu toda a sua vida em Barcelona, o que permitiria identificar a figura com a Beata Mariana de Jesus, que viveu retirada numa pequena casa com um horto, nas imediações do convento das mercedárias de Madrid, onde entrou em 1613».
Registo retirado da informação exposta na exposição do MNAA.





16/03/2014

Voar para onde?

File:SORVESUV.JPGDesejava voar para Sorrento.

Vi o filme da dinamarquesa Susanne Bier, "Love is All You Need".
É um filme trivial, uma comédia romântica, onde se cruzam várias vidas de estrato social diferente. A película tem a beleza de uma parte ser passada em Sorrento e na costa de Amalfi.

Fotografias da Wikipedia.


Torquato Tassi, poeta sorrentino do século XVI (1544-1595):
O amor é um desejo de beleza


O que o mundo chama de mérito e valor 
são ídolos que têm apenas nome, mas nenhuma essência. 
A fama que vos encanta, vós altivos mortais, 
com um doce som, e que parece tão bela 
é um eco, um sonho, melhor que um sonho, uma sombra, 
que a cada sopro de vento se dispersa e desaparece.

Torquato Tasso, in  Jerusalém Libertada (citador)

Jacob Philipp Hackert                                                      The Waterfalls at Terni, 1779

Image: Jacob Philipp Hackert -


Em reposição (várias)

14/03/2014

Où allons-nous?


D' où venons-nous?
Que sommes-nous?
Où allons-nous? [...]

Paul Gauguin, in  [clicar no link]
André Comte- Sponville, Pensées sur la sagesse
Paris: Carnets de philosophie/Albin Michel, 2000, p. 64-65.

11/03/2014

Leituras em dia - II, cansaço e outras coisas

Boticelli, A Tragédia de Lucrécia, detalhe,
1496-1504, Isabella Stewart Gardner Museum, Boston
File:Lucretia detail.jpg

Os dias correm e o cansaço instala-se inesperadamente, contra a corrente.
Não estamos em tempos de cansaço...

- Preferia não o fazer.
- Preferia não o fazer! - repeti eu, como um eco, levantando-me excitado e atravessando o aposento de uma passada. - O que quer dizer? Está louco? Quero que me ajude a conferir esta folha. Tome!- e estendi-lha.
- Preferia não o fazer - repetiu.

Herman Melville, Bartleby. Lisboa: Assírio e Alvim, 2010, p. 27.


Um conto absurdo, no encalço de Kafka, do escritor de Moby Dick.
Obrigada Maria João, já o li há algum tempo.
Às vezes dá vontade de ser como Bartleby.

08/03/2014

Mulher

Às mulheres portugueses que hoje sentem dor 
por haver menos pão para alimentar os filhos.

Tricana, detalhe, Mestre Alves André, Quebra Costas, Coimbra

Aos filhos

Já nada nos pertence,
nem a nossa miséria.
O que vos deixaremos
a vós roubaremos.

Toda a vida estivemos
sentados sobre a morte,
sobre a nossa própria morte!
Agora como morreremos?

Estes são tempos de
que não ficará memória,
alguma glória teríamos
fôramos ao menos infames.

Comprámos e não pagámos,
faltámos a encontros:
nem sequer quando errámos
fizemos grande coisa?

Manuel António Pina (daqui)

06/03/2014

Leituras em dia, afectos e outras coisas

Há dias acabei de ler Na Eira dos Pardais, Contos, oferecido pela Cláudia, da Livraria Lumière, a quem deixo o meu agradecimento. 
O livro de Maria José Carvalho Areal tem para mim uma característica peculiar: a anteceder o conto surge um poema que tem no seu cerne a matéria da história. Extremamente inovador. 
Iniciamos a viagem nos anos 40, seguem-se os anos 50 e terminamos nos anos 60, o país de Salazar com todas as suas idiossincrasias. A narrativa oferece-nos afectos e memórias, percursos de vida, que num ou noutro ponto se cruzam com as nossas vivências. Um livro que faz sorrir apesar de algumas histórias tocarem o drama de algumas das personagens.

Um livro que recomendo felicitando a autora.

A Maria José, 
Agradeço a dedicatória que gentilmente escreveu.

"Fora criada e educada a preceito, e em conformidade com as normas preconizadas para a época em que havia nascido. Sabia ler e escrever, bordar, tecer e cozinhar. Não tinha ido para a universidade como os seus seis primos e os seus quatro tios, por ter nascido mulher. A mesma sina tinha acontecido a sua mãe." (in A Eira dos Pardais, p. 12)*

"- As aulas do Mestre deixam-me um sabor amargo. Não há história nem texto onde a mulher possa ter ou tenha tido, um destino diferente: Escuta, obedece, serve, atende... quase não pensa. Tudo é decidido como se ela não fizesse parte do universo. Tudo se resume ao que ele quer, deseja, e considera adequado ao mundo e à vida." (in A Eira dos Pardais, p. 13)*

"Eva deixou a faculdade, a casa, o cais, o rio... e passou o tempo no quarto do hospital, onde Gonçalo permanecia em luta pela vida.
Ali deitado expunha a vulnerabilidade do Homem e a sua impotência em expurgar os medos e receios e mesmo mudar o rumo da vida." (in Eva, p. 109)*

*Maria José Carvalho Areal, Na Eira dos Pardais, Contos.  Lisboa: Chiado Editora, 2013.

Quel passagier sono io, escolha influenciada pelo "Rio do tempo" poema e conto
de Maria José Carvalho Areal

 Para as duas Senhoras que me proporcionaram a viagem.

05/03/2014

A piece of [he] art

Uma peça de arte [que dói] foi como vi a película: Monuments Men de George Clooney. 
Baseado numa história real a ficção leva-nos a equacionar:
- O saque, despojos da humanidade e despojos privados... de gente inocente;
- O duplo aspecto da vida e da morte, da peça como objecto vivo que morre destruída e dos homens que morreram no resgate das obras desaparecidas. 

O que vale a arte e o que vale a vida?
Vence a intemporalidade.

O filme levou-me a reencontrar virtualmente o Retábulo de Gand e a Madonna de Bruges.

Jan Van Eyck, Retábulo de Gand, "O Cordeiro Místico", 1390-1441,
detalhe: Virgem Maria*


Detalhe:Eva *


Jan Van Eyck, Retábulo de Gand, "O Cordeiro Místico", 1390-1441
Ficheiro:Retable de l'Agneau mystique.jpg
Link

Detalhe Madonna de Bruges de Miguel Ângelo





03/03/2014

Diavoli

Máscara, Exposição de máscaras 
do Museu do Oriente no Centro Cultural Adriano Moreira, Bragança.

De' diavoli iscacciati di cielo

Già fummo, or non siam più,
spirti beati; per la superbia nostra
siàno stati dal ciel tutti scacciati;
E in questa città vostra
abbiàn preso il governo,
perché qui si dimostra
confusion, dolor più che in inferno.

E fame e guerra e sangue e diaccio e foco,
sopra ciascun mortale,
abbiàn messo nel mondo a poco a poco;
E ’n questo carnovale
vegnàno a star con voi,
perché di ciascun male
fatti siàno e saren principio noi.

Plutone è questo, e Proserpina è quella
ch’a lato se gli posa;
Donna sopra ogni donna al mondo bella.
Amor vince ogni cosa;
Però vinse costui,
che mai non si riposa,
perch’ognun faccia quel ch’ha fatto lui.

Ogni contento e scontento d’amore
da noi è generato,
e ’l pianto e ’l riso e ’l diletto e ’l dolore,
chi fussi innamorato,
segua il nostro volere
e sarà contentato;
Perché d’ogni mal far pigliàn piacere.

Poema de Nicolau Maquiavel para uma música de Alessandro Cappinus feita para o Carnaval de Veneza, em 1502. (Daqui)

Agradeço ao meu amigo Manuel Poppe a tradução do poema de Maquiavel.
Tradução colocada a 9 de Março, 19:35 h]

Dos diabos expulsos do céu

Já fomos, agora já não somos
 espíritos felizes.
Pela nossa soberba
fomos do expulsos  do céu.
E nesta vossa cidade
Conquistámos o governo,
Pois aqui reina a confusão,
dor mais forte do que a do inferno.

E fome e guerra e sangue e aço e fogo,
Sobre os mortais
lançámos nós no mundo, pouco a pouco.
E partilhamos convosco este Carnaval:
de cada mal feito, somos e seremos o princípio.

Este é Plutão, aquela Proserpina
que se senta ao seu lado,
mulher mais bela do que todas as outras  mulheres belas.
O Amor tudo vence.
Mas venceu aquele que não tem repouso,
para que cada um faça como ele fez.

Todo o contentamento e o descontentamento do amor
é por nós gerado,
tal qual o pranto e o riso e o prazer e a dor,
Quem esteja enamorado
 Siga o nosso querer
E será contentado.
De todo o mal, nós tiramos prazer.

Manuel Poppe
«A 9 de Janeiro de 1975 foi nomeado Conselheiro Cultural junto da embaixada portuguesa em Roma. E, a partir dessa data, iniciou a sua «peregrinação» pelo mundo: visitou 4 países e 3 continentes. A sua primeira estadia em Roma, durante quinze anos, marcou profundamente Manuel Poppe, sobretudo, pelo facto de «deixar Portugal ainda ferido de quase cinquenta anos de obscurantismo e chegar a Itália», que vivia outras condições políticas. Durante essa passagem por Itália que o escritor português considera como «miscelânea, soma de sensações, de leituras e de encontros». Além de obter o título académico de “Dottore in Lingue e Leterature Straniere”, pela Universidade “La Sapienza”, com uma tese sobre Régio, escreveu Crónicas Italianas (1984), publicada com apoio do Instituto Italiano de Cultura em Portugal. Nessa passagem, conheceu personagens importantes, quer no campo da cultura quer no campo da política, entre os quais podemos destacar: o socialista De Martino e os comunistas Berlinguer e Giancarlo Pajetta, o democrata-cristão Enzo Scotti, escritores como Giorgio Bassani, Moravia e Claudio Magris, com os quais manteve relações estreitas e atrizes como Ingrid Thulin. Foi distinguido pelo antigo italiano presidente italiano Sandro Pertini com a comenda da Ordem de Mérito e pelas cidades de Florença e Veneza com as respetivas Medalhas de Ouro.»
A sua gentileza nesta difícil tradução leva-me a deixar aqui um beijinho especial.

Jordi Savall, viola da gamba, Rolf Lislevand, guitarra barroca, Arianna Savall, arpa, Pedro Estevan, percussão, Adela Gonzalez-Campa, castanholas.

01/03/2014

Magnólias e arte


Em sintonia com João Menéres 
Grifo Planante
As minhas magnólias


Desprovida de ideias, olho para as minhas magnólias e não sei se elas por si só, na sua essência, serão arte. 


Denis Huisman, A Estética. Lisboa: Edições 70, 2013, p.122.


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