Um livro improvável... Porquê este livro?
[Interroguei-me a mim própria].
A resposta encontrei-a sem fechar os olhos: porque vivemos num tempo em que a delicadeza está esquecida, mesmo entre as pessoas que menos esperamos.
No entanto, foi a citação que li na página 94 que me levou à decisão final.
47
Pensamento de um filósofo polaco
Há pessoas formidáveis
que conhecemos no momento errado.
E há pessoas que são fomidáveis
porque as conhecemos no momento certo.
David Foenkinos, A Delicadeza, Lisboa: Presença, 2011, p. 94
O livro foi transposto para o cinema pelo autor do livro: David Foenkinos e pela sua irmã, Stéphane. Não vi o filme. Todavia, a actriz principal é a protagonista de "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain", Audrey Tatou que contracena com François Damiens.
A imprensa francesa destacou o livro do seguinte modo:
«Foenkinos conseguiu realizar uma missão impossível: fazer sorrir e refletir com um romance de amor. Os seus diálogos, como as situações que descreve, são suculentos…e delicados. Um livro que se deve ler e oferecer.»
Le Fígaro.
«O único romance selecionado para todos os prémios da rentrée literária (Médicis, Renaudot, Femina, Interallié e Goncourt).»
La Tribune.
É preciso atravessar o medo o deslumbramento o impossível.
Vergílio Ferreira, em nome da terra, Lisboa: Bertrand, 2004, p.117
21/07/2012
Há dias [im]perfeitos!
Just A Perfect Day,
Drink Sangria In The Park,
And Then Later,
When It Gets Dark,
We Go Home.
Just A Perfect Day,
Feed Animals In The Zoo
Then Later,
A Movie, Too, And Then Home.
Oh It's Such A Perfect Day,
I'm Glad I Spent It With You.
Oh Such A Perfect Day,
You Just Keep Me Hanging On,
You Just Keep Me Hanging On.
Just A Perfect Day,
Problems All Left Alone,
Weekenders On Our Own.
It's Such Fun.
Just A Perfect Day,
You Made Me Forget Myself.
I Thought I Was Someone Else,
Someone Good.
Oh It's Such A Perfect Day,
I'm Glad I Spent It With You.
Oh Such A Perfect Day,
You Just Keep Me Hanging On,
You Just Keep Me Hanging On.
You're Going To Reap Just What You Sow,
You're Going To Reap Just What You Sow,
You're Going To Reap Just What You Sow,
You're Going To Reap Just What You Sow...
Colhe à passagem uma flor sem se deter, no ondeado da aragem que a leva. E na outra mão segura contra o peito um açafate de mais flores. Mas tudo nela é aéreo e dócil.
Vergílio Ferreira, em nome da terra, Lisboa: Bertrand, 2004, p. 127
Columbano Bordalo Pinheiro, Retrato de Ida Bordalo Pinheiro e Virgínia Lopes de Mendonça (1910)
[Columbano] Mostra-nos uma sobrinha sentada, virada de frente, concentrada
sobre a leitura de um livro, enquanto atrás de si, espreita a outra sobrinha, encarando
furtivamente o espectador. A que está a ler é provavelmente Virgínia (1881-1969), que foi escritora de contos infantis. As duas estão elegantemente vestidas, em traje de
passeio, denotando a efemeridade do momento captado, o que é comum a muitos
retratos de mulheres na obra de Columbano (...). O quadro foi pintado de uma forma larga, sem detalhe, num estilo vaporoso que recorda os retratos de Besnard ou de Sargent, que Columbano admirava. (...) Na obra de Columbano não havia a mesma leveza mundana que existia nas obras de outros artistas (Sargent ou Boldini, por exemplo), e os seus retratos são geralmente ensombrados pelo peso da realidade.
Margarida Elias, Columbano no seu Tempo (1857-1929), Tese de doutoramento apresentada na Universidade Nova, Lisboa,. p.319-20
Margarida Elias, na sua tese, defendeu brilhantemente as influências internacionais e a especificidade da pintura de Columbano Bordalo Pinheiro.
Sendo apenas uma apaixonada pela arte deixo, à Margarida, uma visão sobre pintores do crítico de arte Fernando Flórez que julgo se pode aplicar a Columbano.
Gosto muito deste retrato de Ida e de Virgínia pois tem uma atmosfera tão interessante!
István Orasz, Horror vacui (horror ao vazio), 2006*
El artista avanza, retrocede, se inclina, entorna los ojos, se comporta con todo su cuerpo como um accesorio de su ojo, se convierte entero en órgano de visión, enfoque, regulación e puesta a punto.
Fernando Castro Flórez (crítico de arte), El dibujo como forma de pensamiento,Catálogo da exposição nulla dies sine, Dibujo Español Contemporáneo, Madrid:Ministerio da Cultura, 2010, p.17.
* Juntei a ilustração de István porque joga com as palavras de Flórez.
Ontem ao descer uma das escadas da cidade encontrei um barquinho de papel. apanhei-o, sorri, e guardei-o.
Um barquinho para nos levar a viajar. Sonhei com a ida a Veneza, agora um sonho adiado. Da Biblioteca Municipal havia trazido o livro de Steve Berry, A Traição Veneziana. O cenário veneziano entrara assim, nas minhas leituras.
À tarde, tinha em casa um presente que era a oferta de uma viagem a Veneza. A minha amiga Cláudia Ribeiro, da Livraria Lumière, enviou-me o roteiro de Veneza, ofereceu-me a viagem sonhada. Obrigada Cláudia por Veneza ter entrado em minha casa. Há quem diga que não há coincidências!
Jane Gatti deixou-me roubar este poema que casa muito bem com este presente, pois abriu a minha janela de par em par para ver a poesia de VENEZA.
Emergência
Quem faz um poema abre uma janela. Respira, tu que estás numa cela abafada, esse ar que entra por ela. Por isso é que os poemas têm ritmo - para que possas profundamente respirar. Quem faz um poema salva um afogado.
Quand sur la plage tous les plaisirs de l'été
Avec leur joie venaient à moi de tous côtés
À cet image de la plage ensoleillée
C'est bien dommage mais les amours de l'été
Bien trop souven craignent les vents en liberté
Mon coeur cherchant sa vérité
Vien faire naufrage sur la plage désertée
Le sable et l'océan, tout est en place
De tous nos jeux pourtant je perd la trace
Un peu comme le temps, la vague éface
L'empreinte des beaux jours de notre amour
Mais sur la plage le soleil revien déja
Passer le temps, le coeur content reprends ses droits
À l'horizont s'offre pour moi
Mieux qu'un mirage une plage ensoleillée
***
Le sable et l'océan, tout est en place
De tous nos jeux pourtant je perd la trace
Un peu comme le temps, la vague éface
L'empreinte des beaux jours de notre amour
Mais sur la plage le soleil revien déja
Passer le temps, le coeur content reprends ses droits
À l'horizont s'offre pour moi
Mieux qu'un mirage une plage ensoleillée
(retirada do youtube)
No Jornal de Letras li uma entrevista interessante sobre Cultura e Crise. Dela retirei este trecho:
"JL: Numa época de grande crise, porque é que a cultura é importante?
Jorge Barreto Xavier: Vivemos num paradigma errado sobre a presença da cultura na vida das diferentes sociedades. Pensamos e agimos como se a cultura fosse algo que só se pudesse cumprir quando outras coisas estão alcançadas. Hoje a coesão social exige e necessita como prioridade a construção de identidades e perspetivas societárias comuns. E isso só pode ser conseguido através da cultura. Esta não pode ser vista como algo que se dá quando tudo está resolvido. Aliás, se pensarmos assim, nem resolvemos as outras coisas. A questão da cultura, independentemente de ser política e pública, deve ser vista como preponderante no debate público-
A cultura gera emprego, visibilidade, competitividade económica e riqueza. "
Ontem no Jardim da Sereia a Myra esteve presente, apesar de ser só em pensamento.
Jardim da Sereia, Coimbra, Festas da Rainha Santa Isabel
envelhecem apenas
os que não olham e não escutam o caminhar de anos se veste de sonhos é a derrota dos pesadelos.
Myra Landau
Obrigada Myra pelo poema que acompanha a derrota dos pesadelos. Já está no lado esquerdo desta janela.
Ontem, nas festas da cidade, ouvi Carlos Gardel e vi o tango dançado divinamente!
Estrelas cadentes iluminaram
o Céu e a Terra em perfeita harmonia. Após a ira dos mares, chegou da Terra Prometida a fragrância dos sonhos que digladiam os pesadelos. Então, a luz em diáspora tocou no centro do Universo.
Obrigada Myra pela beleza!
DEIXA QUE A VIDA TE ACONTEÇA. ACREDITA - A VIDA ESTÁ SEMPRE CERTA,
Rainer Maria Rilke, pela mão de João Menéres a quem também agradeço.
"Nulla die sine linea. Ni un solo día sin una línea",
Citação atribuida a Plinio el Viejo, 23-79 a.C.
Plinio contaba la historia de Apeles de Colofón, pintor oficial de Alejandro Magno, quien tenía el hábito sistemático de no dejar pasar ni un día sin praticar su arte trazando al menos una línea. Una de estas líneas que trazó en una tabla donde otros estaban dibujando era tan fina que nadie pudo reproducirla.
Existe algo más elemental y a la vez poderoso en el arte que el trazado de una simple línea?
Catálogo da exposição nulla dies sine linea, Dibujo Español Contemporâneo, Madrid: Ministerio de Cultura, p. 9.
Ser imperfeito é fácil, difícil é atingir a perfeição.
O Manual da Pintura e da Caligrafia de José Saramago é uma interessante abordagem ao jogo de espelhos barroco. A duplicidade entre o "eu" retratado e o "eu" real, ou como o pintor o vê, espanta o leitor. É um belo exercício entre a escrita e a pintura. É uma metáfora entre a realidade intrínseca do eu e o eu como deseja ser visto. A personagem principal chama-se S. O livro é uma viagem ao interior de nós mesmos, usando a linguagem comparativa entre a escrita e a pintura. Está a ser uma boa surpresa ler este livro.
O ilustrador húngaro, István Orosz, na mesma linha de Escher, aborda a realidade ilusória que liga tão bem, a meu ver, com o Manual de Saramago. Ou seja, é a simbiose perfeita entre o "eu interior e o "eu" retratado que se vê da janela.
Tenho dois retratos em dois cavaletes diferentes, cada um em sua sala, aberto o primeiro à naturalidade de quem entra, fechado o segundo no segredo da minha tentativa frustrada, e estas folhas de papel que são outra tentativa, para que vou de mãos nuas, sem tintas, nem pincéis, apenas com esta caligrafia, este fio negro que se enrola e desenrola, que se detém em pontos e vírgulas, que respira dentro de pequenas clareiras brancas e logo avança sinuosa, como se percorresse o labirinto de Creta ou os intestinos de S. (interessante: esta última comparação veio sem que eu a esperasse ou provocasse. Enquanto a primeira não passou de uma banal reminiscência clássica, a segunda, pelo insólito, dá-me algumas esperanças: na verdade, pouco significaria se eu dissesse que tento devassar o espírito, a alma, o coração, o cérebro de S. : as tripas são outra espécie de segredo.) E tal como já disse logo na primeira página, andarei de sala em sala, de cavalete em cavalete, mas sempre virei dar a esta pequena mesa, a esta luz, a esta caligrafia, a este fio que constantemente se parte e ato debaixo da caneta e que, não obstante, é a minha única possibilidade de salvação e de conhecimento.
José Saramago, Manual de Pintura e Caligrafia, Lisboa: Caminho, 2006 (6ª edição), p. 45-46.
No dia em que os homens puderem apreciar a beleza pela beleza, apreciar a harmonia dumas cores justapostas, duns sons que se sucedem, é porque estarão libertos dos problemas vitais que hoje não podemos ignorar.
Não sei se será possível. O homem está a progredir em inteligência e a perder a emotividade. Dizem-nos os behaviouristas. Quando chegarmos a essa época já o homem não terá sensibilidade para apreciar a arte, seja ela pura ou não...
Augusto Abelaira, A Cidade das Flores, Lisboa: Betrand, 1972, p. 254-255.
Noa fez parte duma caminhada que ainda não terminou. Todavia, chegou um tempo, nesta jornada, em que as escarpas se tornaram menores e o Sol começa a brilhar timidamente.
Timidez não é necessariamente mau, pois é a consciência de como o universo é tão grande e nós tão pequenos.
Casa dos Bicos, uma excelente recuperação do edifício
Perspectiva dos Bicos
Do Memorial do Convento uma frase para a viagem de Saramago
Biblioteca
Sala de exposição com as obras e os principais aspectos da vida literária de Saramago
Títulos, fotografias e documentos diversos
Um poema na contracapa do caderno de apontamentos ilustrado com uma pintura da filha de Saramago, Violante Saramago Matos. Têm o bom gosto das páginas não possuírem linhas. Podemos colocar pensamentos, guardar flores e fazer desenhos.
Como eu gostava que a minha rosa crescesse assim... (animação revisitada)
Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.
s.d.
Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos, (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994, p. 129.
Ramon Casas (1866-1932), Jove decadeant (Després del ball). Oli sobre tela, 46,5 x 56 cm, 1899. Museu de Monserrat, Abadia de Monserrat, Espanha
Conheci esta tela através da capa do livro de Pamuk, O Romancista Ingénuo e o Sentimental. Um livro que comecei a ler ontem, após me ser oferecido.
1. O que se passa na nossa cabeça quando lemos romances
Os romances são vidas segundas, vidas paralelas às nossas. Como os sonhos de que fala o poeta francês Gérard de Nerval, os romances revelam o colorido e as complexidades das nossas vidas e estão cheios de gente, rostos e objetos que pensamos reconhecer. Tal como nos sonhos, quando estamos a ler romances somos, por vezes, tão fortemente atingidos pela natureza extraordinária das coisas com que nos deparamos que chegamos a esquecer onde estamos e vemo-nos no meio do acontecimento e pessoas imaginárias que se nos apresentam pela frente. Nessas alturas, sentimos que o mundo ficcional com que deparamos e a que nos encarregamos com entusiasmo é mais real do que o próprio mundo da realidade quotidiana. Que essa vida paralela, essa vida segunda possa parecer-nos mais real do que a realidade significa frequentemente que substituímos a realidade pelos romances, ou pelo menos confundimos a realidade do romance com a vida real. Mas nunca nos queixamos, nunca nos arrependemos dessa ilusão, dessa ingenuidade. Pelo contrário, como quando temos certos sonhos, queremos que o romance que estamos a ler continue e esperamos que essa vida paralela provoque em nós um sentido sólido, consistente da realidade e da autenticidade.
Orhan Pamuk, O Romancista Ingénuo e o Sentimental, Barcarena: Editorial Presença,(trad. de Álvaro Manuel Machado) 2012, p. 11.
Sandro Botticelli, Detalhe de Vénus e Marte, c. 1485, The National Gallery, Londres
Sorri um pouco, sorri. Na perene juventude do teu imaginar. Flor aérea que para sempre te ficou. Lembra devagar o teu sorriso de outrora no teu deslumbramento. E sê feliz.
Vergílio Ferreira, Pensar, Lisboa: Bertrand, (7ª edição), 2004, p. 152
Paolo Ucello, Battagliaa di San Romano, Bernardino Della Ciarda, Detail 1, 1450s, Galleria Deggli Uffizi, Florença
Durante a guerra os homens têm sentimentos generosos,ideais profundos;quando a paz vem, apodrecem, perdem a sinceridade, tornam-se estúpidos, conservadores... Às vezes penso que uma guerra nos revelaria o que há em nós de generoso e de puro, nos revelaria que todos somos irmãos, nós e os inimigos.
Augusto Abelaira, A Cidade das Flores, Lisboa: Bertrand, 1972, (4ª edição), p. 36.
Em que medida é a escrita de Abelaira contemporânea? Estaremos a apodrecer?
Com especial agradecimento a Cláudia Ribeiro da Livraria Lumière.
Angeles Chorale, UCLA Coral, UCLA Filarmónica, maestro Donald Neuen,
Anush Avetisyan (Leonora), soprano, 2011
Royce Hall, UCLA - Verdi "A Força do destino"
De manhã temendo que me achasses feia, acordei tremendo deitada na areia, mas logo os teus olhos disseram que não e o sol penetrou no meu coração.
Vi depois, numa rocha, uma cruz, e o teu barco negro dançava na luz; vi teu braço acenando, entre as velas já soltas. Dizem as velhas da praia que não voltas... São loucas! São loucas!
Eu sei, meu amor, que nem chegaste a partir, pois tudo em meu redor me diz que estás sempre comigo.
No vento que lança areia nos vidros, na água que canta, no fogo mortiço, no calor do leito, nos bancos vazios, dentro do meu peito estás sempre comigo.
David Mourão-Ferreira
Poema escrito em 1954 para Amália Rodrigues cantar no filme francês "Les Amants du Tage" filmado em Lisboa. (cortesia do google)