26/02/2014

A noite chegou

Castelo de Penela

A noite chegou fria e triste, 
embora a luz festiva persista.
Foram os ventos de leste:
- trouxeram a morte anunciada.

Gemeram as guitarras, choraram os homens.
Na areia quente do sul 
o solstício de Verão adormeceu
lembrando que no norte há morte no Inverno.

(para Paco de Lucia)

Em sintonia com o Prosimetron


Cinema e leituras...

Saving Mr Banks (de John Lee Hancock) ficou aquém das minhas expectativas. Emma Thompson é perfeita no papel de Pamela Travers. Liguei a película ao livro que ando a ler. Quem viu o filme ou quem for ver perceberá o porquê.

«Sabe, meu caro senhor, o que é a desilusão?» perguntou, num tom baixo e apressado, agarrando a bengala com ambas as mãos. «Não o mau êxito em pequenos assuntos insignificantes, mas a desilusão grande, geral, que engloba tudo, o que faz parte da vida? Não, claro, não sabe. Mas eu tenho sido acompanhado por ela desde a juventude; ela tornou-me solitário, infeliz, e, não o nego, um pouco excêntrico.»

Thomas Mann, "Desilusão" in Os Melhores contos de Thomas Mann. (Selecção de Manuel de Seabra, prefácio de Domingos Monteiro, desenhos de Júlio Gil). Lisboa: Arcádia, 1958, p. 117. [Um livro que me é caro]

Pamela Lyndon Travers (anos cinquenta). Fotografia: Popperfoto/Getty Images
PL Travers, wrote Mary Poppins series of books

Julie Andrews em Mary Poppins, um filme genial. (wikipedia)


Julie Andrews continua linda.

24/02/2014

Um chá com Júlio Isidro...

*
Pela mão amiga de Maria Emília Matos e Silva [a quem agradeço] chegou-me o texto que apresento e que é digno de ser lido e relido.  Enquanto bebia o meu chá, na presença de Wenceslau de Moraes, retive-me no texto de Júlio Isidro, nele revi as minhas ideias...

«NÃO, NÃO ESTOU VELHO!!!!!! 
 NÃO SOU É SUFICIENTEMENTE NOVO PARA JÁ SABER TUDO! 


Passaram 40 anos de um sonho chamado Abril. E lembro-me do texto de Jorge de Sena…. Não quero morrer sem ver a cor da liberdade. Passaram quatro décadas e de súbito os
portugueses ficam a saber, em espanto, que são responsáveis de uma crise e que a têm que pagar…. civilizadamente, ordenadamente, no respeito das regras da democracia, com manifestações próprias das democracias e greves a que têm direito, mas demonstrando sempre o seu elevado espírito cívico, no sofrer e ….calar. Sou dos que acreditam na invenção desta crise. Um “directório” algures decidiu que as classes médias estavam a viver acima da média. E de repente verificou-se que todos os países estão a dever dinheiro uns aos outros…. a dívida soberana entrou no nosso vocabulário e invadiu o dia a dia. Serviu para despedir, cortar salários, regalias/direitos do chamado Estado Social e o valor do trabalho foi diminuído, embora um nosso ministro tenha dito decerto por lapso, que “o trabalho liberta”, frase escrita no portão de entrada de Auschwitz. Parece que alguém anda à procura de uma solução que se espera não seja final. Os homens nascem com direito à felicidade e não apenas à estrita e restrita sobrevivência. Foi perante o espanto dos portugueses que os velhos ficaram com muito menos do seu contrato com o Estado que se comprometia devolver o investimento de uma vida de trabalho.Mas, daqui a 20 anos isto resolve-se. Agora, os velhos atónitos, repartem o dinheiro entre os medicamentos e a comida. E ainda tem que dar para ajudar os filhos e netos num exercício de gestão impossível. A Igreja e tantas instituições de solidariedade fazem diariamente o miagre da multiplicação dos pães. Morrem mais velhos em solidão, dão por eles pelo cheiro, os passes sociais impedem-nos de sair de casa, suicidam-se mais pessoas, mata-se mais dentro de casa, maridos, mulheres e filhos mancham-se de sangue , 5% dos sem abrigo têm cursos superiores, consta que há cursos superiores de geração espontânea, mas 81.000 licenciados estão desempregados. Milhares de alunos saem das universidades porque não têm como pagar as propinas, enquanto que muitos desistem de estudar para procurar trabalho. Há 200.000 novos emigrantes, e o filme “Gaiola Dourada” faz um milhão de espectadores. Há terras do interior, sem centro de saúde, sem correios e sem finanças, e os festivais de verão estão cheios com bilhetes de centenas de euros. Há carros topo de gama para sortear e auto-estradas desertas. Na televisão a gente vê gente a fazer sexo explícito e explicitamente a revelar histórias de vida que exaltam a boçalidade. Há 50.000 trabalhadores rurais que abandonaram os campos, mas há as grandes vitórias da venda de dívida pública a taxas muito mais altas do que outros países intervencionados. Há romances de ajustes de contas entre políticos e ex-políticos, mas tudo vai acabar em bem...estar para ambas as partes. Aumentam as mortes por problemas respiratórios consequência de carências alimentares e higiénicas, há enfermeiros a partir entre lágrimas para Inglaterra e Alemanha para ganharem muito mais do que 3 euros à hora, há o romance do senhor Hollande e o enredo do senhor Obama que tudo tem feito para que o SNS americano seja mesmo para todos os americanos. Também ele tem um sonho… Há a privatização de empresas portuguesas altamente lucrativas e outras que virão a ser lucrativas. Se são e podem vir a ser, porque é que se vendem? E há a saída à irlandesa quando eu preferia uma…à francesa. Há muita gente a opinar, alguns escondidos com o rabo de fora. E aprendemos neologismos como “inconseguimento” e “irrevogável” que quer dizer exactamente o contrário do que está escrito no dicionário. Mas há os penalties escalpelizados na TV em câmara lenta, muito lenta e muito discutidos, e muita conversa, muita conversa e nós, distraídos. E agora, já quase todos sabemos que existiu um pintor chamado Miró, nem que seja por via bancária. Surrealista… Mas há os meninos que têm que ir à escola nas férias para ter pequeno- almoço e almoço. E as mães que vão ao banco…. alimentar contra a fome , envergonhadamente , matar a fome dos seus meninos. É por estes meninos com a esperança de dias melhores prometidos para daqui a 20 anos, pelos velhos sem mais 20 anos de esperança de vida e pelos quarentões com a desconfiança de que não mudarão de vida, que eu não quero morrer sem ver a cor de uma nova liberdade.»

**

Júlio Isidro link

* Wenceslau de Moraes, O Culto do Chá. KOBE, Typographia do "Kobe Herald", gravuras de Gotô Seikôdô, 1905 (Illustrações de Yoshiaki), p. 21.
Edição Fac-simile Comemoração dos 500 anos da Biblioteca da Universidade de Coimbra, 2014.

Tenho umas três edições diferentes deste livrinho. Apesar disso adquiri este fac-simile.

** O Chá da avó, um dos serviços mais utilizados. Fábrica de Sacavém, Assinado Gilman [ou Gilman & Companhia] :)

21/02/2014

Torre de Menagem

Torre de Menagem, Bragança

Torre de Névoa

Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: “Que fantasia,

Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu! ...”

Calaram-se os poetas, tristemente ...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao céu! ...

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas" (link)


19/02/2014

Oxigenação

Um passeio ao sol no parque da cidade foi o bastante para oxigenação. 


Após o dilúvio...

O Inverno sereno à espera do manto primaveril

Flores  centenárias (?)

Acácias na sua luminescência profusa

Acácias no leito do rio

Querem uma Luz Melhor que a do Sol!

AH! QUEREM uma luz melhor que a do Sol! 
Querem prados mais verdes do que estes! 
Querem flores mais belas do que estas 
que vejo! 
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me. 
Mas, se acaso me descontentam, 
O que quero é um sol mais sol 
que o Sol, 
O que quero é prados mais prados 
que estes prados, 
O que quero é flores mais estas flores 
que estas flores - 
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!

Alberto Caeiro, in Poemas Inconjuntos (citador)

17/02/2014

"A imaginação, o nosso último santuário"

Revi o filme Comboio Nocturno para Lisboa. Pedaços de História portuguesa, flashback do Estado Novo. Uma história serena e misteriosa narrada pela personagem principal, Jeremy Irons (Raimund Gregorius). A realização da película é de Bille August (dinamarquês).
Não li o livro de Pascal Mercier que deu o argumento para o filme mas gostei das palavras lidas pela voz profunda de Jeremy Irons.

"A imaginação, o nosso último santuário".

“Nós homens, que sabemos uns dos outros?”



Foto: Trem Noturno Para Lisboa está em cartaz nesse fim de semana! Quem aqui vai te acompanhar no cinema?

Confira as salas onde o longa será exibido: http://ow.ly/rUZj3




15/02/2014

Maria Callas

Visitei Maria Callas, A Exposição de Lisboa no Museu da Electricidade quando se comemorou o cinquentenário da Traviata de Lisboa (1958-2008). Tirei várias fotografias que tenho arquivadas. Na altura comprei uns postais, agora recebi a colecção de marcadores que se pode observar. 
Agradeço a MR este belo conjunto. Dei-me conta que, apesar desta diva ser a minha favorita, não tenho nenhuma biografia sua. Tenho o filme de Zefirelli: Callas Forever que conta a sua história de vida, uma vida plena mas também trágica e solitária. 
Ter uma voz genial, ser a maior soprano de todos os tempos conduziu-a também ao desespero.  Aplica-se a frase de Alexandre Dumas, filho, da Dama das Camélias:

É mais fácil ser bom para toda a gente do que para alguém. [Neste caso ela própria]
(Cortesia do Google Wiquiquotes)



Maria Callas, Alfredo Kraus, Mario Sereni, Maria Cristina de Castro, Álvaro Malta, Orquestra Sinfónica Nacional, Coro do TNSC, Maestro - Franco Ghione,1958 


Tosca, uma ópera que me arrepia, no filme de Zeffirelli


13/02/2014

Cartas de amor? - Fernando Pessoa, Plural como o Universo

Cartas de amor?  

Exposição Fernando Pessoa, Plural como o Universo, Fundação Calouste Gulbenkian, concebida e organizada pela Fundação Roberto Marinho e pelo Museu da Língua Portuguesa de São Paulo.

[postal e carta de Ophélia para FP]

Cartas de amor

Como jurei,
Com verdade o amor que senti
Quantas noites em claro passei
A escrever para ti
Cartas banais
Que eram toda a razão do meu ser
Cartas grandes, extensas, iguais
Ao meu grande sofrer

Cartas de amor
Quem as não tem
Cartas de amor
Pedaços de dor
Sentidas de alguém
Cartas de amor, andorinhas
Que num vai e vem, levam bem
Saudades minhas
Cartas de amor, quem as não tem

Porém de ti
Nem sequer uma carta de amor
Uma carta vulgar recebi
Pra acalmar minha dor
Mas mesmo assim
Eu para ti não deixei de escrever
Pois bem sabes que tu para mim
És todo o meu viver

Cartas de amor
Quem as não tem
Cartas de amor
Pedaços de dor
Sentidas de alguém
Cartas de amor, andorinhas
Que num vai e vem, levam bem
Saudades minhas
Cartas de amor, quem as não tem

 Alves Coelho (filho)
Amor profano 
(canção cantada pelo tenor Davide Aires)

Amor espiritual [ou do Sagrado]

11/02/2014

Flowers

As flores fazem dos nossos dias um dia melhor. A sua beleza são afecto e poesia.

 Maria Van Oosterwijck, Flowers in a Decorative Vase, c. 1670-75,
 Royal Picture Gallery Mauritshuis, [Holanda]

File:Still Life with Flowers in a Decorative Vase, Oosterwijck.jpg

Para uma amiga: um dia feliz. :))

Maria Van Oosterwijck, Roses and Butterfly, Crocker Art Museum

File:Maria van Oosterwijk Still Life with Flowers after.jpg

Comprei esta flor, um pequeno nada, que me trouxe contentamento.


Fantasia. 

08/02/2014

Em diálogo ...

... ou melhor inspirada por João Menéres aqui ficam nenúfares captados no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, em 2012.


Mother, I shall weave a chain of pearls for thy neck
with my tears of sorrow.

The stars have wrought their anklets of light to deck thy feet,
but mine will hang upon thy breast.

Wealth and fame come from thee
and it is for thee to give or to withhold them.
But this my sorrow is absolutely mine own,
and when I bring it to thee as my offering
thou rewardest me with thy grace.

Rabindranath Tagore

Um dos meus tenores preferidos

06/02/2014

Deleite da alma - VI "O Último Segredo"


Cristo Crucificado, Século XVII, Índia, no Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra


Ando a ler, como já referi,  O Último Segredo de José Rodrigues dos Santos, é um livro cativante. A abordagem policial é sustentada por um tema fascinante a história de Jesus. Um romance policial com charadas para resolver e mistérios intemporais. Segundo o autor este livro resulta de um apanhado de dados efectuados por historiadores sobre o Novo Testamento. 



JRS baseou-se em estudos de análise histórica do Novo Testamento, tais como:  Von dem Zwecke Jesu und seiner Jünger de Hermann Reimarus, publicado em 1778; The Quest of Historical Jesus de Albert Shweitzer; The Formation of the Christian Bible de Hans Campenhausen; e Ortodoxy and Heresy in Earliest Christianity de Walter Bauer. 
Entre os historiadores e teólogos contemporâneos constam E. P. Sanders, The Historical Figure of Jesus e Jesus and Judaism, e sobretudo Bart Ehrman, Misquoting Jesus - The Story Behind Who Changed the Bible and How, entre outros títulos. 
Constam da lista consultada outros autores, tais como: Bruce Metzger; Burton Mack; Anthony Buzzard; Ami-Jill Levine; Fale Allison e John Dominic Crossan; e ainda escritores de obras apologéticas, como Craig Blomberg; James Sawyer e Daniel Wallace; Craig Evans e Paul Jones. 
Para além dos autores e dos respectivos trabalhos referidos, a Bíblia Sagrada, da Verbo, é também citada ao longo da obra. Quanto aos locais referenciados todos eles têm sustentação bibliográfica que se pode ver no livro, em nota final. 

[Obrigada.]


04/02/2014

Carpe Diem?


 Aprendizagem do Mestre - Desenhos e Aguarelas de Silva Porto
Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves 

- O que dizer a um homem que trabalhou uma vida para chegar ao Outono da mesma sem nada?
- De que valeu tanta luta?
- Carpe diem?

[O país em que vivo]

Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar ser perdoado como uma carícia não propriamente materna.
Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de Verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro...
Uma infância nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabe por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se torna morna, os perigos que penetravam em jovens cabelos louros como o trigo... E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, lá no fundo triste e sonolento da realidade última das coisas...

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982, Vol.II  p. 289.

02/02/2014

Histórias bonitas...

Alexander Aleksandrovich Deineka, Runners, 1934,
St.Petersburg. The Russian Museum
Alexander Deineka. Painting. Runners. 1934

Os irmãos Domingos e Dionísio Castro, corredores do Sporting, treinados pelo professor Mário Moniz Pereira, contaram à  SIC a sua história. Foi com comoção que narraram pertencer a uma família muito pobre (dormiam 5 irmãos numa cama).  Após a escola, a partir dos 6 anos, iam trabalhar numa fábrica de betão. Quando ganharam os primeiros prémios juntaram dinheiro e fizeram uma casa para os pais. O acto de benignidade dos Castro evidencia-se ainda, por pagar os estudos aos irmãos mais novos. Uma história triste que acaba bem. A história tocou-me, foram verdadeiros campeões.  

31/01/2014

a sublimação da mulher

Um livro que chegou para acrescentar a lista. [Obrigada]. :))



O neopaganismo trouxe a sublimação da mulher.
A expressão espiritual feminina é glorificada pela forma, pela sua idealização. O platonismo  amoroso transcende a grosseira materialização do instinto. Começa então para a mulher o reinado do espírito, da forma e da cor.

Natália Correia, Breve História da Mulher e outros escritos. Lisboa: Parceria A. M. Pereira Livraria Editora, 2003 (2ª edição), p. 88.


29/01/2014

Livros em pilha...



Myra Landau, Livros

A minha lista de livros aumenta, não tenho mãos a medir. 

Neste momento ando a ler "O Último Segredo", um livro que me foi gentilmente oferecido. Estou a gostar, o mistério e o assunto do livro são caros para mim.

Tenho na pilha:

- "O Esplendor da Austeridade, Mil Anos de Empreendedorismo das Ordens e Congregações em Portugal: Arte, Cultura e Solidariedade", um livro que já folheei com prazer mas que ainda não li com a atenção que merece. O livro é lindíssimo.

- "Dictionnaire du Ballet Moderne", já li algumas entradas, é para consulta. Há tanta coisa para aprender.

- "Sonetos do Obscuro Quê", de Manuel Alegre, um poema por dia. Um apreço por Itália é o que respira deste livro de Sonetos. Assinado pelo poeta o eco é imenso.

- "Papa Francisco A Alegoria do Evangelho, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium", o Papa é ainda um enigma para mim. A sua bondade e vontade de mudança causam-me surpresa, ainda vazia.

Esta lista de livros é recente [é com afecto que agradeço] tenho uma "residente" à espera de melhores dias.

Precisava de um retiro continuado na Quinta dos Visconde da Várzea 
(Turismo Rural) para colocar as leituras em dia.
Um presente que me ofereceram para apreciar o tempo.


27/01/2014

27 de Janeiro, em memória das vítimas do holocausto

Vidas partidas... laços desfeitos... uma visita em memória...                                      
«(...) Eu visitei Auschwitz-Birkenau em Novembro passado. Um vento frio soprava naquele dia, o chão sob os meus pés era rochoso. Mas eu tinha um sobretudo e sapatos resistentes; os meus pensamentos foram para aqueles que não tinham nem uma coisa, nem outra: os judeus e outros prisioneiros que outrora povoaram o campo. Eu pensei naqueles prisioneiros a passar horas em pé, nus, num clima gelado, arrancados às suas famílias, os seus cabelos rapados enquanto os preparavam para as câmaras de gás. Pensei naqueles que foram mantidos vivos apenas para trabalhar até a morte. Acima de tudo, reflecti sobre quão insondável o Holocausto permanece até hoje. A crueldade foi tão profunda, a escala tão grande, a visão de mundo nazi tão deformada e extrema, a mortandade conduzida de uma forma tão organizada e calculada. (...)
Marian Turski, um judeu polaco que sobreviveu a Auschwitz e é hoje o vice-presidente do Comité Internacional de Auschwitz, guiou-me através do infame portão com o lema "Arbeit Macht Frei" (O trabalho liberta) – desta vez em liberdade. O Rabino Yisrael Meir Lau, um sobrevivente de Buchenwald e agora o rabino-chefe de Telavive, esteve ao meu lado na rampa onde os comboios de transporte descarregavam a sua carga humana, e contou o momento traumático quando o rápido movimento do dedo indicador de um comandante das SS significava a diferença entre a vida e a morte. Sinto pesar por aqueles que morreram nos campos, e estou impressionado com aqueles que viveram – que carregam memórias tristes, mas também mostraram a força do espírito humano. (...)
Ao longo de quase uma década, o Programa de Informação “Nações Unidas e o Holocausto” tem vindo a trabalhar com professores e alunos de todos os continentes para promover a tolerância e os valores universais. O mais recente pacote educacional do programa, produzido em parceria com o Museu Memorial do Holocausto nos Estados Unidos, vai ajudar a introduzir estudos sobre o Holocausto nas salas de aula de países como o Brasil, a Nigéria, a Rússia e o Japão. Na cerimónia de comemoração deste ano na sede da ONU, o orador principal será Steven Spielberg, cujo Instituto Shoah para a História Visual e a Educação foi um marco na preservação dos testemunhos de sobreviventes.»

Secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, no Público, 26-01-2014, link.

Anne Frank é mais um registo das vítimas do holocausto.  Casa de Anne Frank (fotografia minha), Amesterdão

O que se podia ver do anexo da fábrica* link



24/01/2014

A beleza das brumas

Há brumas que têm beleza.

Vale do Mondego 



Agradeço ao João Menéres que me auxiliou nesta postagem. :))



23/01/2014

A. H. de Oliveira Marques - "a salvação das almas"

O homem é por natureza religioso. Dentro deste lema escolhi uma citação do historiador A. H. Oliveira Marques para o homenagear.

A fonte de Paio Guterres no Claustro do Silêncio, (Igreja de Santa Cruz)
porque o historiador é fonte de inspiração para os mais novos.
A. H. de Oliveira Marques nasceu a 23 de Agosto de 1933 
e faleceu a 23 de Janeiro 2007.

"Razões económicas e sociais, todavia, são geralmente insuficientes para uma compreensão global de qualquer feito da Idade Média. Dão-nos a base, a plataforma racional da acção, mas omitem esse invólucro colorido que todo o homem exige para se desculpar a si próprio e para convencer os outros de uma empresa nobre e idealista. No caso da expansão do século XV, um tal invólucro era feito de contextura religiosa dupla: a luta contra o infiel e a salvação das almas." 

A. H. Oliveira Marques, Breve História de Portugal. Lisboa: Presença, 1998, pp. 124-134.


19/01/2014

"O caso português"


Myra Landau, intitulado por mim: Elo partido

Porque sou portuguesa e me entristece o meu país, não podia deixar de publicar um trecho de Luís Raposo que saiu no Público.

«Em Novembro de 2013 foi dado a conhecer um Eurobarómetro referente aos hábitos culturais dos europeus especialmente devastador para o caso português. Quando se pergunta pela frequência de diferentes recursos culturais no último ano, verifica-se que a nossa melhor posição relativa (lugar 22 em 27) é a na assistência a programas culturais de TV e rádio; inversamente, no livro, no teatro e na dança/ópera, situamo-nos em último lugar; nos restantes domínios, estamos em penúltimo (cinema, monumentos e museus) ou antepenúltimo (bibliotecas).
(...) 
Os níveis de educação escolar são ainda mais relevantes no que respeita à visita a museus (porventura também à dança/ópera e muito menos ao cinema, livro, TV/rádio e monumentos).(...) Chegados aqui, voltamos, porém, ao princípio, ou seja, à situação em que nos encontramos nesta “ocidental praia lusitana”, onde não definhamos apenas por falta de dinheiro, mas também (ou sobretudo) por carência de política e de cidadania. Onde a moléstia atingiu tal dimensão que, nesta “triste e leda madrugada”, políticos, gestores e agentes culturais todos nos refugiamos em lugares de recuo e sobrevivemos apenas na nossa vidinha diária, tentando encontrar nela nichos de pequena felicidade. Onde, mais do que lutar, parece que desistimos também de pensar.»

Presidente do ICOM Portugal; membro da direcção do ICOM Europa
Luís Raposo, Público, 17-01-2014
Artigo 

17/01/2014

Selim, sombra e luz.


 Vazio

Olho para os livros, riqueza dos sábios,
e choro o vazio das páginas abertas. 
Da caneta pousada saiu uma sombra
a tinta da china sob papel branco.


«Jordi Savall, viola da gamba Rolf Lislevand, guitarra barroca Arianna Savall, arpa Pedro Estevan, percusión Adela Gonzalez-Campa, castañuelas Jordi Savall, Folías de España Grabado en el Festival de Lanvellec en el año 2002» Youtube 

15/01/2014

Livros, o deleite da alma - V, Denis Huisman

Outro livro recebido no Natal.

O belo não tem existência física. [Será?]
Benedetto Croce in,
Denis Huisman, A Estética. Lisboa: Edições 70, 2013, p. 83

BOTTICELLI, Angel with embroidered stole, detail from the Madonna of the Pomegranate,1487, Galleria degli Uffizi, Florença


13/01/2014

Twelve years...

Anonimous, Black Servant with flowers, spanish, first half sixteenth century, Houston


Clemens: Survival is not about certain death. It's about keeping your head down.
Solomon Northrup: Days ago I was with my family, in my home. Now you're telling me all that's lost? Tell no one who I am, that's the way to survive? Well, I don't want to survive. I want to live



Quando as fronteiras se unem só podem gerar a beleza deste retrato atribuído a Johann Zoffany.

Retrato inglês de Dido Elizabeth Belle (1761-1804) e a sua prima Lady Elizabeth Murray (1760-1825), sobrinhas netas de Lord Mansfield, que esteve na origem da interdição da escravatura em terras britânicas. O retrato encontra-se em Scone Palace, Perthshire, Ecosse. (Wikipedia) Link.

. File:Dido Elizabeth Belle.jpg

11/01/2014

Em memória de Al Berto

Al Berto nasceu em Coimbra em 1948 e faleceu em Lisboa em 1997.

A Escrita

a escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada

esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos

espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar

outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo

Al Berto, O Medo. Lisboa: Círculo dos Leitores 1991.

Para ouvir o silêncio...
 

09/01/2014

Livros, o deleite da alma - IV, Camões


Recebi este Natal uma edição dos Lusíadas, da Lello, que me fez feliz. Escolhi duas estrofes. 

Formato 10 x 13 cm
Os Lusíadas

Gian Lorenzo Bernini, Apolo e Dafne, Galleria Borghese,
Roma (Wikipédia)
                          1
Ficheiro:ApolloAndDaphne.JPGAgora tu, Calíope, me ensina
O que contou ao Rei o ilustre Gama:
Inspira imortal canto e voz divina
Neste peito mortal, que tanto te ama.
Assim o claro inventor da Medicina,
De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,
Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,
Te negue o amor devido, como soe.
                       
                        2
Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,
Como merece a gente Lusitana;
Que veja e saiba o mundo que do Tejo
O licor de Aganipe corre e mana.
Deixa as flores de Pindo, que já vejo
Banhar-me Apolo na água soberana;
Senão direi que tens algum receio,
Que se escureça o teu querido Orfeio.

Luís Vaz de Camões, Lusíadas. Porto: Lello Editores, Canto III, Estrofe 1 e 2. 1980, (p.81).


E porque Camões dedicou os Lusíadas a D. Sebastião

Arquivo