Um novo ano, no imaginário humano todas as esperanças e promessas se renovam, o futuro pode ressarcir o passado... tudo se torna possível no ciclo da vida.
Assim, procuro nas palavras de uma amiga a cura para a Humanidade como mote de iniciação.
(...) Hoje o que venho pedir-te é a cura para a Humanidade. Os Homens estão doentes. Assistimos a todo o momento a guerras em praça pública e a julgamentos em busca de aplausos: "ele é mau, porque eu sou bom"; "ele não sabe, eu é que sei"; ele isto, eu aquilo... Como se pode sentir bem um homem que julga outro em busca de proveito próprio? E como podem outros aplaudir comportamentos assim? E onde fica a tão apregoada solidariedade? Todos somos imperfeitos, mas o Homem tornou-se egoísta e "apontar o dedo" é, infelizmente, mais fácil e rápido do que olhar para dentro de si.
Proliferam atitudes como a rivalidade, a inveja, a hipocrisia, a mentira, a falsidade, a má-língua, a corrupção, o oportunismo, a conveniência – uma longa lista.
Durante uns dias a Humanidade irá fingir que é Carnaval, colocar as suas máscaras e engalanar-se para as festas. Vai dar-se o mundo embrulhado em laços coloridos de amizade, amor e solidariedade.
Por isso, Menino Jesus, neste Natal, queria pedir-te que fizesses com que os homens se tornem mais conscientes e melhores, pois, se isso acontecer, o mundo poderá retomar um pouco do seu equilíbrio perdido e seremos todos muito mais felizes.
Do novo livro da minha amiga Graça, uma escolha para o Dia de Portugal (de Camões e das Comunidades Portuguesas):
os anjos também choram os anjos também choram mesmo nas manhãs mais sublimes quando o sol acorda lento e devagar as lágrimas dos anjos são risos e asas e brandura homens a digladiar-se festas e risos falsos quando os anjos adormecem são felizes e riem porque sonham com o Éden onde moram para sempre e deixam de ser anjos a afugentar monstros e lobisomens numa corrida desesperada de asas incansáveis mas se já não há deuses que importa o choro dos anjos a derramar-se para cá das nuvens e a fazer infelizes os homens que sentem as suas lágrimas
Graça Alves, Da Timidez dos Homens, Coimbra: Palimage, 2017, p.42.
Um presente da minha amiga Graça, "pastinhas" da Casa de Infância Doutor Elísio de Moura com poemas que são vendidos na altura da queima das fitas. O dinheiro reverte para a casa que acolhe meninas desde a infância até aos 20 anos. O poema é da Graça.
Flores do campo
da minha janela vejo o vento
que tu não vês
gosto de navegar
no baloiço dos teus olhos
na liquidez das suas palavras
e rio-me
como uma criança inocente
à descoberta do mundo por abrir
sinto o aroma das searas
a entrar-me pelos poros
e escrevo a beleza dos dias tristes
recuso a calmaria das marés
sem gritos e sem pressas
a solidão disfarçada
esse andar devagar
o meu corpo é uma chama ardente
a clamar desesperos poéticos
a poesia é coração
o amor são rosas
Graça Alves
*Ainda lhe quis colocar um título mas achei que era um abuso.
Rompia a aurora a assinalar o início do dia, entrelaçada com o perfume da manhã, para enaltecer os malmequeres. Colhi-os com delicadeza para com eles fazer uma coroa. Não era uma coroa qualquer, era uma coroa para coroar uma amiga.
as árvores já não gostam dos homens é um poema que trago da minha amiga Graça e com o qual ela ganhou o 2º prémio da VI edição do Concurso "Poesia da Biblioteca" da Biblioteca Municipal de Condeixa. Parabéns Graça!:))
as árvores já não gostam dos homens
as árvores já não gostam dos homens
porque eles atraiçoaram-nas
adiantando os relógios malditos
ao encontro suicida da apoteose final
aliciante cinzenta e indistinta
os pássaros foram fazer ninhos
nas nuvens negras
as crisálidas apodreceram no porão
dos navios abandonados
onde naufragaram os desejos
das sete virgens que sonharam
com paraísos e felicidade infinita
veio um deus maldito
sacudir as frutos das árvores
que apodreceram nas searas
onde não nascem papoilas
as montanhas abriram-se
formando túneis vazios
as casas ardem de febre
porque os homens têm o betão
o níquel a prata e o ouro
por dentro das veias e dos músculos
e as crianças que brincavam dentro deles
adormeceram para sempre
agora as árvores estão velhas e cansadas
viram as costas aos homens e adormecem zangadas
num sonho agitado e perturbador de cavalos a galope
Há muito tempo que ando para partilhar um livro de poesia escrito por uma amiga. Tive o feliz acaso de transportar para o lançamento do livro duas pessoas que lhe eram muito queridas. É uma Mulher com M grande, tomou o caminho e foi "para além da curva da estrada" como o belo poema de Alberto Caeiro. Equacionou a sua existência e para ser coerente consigo própria teve que fazer escolhas muito difíceis. É destemida, mas não sem temor, decidida, mas não sem dúvidas, forte, mas não sem fragilidades, ela avança hoje, devagar, devagarinho, amanhã, mais depressa, mas neste corre-corre do dia-a-dia publicou o seu primeiro livro de poesia: um objectivo que tinha na vida.
Parabéns Gracinha!
O dia declina
O dia declina
A selva escurece pouco a pouco
Os contornos das árvores
Assemelham-se a monstros
Os gritos selvagens dos bichos
Ecoam por toda a parte
Luta-se pela sobrevivência
e no fundo do coração da terra
Abre-se uma caverna inimaginável
Onde reina o silêncio
Vem de lá o mistério insondável
Que nos sústém o alento
A sorte é haver nevoeiro
No meio dos bichos
A ponte interminável para chegar à caverna
É a imaginação.
Graça Alves, Cores do Silêncio. Coimbra: Palimage, 2015, p. 57.